Quem tem medo dos diáconos?
“Caso sério” no exercício da autoridade e
“sintoma” de paralisia no magistério eclesial
Andrea Grillo*
blog “Come
Se Non”
28-05-2016
Famílias e mulheres serão a cura daquela doença do
diaconato que
não é mortal, embora seja masculina
Como
eu já tentei esclarecer em diversas publicações neste blog, dedicadas à
compreensão da "mens" [trad.:
mente, mentalidade] do pontificado do Papa Francisco, parece-me que as
recentes "aberturas papais" sobre a exigência de um aprofundamento
sobre o tema do "diaconato feminino" trazem à tona uma "diferença de abordagem ao magistério"
que poderia escapar da consideração comum e sobre a qual eu gostaria de chamar
a atenção.
Em
particular, gostaria de incluir esse "caso" em uma casuística mais ampla,
para a qual o magistério dos últimos 25 anos, progressivamente, assumiu uma
atitude cada vez mais defensiva, encastelada e desconfiada em relação a toda
possível novidade no exercício da autoridade eclesial.
Assim,
através de um duplo comportamento – que poderia parecer quase contraditório –,
ou seja, mediante uma
"inflação" e, ao mesmo tempo, uma "autonegação" do
magistério, o exercício da autoridade tendeu simplesmente a confirmar a si
mesmo, com estilo apologético e compreensão do século XIX, reduzindo progressivamente o impacto das
novidades do Vaticano II.
Isso
aconteceu sobre os temas da moral sexual,
da relevância da consciência, do ministério da unção dos enfermos, do sacerdócio feminino e... do diaconato.
Como
se imunizar do diaconato
Analisemos
rapidamente os desenvolvimentos dos últimos 20 anos:
a) Em 1998, o Papa João Paulo II tomou uma decisão assumida pela
Congregação para a Doutrina da Fé – cujo prefeito era J. Ratzinger –, mediante
a qual ele corrigiu o n. 1591 do
Catecismo da Igreja Católica, relendo-o restritivamente e, sobretudo,
criando uma "categoria ex novo",
que permitia uma drástica separação
dentro da ordem sagrada entre presbiterado
e episcopado, por um lado, e diaconato, por outro. O preço pago
por essa "operação defensiva" foi a rachadura da unidade do
ministério ordenado, para defender episcopado e presbiterado da novidade
diaconal.
b) Em 2009, recebendo uma indicação de João Paulo II, o Papa Bento XVI, continuando a mesma trajetória que tinha sugerido
como prefeito 11 anos antes, ele também modificou
o Código de Direito Canônico, nos cânones 1.008 a 1.009, integrando o texto em
analogia com o Catecismo e reduzindo drasticamente a compreensão do
"diaconato" na Igreja latina, excluindo dela a representação nas
ações em nome de Cristo cabeça e oferecendo
uma leitura redutora das competências em relação à liturgia, à palavra e à
caridade.
A figura do diácono que
emerge dessa leitura é profundamente redimensionada e separada, diríamos, por
princípio, do exercício efetivo da autoridade eclesial. Mas essa operação, de
fato, visa a um regresso à condição de "gestão da autoridade" típica
da Igreja pré-conciliar, na qual o exercício da autoridade eclesial não era
alterado por "novas competências" por parte de sujeitos que, embora
pertencendo ao "clero", podem hoje estar estavelmente casados e,
amanhã, elas mesmas casadas!
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ORDENAÇÃO DE DIÁCONOS PERMANENTES |
Um
repensamento de fundo
Ora,
o debate que foi aberto nas últimas
semanas, em torno da possibilidade de estudar uma admissão das mulheres ao grau
do diaconato, deveria provocar uma reflexão ao menos sobre três níveis da
questão, determinando uma reação a essa "dobra nostálgica"
assumida pelo magistério eclesial nos últimos 20 anos:
a) a compreensão sistemática
do ministério diaconal
A
solução catequética e canônica preparada nos últimos 20 anos poderia ostentar a
pretensão indiscutível típica de uma "teologia de autoridade". Se o
Catecismo e o Código dizem uma coisa, quem poderá dizer algo diferente? Mas Catecismo e Código não estão no topo da
autoridade. A razão e a fé ainda têm algo a dizer a esse propósito.
Por
exemplo, elas podem observar que um
"ministério da palavra" – reconhecido ao diácono – dificilmente pode ser mantido ao abrigo de
uma "ação in persona Christi (capitis)". O mesmo também vale
para a liturgia e para a caridade. Quem preside o culto e quem anima a caridade exerce também um papel de
autoridade e um magistério... justamente ao ser radicalmente servo.
Ser
"Cristo-Cabeça" e "Cristo servo" não pode
deixar de soar, também e necessariamente, como sinônimos. Ter tentado não distinguir, mas separar definitivamente
a conformação a Cristo cabeça da conformação a Cristo servo é um "lapso
dogmático" muito pesado e ao qual deveremos remediar.
Catecismo e Código estão,
aqui, desprovidos de uma base sistemática à altura da tradição. A diferença clássica entre
"sacerdotium" e "ministerium" suporta muitas
traduções doutrinais, disciplinares e canônicas diversas, das quais a que está
em vigor hoje está seguramente entre as menos felizes.
b) ordem e matrimônio em
simbiose
Um
segundo ponto importante, que deriva das novas aquisições conciliares, consiste
em ter "embaralhado as cartas" no modo de pensar a relação entre
ordem e matrimônio. Tínhamos uma representação da autoridade referida aos celibatários
e um imaginário da obediência referida às famílias.
Hoje, reconhecemos
abertamente uma "autoridade familiar", mas ainda custamos a pensar as
"autoridades eclesial" no contexto de comunhão de uma vida familiar. As famílias dos diáconos casados
são um caso clássico de "nova realidade", complexa e rica.
Obviamente, contanto que ainda se possa pensar que um "diácono casado"
ainda tem a ver com o exercício da autoridade.
A
reconstrução clerical que, desde 1998, modificou, antes, o Catecismo da Igreja
Católica e, depois, o Código de Direito Canônico vai exatamente na direção
oposta. Parece justamente querer excluir que essas "novidades" possam
ser interpretadas como "de autoridade".
c) genus diaconale et genus foeminile
O
que dissemos é enriquecido ainda mais pela hipótese
– submetida como eventualidade a ser estudada – de um acesso ao diaconato reconhecido também às batizadas. Esse
terceiro nível da questão, que simbolicamente parece ser bastante relevante, no
entanto, pressupõe um adequado trabalho sobre os dois primeiros níveis, que
acompanhe e prepare o terceiro.
Quem realmente se
interessaria na promoção da mulher ao reconhecimento oficial de "sacristã
de segunda categoria"? Uma discussão séria sobre o "diaconato feminino" deveria,
acima de tudo, remover os obstáculos a
uma compreensão sistemática e a uma leitura também "não celibatária"
do diaconato tout-court [trad.: simplesmente].
Deplorável
confusão ou maravilhosa complicação?
É
útil recordar que o motu proprio de
2009, que modificou em sentido restritivo a normativa do Código de Direito
Canônico, é motivado pela "necessidade de evitar a confusão". É
significativo que o "esclarecimento" foi concebido e
"assegurado" por um rígido desvio ao passado. A confusão parece poder
ser evitada apenas "voltando atrás".
O Papa Francisco parece se
mover segundo outro aviso. Ele não se assusta nem com a discussão, nem com a
"complicação". É a realidade que se apresenta com uma "complicação" que,
nas suas próprias palavras, parece não ser preocupante ou "evitável",
mas "maravilhosa"!
Um exercício da autoridade
na Igreja, que não esteja contaminado nem pela experiência matrimonial (do diaconato permanente casado
já possível) nem pela diferença sexual
(de diaconisas possíveis no futuro) não
merece, justamente, ser concebido apenas com a condição de ser desautorizado.
O título do motu proprio que realizava em 2009 esse revés objetivo se
intitulava Omnium in mentem [trad.: tudo em mente]. Já na época, mas ainda
mais hoje, podemos reconhecer no título do documento aquela típica
superabundância de retórica eclesiástica, que atribui temerariamente a todos a
"intenção" e o "temor" de pouquíssimos. E que confunde a autorreferencialidade eclesial
com a fidelidade à tradição.
Em uma Igreja em que o
exercício da "verdadeira autoridade" é mantido apenas no pequeno e restrito
circuito da experiência de "homens celibatários", nenhuma "amoris laetitia" pode ser levada
verdadeiramente a sério. A reforma do Catecismo da Igreja Católica e do Código de Direito
Canônico dos últimos 20 anos é a verdadeira causa da indiferença com que
diversos ambientes clericais esnobam a Amoris
laetitia.
Essa
indiferença deve ser superada, porque é o sinal
de um grave medo eclesial e de uma paralisia no exercício da autoridade. Reconhecer a AUTORIDADE DAS FAMÍLIAS E DAS
MULHERES é a única via para permanecer fiel à tradição, renunciando a toda
hipótese de transformar a Igreja em um museu de ingresso limitado.
Um
discernimento novamente possível
No
documento da Comissão Teológica Internacional de 2002, encerrava-se a longa e
profunda discussão dedicada ao "diaconato" com uma avaliação da
ordenação das mulheres ao diaconato que soava assim: "Caberá ao ministério de discernimento que o Senhor estabeleceu na Sua
Igreja se pronunciar com autoridade sobre a questão". Os procedimentos
que precederam e se seguiram a essa afirmação tenderam, em vez disso, a
"excluir todo discernimento", superando-o mediante um
redimensionamento "original" da compreensão do diaconato, quase
expurgando-o da própria "ordem sagrada".
Eu
acredito que não será por acaso que o
Papa Francisco – que acaba de reintroduzir no sacramento do matrimônio uma
"lógica de discernimento" para enfrentar as questões da vida familiar
– poderá recorrer amanhã à mesma lógica para enriquecer a experiência
ministerial da Igreja Católica. O discernimento, porém, não será
simplesmente uma "estratégia de inclusão", mas também uma mediação
preciosa e paciente para valorizar a "diferença" de um ministério
ordenado não só "atribuído a uma mulher", mas que "pode ser
caracterizado por homens e mulheres casados" e que enriquece a experiência
comum do ministério episcopal e presbiteral.
Precisamos de discernimento,
em outras palavras, para pensar sistematicamente o "terceiro grau" do
ministério, para torná-lo compatível com o matrimônio e para referi-lo a um
sujeito feminino. Depois de um magistério que preferiu superar todo discernimento
possível exercendo a autoridade mesmo contra toda evidência – encastelando-se
catequética e canonicamente na única evidência suportável, ou seja, a
autorreferencial – uma época de
exercício da autoridade no discernimento pode permitir que a Igreja supere
aquela rigidez que, muitas vezes, nasce do medo e do preconceito.
Famílias
e mulheres serão a cura daquela doença do diaconato que não é mortal, embora
seja masculina.
*
ANDREA GRILLO é teólogo católico leigo italiano. Professor
do Pontifício Ateneu Santo Anselmo,
de Roma; do Instituto Teológico
Marchigiano, de Ancona; e do Instituto
de Liturgia Pastoral da Abadia de Santa Giustina, de Pádua. Autor de vários
livros (clique aqui para ter acesso ao elenco) e artigos especialmente na área de Teologia
Litúrgica e Sacramental.
Traduzido do italiano por Moisés Sbardelotto. Acesse a versão
original deste artigo, clicando aqui.
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