Onze coisas que as mulheres não aguentam mais ouvir no Brasil
Thiago Guimarães
Enquanto o país tenta entender por que registra 50 mil
estupros por ano, discute-se o impacto negativo do machismo e de pequenos
gestos cotidianos que alimentam essa cultura.
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BRENDA FUCUTA Jornalista e ativista feminista |
A
jornalista Brenda Fucuta é uma
observadora atenta das questões femininas contemporâneas. Dirigiu algumas das
principais revistas femininas do país e edita o site Mulheres Incríveis, que traz conversas com executivas de grandes
empresas e jovens ativistas do feminismo brasileiro.
De
olho na nova agenda do empoderamento feminino, Brenda mostra como certos conceitos e expressões legitimam uma suposta
superioridade natural dos homens. Nesse sentido, defende a necessidade de
todos (e todas) reaprenderem a olhar e se relacionar com as mulheres. Baseada
em suas conversas com mulheres inspiradoras e na própria experiência no mundo
corporativo, a jornalista selecionou e
classificou frases, do assédio de rua ao machismo inconsciente, que mulheres
não aceitam e não deveriam mais ouvir.
Cantadas
de rua
Assobios,
buzinadas, olhares, comentários: diariamente, mulheres se veem obrigadas a
enfrentar o assédio sexual em espaços públicos. Interações de teor obsceno, sem
consentimento, que se impõem como naturais, mas estão longe disso. Exemplos:
• "Por que uma
menina bonita como você está sem namorado?"
• "Eu levaria você
para casa."
Para
Brenda, a abordagem pode às vezes nem
ser agressiva, mas nem por isso é menos desrespeitosa. "Há homens que
não entendem que as meninas querem andar
sem ser perturbadas, como os homens também querem. É um desrespeito a uma
situação: estou andando, pensando, falando ao celular, não quero ser
incomodada."
No caso das cantadas
agressivas,
avalia Brenda, são "abusos sexuais
falados" que buscam demonstrar poder e intimidar a mulher. "Fazem
parte de uma cultura, essa tal cultura do estupro, porque é como se fosse
autorizado aos homens falar, tocar e se apropriar do corpo das mulheres de uma
forma que as mulheres não fazem com os homens." A jornalista destaca como
a campanha "Chega de Fiu-Fiu",
lançada em 2013 pela ONG feminista Think
Olga, ajudou a "despertar a sociedade para um assunto que estava
velado". "Foi uma grande conquista para a percepção do lugar da
mulher na sociedade, porque dávamos pouca atenção a isso."
Imagem da campanha "Chega de Fiu-Fiu", da ONG Think Olga; iniciativa despertou atenção da sociedade brasileira para problema velado, afirma Brenda Fucuta |
Frases
de orgulho machista
Ditas
por homens e também por mulheres, são
frases que pressupõem um lugar inferior para a mulher na sociedade. Incluem
desde brincadeiras aparentemente
inofensivas sobre o desempenho feminino no trânsito até comentários a
respeito da menina que se veste de modo "a não se dar o devido
respeito":
• "Por que mulheres são contra as cantadas? Não gostam de
um elogio?"
• "Muito bem, já pode casar."
• "Se sai assim (na rua ou na balada) é porque quer. Mulher que se respeita não é estuprada."
Machistas
em negação
Outra
categoria de frase que não cabe mais na nova etiqueta de gênero, afirma Brenda,
é aquela que definiu como "machista
em negação": sugere compreensão mas logo revela preconceito. "São
aqueles ou aquelas que sempre começam, ao debater o tema das conquistas
femininas, com a seguinte frase: 'não sou
machista, mas...' ou 'não tenho nada
contra o feminismo, mas...', e depois já emendam uma ideia preconceituosa disfarçada", afirma. São
expressões como:
• "Mas vocês não acham que estão exagerando agora? O que
mais vocês têm para conquistar?" (a resposta, diz Brenda, é
múltipla: direito a não apanhar do marido, a ganhar os mesmos salários dos
homens, a dividir o trabalho de casa com homens, a não ser interrompida ao
falar, a andar como quiser nas ruas).
• "Mas vocês falam em violência contra a mulher, mas e a
violência contra os homens?" Sobre isso, Brenda lembra que homens são, de fato, as maiores vítimas de
homicídio no Brasil, mas o agressor é quase sempre homem nos casos contra
homens e mulheres.
• "Mas por que as feministas odeiam os homens?"
Ato em 2013 na capital paulista denunciou violência cotidiana contra mulher; para Brenda Fucuta, novos tempos demandam novo olhar sobre a questão feminina |
Machismo
inconsciente (ou “O machista que se acha feminista”)
Uma
pesquisa do Instituto Ethos mostrou
que em 2010 mulheres ocupavam apenas 13%
dos cargos de nível executivo e sênior nas 500 maiores empresas do Brasil. Em 2014, revelou o IBGE (Instituto
Brasileiro de Geografia e Estatística), as
mulheres receberam, em média, 74% da renda dos homens. Neste sentido,
Brenda questiona o uso de frases que aponta como comuns no mundo corporativo e
que denotam uma espécie de machismo inconsciente. Colocações como:
• "Acredito na meritocracia. Se a mulher é competente,
ela chega lá."
• "Não há machismo nessa empresa. Você, por exemplo, tem
um salário maior do que muitos colegas homens."
• "Sou muito a favor das mulheres e do feminismo. Em
casa, por exemplo, são minhas filhas e esposa que mandam em mim."
Para
a jornalista, são afirmações que não fazem sentido quando são confrontadas com
dados de disparidade de gênero em cargos de chefia e salários: "As mesmas
pesquisas que apontam a falta de mulheres em cargos de direção apontam que no nível inicial do trabalho a proporção de
mulheres é até ligeiramente maior. Por esse raciocínio, então, as mulheres não ocupam o alto da hierarquia
porque são incompetentes ou não merecem, o que não faz sentido, porque hoje no
Brasil as mulheres têm até mais escolaridade do que os homens".
Brenda
diz ver esse tipo de expressão como "campeã do machismo", por revelar
desconhecimento do que seja feminismo e do papel da mulher na sociedade no
século 21. "Essas frases de
machismo inconsciente podem ser até mais perigosas, porque as pessoas acreditam
nelas". "Uma vez ouvi o presidente de uma grande empresa, em um
evento de empoderamento de mulheres, dizendo que era super comprometido com a
causa até porque quem mandava nele em casa eram mulheres. Quando diz isso, volta a colocar a mulher em um lugar ultrapassado,
de submissão, em casa novamente", conclui.
Evento pró-direitos da mulher no Rio em 2014; para a jornalista Brenda Fucuta, feminismo ainda é alvo de interpretações equivocadas |
Feminismo
e desinformação
A
editora do site Mulheres Incríveis acredita que ainda exista muita
incompreensão, inclusive entre mulheres, sobre o que seja o feminismo. Como
no caso de mulheres que dizem não ser feministas porque "defendem a
diferença entre homens e mulheres" ou porque "acreditam na
convivência pacífica entre homens e mulheres". Segundo ela, nenhuma corrente do chamado novo feminismo
defende a anulação das diferenças entre homem e mulher. "O que esses
movimentos pretendem é a busca de direitos sociais iguais", pontua.
Brenda
identifica a persistência de "mal-entendidos" em torno do conceito de feminismo - "palavra forte e ainda carregada de
preconceito". Cita o exemplo de executivas de sucesso que, embora
tenham postura feminista, rejeitam o "selo" de feminista:
"Vivemos um momento de transição em relação a direitos humanos, diversidade,
inclusão de minorias. Ainda bem, senão ninguém falava sobre isso. Aí, quando a
gente fala, parte da população se sente ameaçada e nem mesmo sabe por quê.
Sente-se acuada, com medo de perder coisas. E aí começa a criar uma reação em cima de mal-entendidos e, em
geral, por falta de conhecimento".
Brenda afirma conceber e
praticar o feminismo como um "exercício de transformação da sociedade para
um jeito mais libertador de convivência, não julgador". Nesse sentido, afirma que
o debate motivado pelos casos recentes
de estupro coletivo no Brasil é positivo por "jogar luz numa ferida social que não gostamos de comentar".
Para ela, sem minimizar os episódios de estupro coletivo, é preciso avançar a
discussão para o abuso sexual que ocorre dentro das casas e no entorno das
vítimas, que compõe a maioria dos registros. "Isso é muito sério e deve
ser combatido, mesmo que seja ativismo de sofá, pegar a moldura do Facebook
(contra a cultura do estupro) e reproduzir. Essa é a grande próxima etapa, encarar essa questão delicada sobre a
qual ninguém quer falar, mas precisa ser iluminada", finaliza.
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