Lava Jato não pode parar ! ! !
Dure o tempo que durar
Editorial
Já que parece mesmo
impossível controlar a Lava Jato ou cortar-lhe as asas,
chegou a hora de apelar à
tese da ingovernabilidade ou de reação avassaladora contra o movimento
moralizador, como fez Padilha
Em encontro com empresários no dia 16 passado, o ministro-chefe da Casa Civil, Eliseu
Padilha [PMDB-RS], fez elogios à Operação Lava Jato e disse que o
presidente em exercício Michel Temer apoia as investigações, mas fez uma significativa observação: “Tenho certeza de que os principais agentes
da Lava Jato terão a sensibilidade para saber o momento em que eles deverão
aprofundar ao extremo e também de caminhar rumo a uma definição final”,
pois só assim serão evitados “efeitos
deletérios”. Com isso, o ministro jogou a cartada da possibilidade do
colapso do sistema político – como aconteceu com a Mani Pulite, na Itália – para
evitar que a Lava Jato vá, segundo sua opinião, longe demais.
Muito se tem dito, quase sempre em tom de denúncia,
a respeito de manobras e conchavos de políticos graúdos para interferir nas
investigações da Lava Jato. Meias-palavras captadas em grampos, ditas na
maioria das vezes em tom de mero comentário, têm sido suficientes para dar
impulso a teorias conspirativas de todo tipo, alimentadas pela sensação geral
de que, como as coisas vão, ninguém se salvará em Brasília. Isso não significa
que os parlamentares que se viram envolvidos ou temem em breve vir a sê-lo não
tenham o desejo de enterrar a Lava Jato, já que a operação está a lhes depenar
a galinha dos ovos de ouro. Mas o fato concreto é que, se houve ou há qualquer intenção de atrapalhar a Lava Jato, e se essa
intenção foi de alguma forma transformada em manobra concreta, a tramoia foi
até aqui muito malsucedida, pois raros são os dias em que não aparecem
novas denúncias a sacudir o mundo político. Por essa razão, já que parece mesmo
impossível controlar a Lava Jato ou cortar-lhe as asas, chegou a hora de apelar à tese da ingovernabilidade ou de reação
avassaladora contra o movimento moralizador, como fez Padilha.
Para ilustrar os “efeitos deletérios” aos quais fez referência, o ministro lembrou
da Operação Mãos Limpas, investigação
italiana que inspirou a Lava Jato. Segundo
Padilha, na Mãos Limpas “não houve
essa sinalização” a respeito do fim dos trabalhos, como ele espera da Lava Jato.
O resultado foi a destruição de alguns dos principais partidos políticos
italianos, envolvidos em grossa corrupção, e a ascensão do populismo
aventureiro de Silvio Berlusconi. “Eu vi e li o que aconteceu com a Operação Mãos Limpas na Itália. Todos eles (da
Lava Jato) conhecem tanto quanto eu. Temos que fazer com que tenhamos o melhor
resultado possível”, explicou Padilha mais tarde aos jornalistas, sugerindo que
o “melhor resultado possível” é aquele
obtido até agora, sem necessariamente avançar mais.
Essa tem sido, aliás desde sempre, a principal
crítica dos adversários da Lava Jato, mas trata-se
de uma falsa questão. De fato, a investigação na Itália, nos anos 1990,
dizimou o sistema político, e o vácuo de poder criado foi logo ocupado por
Berlusconi. Mas atribuir essa situação à Operação Mãos Limpas, que apenas cumpriu sua missão de prender os
assaltantes do Estado italiano, é isentar de responsabilidade os partidos, os
líderes políticos e os empresários que haviam transformado a democracia
representativa em um meio eficaz de enriquecimento. E que, depois,
reconstruíram os mecanismos de impunidade que haviam sido demolidos pelos
promotores e juízes. Não haveria
necessidade de Operação Mãos Limpas
se, antes, não houvesse sujeira nas mãos.
Entende-se a preocupação do mundo político com a
Lava Jato. A corrupção, que era apenas resultado de oportunidades criadas pelo
gigantismo do Estado no País, graças aos governos do PT transformou-se em um
método de administração e de manutenção do poder. O que a Lava Jato está revelando, pedaço por pedaço, é o esquema de sequestro do Estado para fins de perpetuação de
uma casta política, totalmente indiferente ao voto recebido na urna –
obtido, aliás, por meio de campanhas financiadas com
dinheiro roubado de estatais.
É esse o círculo – virtuoso para seus usufrutuários
criminosos – que está a caminho de ser rompido. Faz sentido que os políticos queiram “concluir” a Lava Jato antes que
toda a verdade seja conhecida. Do ponto de vista da sociedade, porém, está
mais do que claro que a Lava Jato deve
durar o tempo que for necessário, até que todos os que exploraram a democracia
para se locupletar paguem pelo que fizeram.
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