Fazer justiça, injustamente
José González
Faus
Teólogo
jesuíta espanhol
Religión
Digital
31-05-2016
Os meios de comunicação, assim como os políticos,
tendem a excitar as emoções e a brincar com elas. Quando as emoções se agitam,
é quase impossível manter a serenidade necessária para fazer verdadeira
justiça. Por mais difícil que seja não esqueçamos que condenar um inocente é
tão grave quanto abusar de outro inocente
A pedofilia é uma aberração criminosa.
Mesmo como uma tentação acho que é difícil de compreender. Penso recordar que
havia algo dela no Satíricon de
Petrônio; mas me pareceu tão estranho que o deixei como coisa daquela Roma
corrupta.
Hoje, está na ordem do dia.
No mundo e na Igreja. Não sei se porque desvalorizamos tanto o sexo que já não cumpre mais
a promessa que veicula e então a buscamos nessas deformidades. Com o agravante
de que o abusado converte-se facilmente
em abusador, enquanto este tende a
apresentá-la como “uma variante a mais”.
Penso
conhecer bem a massa humana e posso compreender qualquer fragilidade e qualquer
aberração. Mas, nos casos de
eclesiásticos [padres, bispos, monges, frades etc.], não entendo que depois se mantenha uma dupla vida continuada: isso,
mais do que uma imoralidade implica uma autêntica falta de fé.
Acrescente-se que, como assinala o filme Spotlight, nos casos da Igreja, atrás da culpa das pessoas há uma culpa do
sistema: uma idolatria do padre mantida talvez como atração vocacional, mas
contrária ao Evangelho o qual chama sacerdotes somente a Cristo e ao
Povo de Deus e não aos ministros da Igreja. [E essa
idolatria, supervalorização e clericalização do padre está mais em voga do que
nunca!]
Algo
disso assinalou o bispo australiano J.
Robinson, encarregado por seus irmãos de estudar os casos de pedofilia. Mas
a Cúria romana o impediu de levar suas pesquisas por este caminho. O bispo saiu
e depois publicou um livro (Poder e
sexualidade na Igreja) onde já é expressiva a primeira palavra do título:
poder, não sexo. Evoca-me o que vivi em casos de meninas abusadas por seus
pais: a autoridade da figura paterna, o
desejo da menina de que seu pai a quisesse, é o que as levou a ficar caladas e
depois (além disso) as deixava
absurdamente culpabilizadas. Não cabe, pois, tolerância com esse flagelo.
De acordo.
Mas,
todas as realidades humanas têm dois
lados e, se nos prendemos a apenas
um, as deformamos. Assim poderia acontecer que, querendo fazer justiça,
cometamos novas injustiças. Por exemplo:
1-
Não aconteceu algo semelhante com os maristas em Barcelona?
Os irmãos
maristas escreveram na Síria páginas heroicas de solidariedade, sem merecer a
mínima atenção e reconhecimento por parte da imprensa. Agora, de repente ocupam
manchetes de jornais, sem outra identificação: “maristas-pedofilia”. Que
fossem professores contratados e não membros da Congregação, pouco importava.
As explicações dadas pelo Colégio também não tiveram muita divulgação.
Imaginemos que a imprensa mais reacionária de Madri publicasse a seguinte
manchete: “Pedofilia na Catalunha” ou “Os catalães pedófilos”. Isso nos
pareceria justo? [Para detalhes do caso, clique aqui]
Se
a resposta é “não”, perguntemo-nos agora: temos
sido justos com os maristas? Ou há
gente que, por não sei qual outra estranha perversão, parece que só encontra
prazer quando pode jogar lixo sobre a Igreja? E me atrevo a falar assim
porque, pessoalmente, sofri bofetadas e acusações por “não amar e criticar a
Igreja”. Mas as críticas devem servir para melhorar a realidade, não para gozo
próprio. Houve o mesmo clamor constante quando Sánchez-Dragó jactou-se de ter
transado com duas adolescentes de 13 anos... mas japonesas? [Fernando Sánchez Dragó é escritor e apresentador de
televisão em Madri, Espanha, disse em seu livro "Dios los cría... y ellos
hablan de sexo, drogas, España, corrupción...", que em 1967 fez sexo com
duas meninas japonesas de 13 anos em Tóquio, no Japão. Posteriormente negou,
afirmando tratar-se de uma "anedota" convertida em literatura...]
COLÉGIO MARISTA DE BARCELONA (ESPANHA) ONDE PROFESSORES FORAM DENUNCIADOS E AFASTADOS POR PEDOFILIA - FEVEREIRO DE 2016 |
2-
Em 2004, em Outreau, um povoado francês, explodiu um escândalo de pedofilia. Cinco anos depois, vários
condenados foram declarados inocentes, mas um deles já se havia suicidado na
prisão, por desespero. Um médico,
prefeito de Sécher, passou vários anos na prisão até que o acusador reconheceu
ter mentido. Pois bem, a dor do
injustamente acusado é tão grande quanto a do canalhescamente abusado. Sei
disso porque conheço um caso que me fez compartilhar essa dor pessoalmente.
Infelizmente,
a justiça humana não apenas pode ser, às
vezes, deliberadamente injusta, mas tropeça frequentemente com mil obstáculos
devidos à complexidade do real. E quando já se criou um clamor emocional é
muito difícil serenar as massas, que se sentirão compreensivelmente traídas. Mas a autêntica justiça reclama segurança
na culpa.
“Tolerância zero” não
significa converter a presunção de inocência em presunção de culpabilidade, nem perverter o clássico
princípio romano: “in dubio pro reo”
em “in dubio contra reum” [trad.: “em dúvida, a favor do acusado” em “em dúvida, contra o acusado”]. Porque há casos em que não temos senão a
palavra de um contra a palavra de outro. E esta geração onipotente do mimo,
do iPad e do selfie, não tem muitos escrúpulos em ameaçar que, “se me reprovas em matemática faço uma
denúncia contra ti”.
3-
É estranho que pessoas que passam dos 50 anos, sintam hoje necessidade de
denunciar abusos sofridos há 40 anos, e sempre em colégios religiosos. Já corre o rumor
de que, por trás desse dado, late uma campanha camuflada contra a escola
estabelecida. Recordemos que, nos
Estados Unidos, a denúncia repentina de casos antigos coincidiu com a oposição
da Igreja à barbárie de Bush no Iraque. E que, tanto no Chile de Allende
como na Venezuela de hoje, junto ao inegável desabastecimento produz-se um
monopólio oculto, como acaba de denunciar um bispo venezuelano.
4-
Um outro problema vergonhoso nosso é a violência machista. Mas uma policial (mulher
para mais informação) me disse um dia que eu
não podia imaginar a quantidade de denúncias falsas que recebem; e que não
podiam dizer isso porque toda a opinião pública cairia em cima deles e os
acusaria de cumplicidade.
E
para terminar: os meios de comunicação,
assim como os políticos, tendem a excitar as emoções e a brincar com elas.
Quando as emoções se agitam, é quase impossível manter a serenidade necessária
para fazer verdadeira justiça. Por mais
difícil que seja não esqueçamos que condenar um inocente é tão grave quanto
abusar de outro inocente.
Traduzido do espanhol por André Langer (com correções feitas por
Telmo José Amaral de Figueiredo). Acesse a versão original deste artigo,
clicando aqui.
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