O perigo, agora, chama-se Renan Calheiros!

Renan decidirá sobre impeachment de Janot
na próxima semana e preocupa colegas

Daniela Lima, Mariana Haubert e Marina Dias

Aliados do presidente do Senado dizem que ele já estava decidido a “politizar” as ações de Rodrigo Janot, dando vazão aos questionamentos sobre a isenção do PGR no encaminhamento de investigações sobre políticos
RENAN CALHEIROS
Senador pelo PMDB de Alagoas e Presidente do Senado Federal

O presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), vai manter em suspenso por pelo menos mais sete dias a decisão que poderá arquivar ou dar prosseguimento ao pedido de impeachment do procurador-geral da República, Rodrigo Janot, apresentado na última segunda-feira (13 de junho).

O peemedebista comunicou a intenção de arrastar o processo em reunião com o colégio de líderes pouco antes de, no plenário, fazer na quarta-feira (15 de junho) o mais duro ataque já desferido por ele ao Procurador-Geral da República (PGR).

Durante a reunião, Renan fez uma série de queixas aos colegas e deixou integrantes do parlamento com a impressão de que pode aceitar o pedido.

Sua ofensiva sobre Janot marca um novo capítulo na crise política que dragou o país desde o início da operação Lava Jato e causa preocupação entre os senadores, que pediram cautela e prudência ao peemedebista. Eles também reivindicaram que, antes de formalizar a posição, Renan comunique os demais sobre sua decisão.

Pessoas próximas lembraram ainda que o último a afrontar o PGR desta forma foi o presidente afastado da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), que hoje corre o risco de ser cassado pelos pares.

PRIMEIRA VEZ

O ineditismo da tensão entre Renan e o Ministério Público Federal pode ser expresso na comparação entre procedimentos adotados pelo próprio presidente do Senado nas outras ocasiões em que recebeu pedidos de impeachment de autoridades como Janot e ministros do Supremo.

Em abril, por exemplo, o MBL (Movimento Brasil Livre), que comandou manifestações anti-Dilma Rousseff em várias capitais do país, ingressou no Senado com um pedido de afastamento do ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) Marco Aurélio Mello. À época, Renan levou menos de 24 horas para determinar o arquivamento do processo.

Aliados do presidente do Senado dizem que ele já estava decidido a "politizar" as ações de Janot, dando vazão aos questionamentos sobre a isenção do PGR no encaminhamento de investigações sobre políticos de diferentes partidos.

Essas pessoas avaliam que ele encontrou, neste momento, a ocasião ideal, já que nesta terça (14 de junho), o Supremo desautorizou pedidos de prisão feitos por Janot para integrantes da cúpula do PMDB, entre eles o próprio presidente do Senado.
RODRIGO JANOT
Procurador-Geral da República está sendo ameaçado de impeachment por Renan Calheiros, do qual solicitou
a prisão ao Supremo Tribunal Federal

A ofensiva de Janot sobre o PMDB foi o principal mote do discurso feito por Renan esta tarde no plenário. O peemedebista classificou de "esdrúxulos" os pedidos de prisão e disse que eles evidenciaram que o Ministério Público Federal havia "perdido os limites constitucionais", "do bom senso" e "do ridículo". Renan fez questão de dar um ar institucional à sua queixa, citando ações da PGR contra políticos de outros partidos, inclusive o PT, como o ex-ministro Aloizio Mercadante, grampeado por um funcionário do ex-senador Delcídio do Amaral, enquanto este negociava uma delação premiada.

"O Senador Delcídio, que chegou ao cúmulo de gravar o então Ministro Aloizio Mercadante, através do seu gabinete, da sua assessoria. Ele ficaria durante seis meses aqui no Senado Federal, gravando os senadores, para que essas gravações servissem de materialidade a acusações sem prova", disse.

No pronunciamento, Renan acusou, sem citar nomes, procuradores da força-tarefa da Lava Jato de agirem contra senadores em retaliação à reprovação de nomes que integram o MPF para cargos em conselhos como o CNMP (Conselho Nacional do Ministério Público) e o CNJ (Conselho nacional de Justiça).

"Esta Casa rejeitou três ilustres nomes da força-tarefa. Não sei por que. Talvez o bom senso não recomendasse que essas pessoas continuassem investigando o Senado Federal como instituição, investigando senadores, abusando do poder, fazendo condução coercitiva sem fato que a justifique, busca e apreensão na casa de senador, prisão em flagrante claramente orientada, gravações de senadores de forma ilegal, com pessoas colocadas na convivência dos senadores", disse. [Vejam só quem fala! Investigado e suspeito em tantos processos que já correram e, ainda, correm na Justiça, querendo posar de pessoa ilibada, honesta, imparcial! Engana-me, que eu gosto, Renan!!!]

A estratégia de Renan é evidenciar que está se criando um "espírito de corpo" no Congresso contra o que parlamentares de diversos matizes têm chamado de "abusos" dos investigadores. Pessoas próximas ao senador dizem que Janot, ao fazer os pedidos de prisão contra a cúpula do PMDB, incorreu no mesmo erro que promotores de São Paulo que pediram a prisão do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva –e não conseguiram respaldo da Justiça para ação – ou mesmo do juiz Sérgio Moro ao divulgar grampos entre o petista e a presidente afastada Dilma Rousseff. Parte dos áudios foi considerada ilegal pelo STF.

O fato de petistas terem também sido alvo de ofensivas do Judiciário faz com que nem eles consigam, agora, explorar abertamente a crise que se instaurou no PMDB e no governo do presidente interino, Michel Temer, com a divulgação da delação de Sérgio Machado, ex-presidente da Transpetro e operador do PMDB no esquema de corrupção da Petrobras.

"Uma delação, como em todos os casos, deve ser pauta de investigação, mas não pode ser tomada como verdade definitiva", ponderou à Folha de S. Paulo o advogado de defesa de Dilma e ex-ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo. Ele próprio e a petista já foram citados por delatores, como Delcídio do Amaral. [Quem diria! PT e PMDB tratando da Justiça com a mesma postura!]

Fonte: Folha de S. Paulo – Poder – Quarta-feira, 15 de junho de 2016 – 20h59 – Internet: clique aqui.

Principal problema imediato para
presidente interino é Renan

Igor Gielow
Diretor da Sucursal de Brasília (DF)
MICHEL TEMER & RENAN CALHEIROS
há muito tempo que os dois não andam se "bicando" ! ! !

Para o presidente interino, Michel Temer (PMDB), a acusação feita por Sérgio Machado é obviamente péssima, mas não é neste momento o maior dos problemas que a delação do ex-presidente da Transpetro lhe causa.

Para ser mortal, a citação, por ora, depende de informações complementares: a empreiteira confirmando a encomenda em seu nome, a operação ponta a ponta. A dificuldade de rastrear o dinheiro é a beleza, por assim dizer, do esquema revelado pela Lava Jato no petrolão.

O maior problema para o Planalto se chama hoje Renan Calheiros (PMDB-AL). Machado está para ele como Delcídio do Amaral estava para o PT: é um homem seu.

Um presidente do Senado mordido já mostrou a que veio ao questionar os termos do projeto que limita gastos do governo. Se ferido de morte, seguindo os passos de Eduardo Cunha (PMDB-RJ) na Câmara, seu nome passa a ser imprevisibilidade.

Renan sempre foi seu desafeto, e trabalhou contra o processo de impeachment de Dilma Rousseff. Se a votação final do caso no Senado possui certa blindagem, o que não quer dizer imunidade contra influências, o mesmo não pode ser dito do encaminhamento de medidas.

A eventualidade de um vácuo poderia gerar um apagão no Legislativo no momento em que o governo aposta todas suas fichas justamente na cooperação com o Poder.

Este é um cenário hoje extremo. Ao menos até ficar clara a disposição de Renan de enfrentar o procurador-geral da República, Rodrigo Janot [leia a matéria anterior a esta].

Sob olhares desconfiados de políticos de A a Z, o procurador-geral sofreu uma derrota ao ver o pedido de prisão do senador Renan e de outros próceres do PMDB rejeitado pelo Supremo. Isso animou Renan a engrossar a voz e avaliar o pedido de impeachment contra Janot que apareceu numa árvore do Senado tal e qual o proverbial jabuti.

Além disso, se a Lava Jato segue intocável no imaginário popular, pode ser erodida aos poucos por medidas oriundas do Legislativo. [Por isso, mesmo, todo cuidado e atenção são poucos!!!]

Neste ponto, a amplitude da delação de Machado traz problemas para os petistas que ainda subscrevem a visão do partido de que a Lava Jato foi "braço operacional do golpe". A cautela da reação do petismo é eloquente.

Por fim, há vários personagens atingidos mais ou menos lateralmente no episódio, como o tucano Aécio Neves. O estrago maior, na superfície e nos intestinos, ficou na conta do governo e do PMDB.

Fonte: Folha de S. Paulo – Poder / Análise – Quinta-feira, 16 de junho de 2016 – 02h00 – Internet: clique aqui.

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