Igreja e juventude, a saudável batalha perdida
Marcello Neri
Teólogo
italiano – Professor na Universidade de Flensburg (Alemanha)
Settimana
News
01-06-2016
O descolamento geracional é vertiginoso, e é preciso
remediá-lo de algum modo em tempos muito curtos.
Caso contrário, perdê-los-emos para sempre – eles, os
jovens e a sua fé.
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MARCELLO NERI Teólogo italiano |
E
eu posso dizer que lutei até agora com toda a honestidade; mas, neste momento,
seguir em frente assim seria um crime contra eles. Nem mesmo as fendas mais arejadas abertas sobre o VATICANO II os
acalenta um pouco, gerando uma paixão qualquer não só pelo tema, mas também
pela coisa em si. Aquelas fendas que me capturam e me convencem todos os
dias de uma apaixonada adesão à comunidade do Senhor.
O DESCOLAMENTO GERACIONAL é
vertiginoso, e é preciso remediá-lo de algum modo em tempos muito curtos. Caso contrário,
perdê-los-emos para sempre – eles, os jovens e a sua fé.
Os dois primeiros capítulos da Lumen gentium, sobre a qual se
construiu a história da minha fé na participação na vida e nas vicissitudes da
Igreja, são para eles como um texto
escrito em hieróglifos. Enfadonho, distante da vivência deles com as suas
referências, complicado e inacessível. Feito para falar com as condições atuais
do tempo, ele perdeu a sua voz pela estrada.
Nem
a imagem de uma tradição criativa (defendida
pelo teólogo jesuíta alemão, radicado na França, Christoph Theobald), nem a que a vê como lenta acumulação de camadas sobre as quais se inserem descartes (proposta
pelo historiador do cristianismo, o italiano Massimo Faggioli) move em um
milímetro a sua paixão. Que, contudo, existe, eu lhes garanto; apenas que,
desse modo, precisamente, não conseguimos alcançá-la.
Eu
entendo muito bem que é o meu trabalho e
dever, afinal de contas, explicar-lhes como a máquina funciona; mas eles não conseguem mais vê-la
permanentemente parada na oficina – enquanto nós a desmontamos e
remontamos, reescrevendo, todas as vezes, o manual de instruções.
Eles gostariam de vê-la se
mover ao longo das estradas do humano, como deveria acontecer com ela. Sinal que se encarrega da
desmesura do Reino, da dedicação sem limites e sem medida do Deus de Jesus.
Encontremos logo uma forma
de não fazer da Igreja um clube de cinquentões, ou mais, que lutam
arduamente entre si sobre o subjetivo e sobre o objetivo; de qualquer parte da
luta que nos inclinemos, inevitavelmente, já perdemos os jovens.
Até
mesmo a nossa paixão por Francisco é suportada por eles com dificuldade, na
cordial apreciação que não deixam de conceder ao que é nosso. Estão fartos de textos que jogam com a
alquimia das palavras; em vez disso, estão à espera de PRÁTICAS EVANGÉLICAS
GENUÍNAS, como dever próprio da Igreja.
A
paixão pelo evangelho e a perda de credibilidade da Igreja, que os distingue,
devem nos interrogar urgentemente e inquietar profundamente. Estamos correndo o risco de perder uma
oportunidade epocal; e a culpa é apenas nossa.
Contudo,
eu devo acabar o curso de alguma forma, e eles comigo, se quiserem seguir em
frente com os seus estudos. Mas capturá-los na trama dessa chantagem seria
indigno da beleza da sua fé e da reivindicação do Reino.
Por
enquanto, eu só tenho o brilho incerto de alguma ideia. Uma redução extrema aos
fundamentos, entrelaçada com sabedoria e inteligência – porque os nossos jovens, surpresa das surpresas, desejam precisamente
uma boa argumentação ou, melhor, quase a buscam com frenesi, no vácuo sideral
do nosso tempo.
Mas
chega de idealismos – por mais cheios de autoridade que queiramos –, muito
distantes da realidade que, depois, nós lhes oferecemos. Se eu tiver que lhes
pedir para arregaçar as mangas para colocar alguma peça digna do Evangelho na
barca oscilante da comunidade eclesial, eu devo lhes mostrar com persuasão que
a sua paixão será honrada à altura. Caso contrário, é melhor mandar que eles
gastem a energia das suas paixões com a Cruz
Vermelha – acreditem em mim. Mas, depois, não tenho tanta certeza de que
poderei realmente honrar a dívida que, assim, contrairei com eles.
Os
ritmos da escola, frenéticos e cheios de coisas que nada têm a ver com as
razões originais pelas quais estamos lá, às vezes, são uma bênção. Na próxima
semana, mesma hora, mesma sala: por algo que seja realmente outra coisa,
honrando, assim, a paixão da sua fé.
Traduzido do italiano por Moisés Sbardelotto. Acesse a versão
original deste artigo, clicando aqui.
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