Agora sabemos de quanto é o rombo!
Governo
federal prevê rombo de R$ 170,5 bilhões
no
Orçamento em 2016
Eduardo Cucolo,
Valdo Cruz e Machado da Costa
O déficit nas contas do Governo Federal aumentou porque
se estimou arrecadar mais do que, de fato, acontecerá, e não se levou em conta
o aumento da recessão e de despesas para que o governo não pare
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HENRIQUE MEIRELLES Ministro da Fazenda apresentou nesta sexta-feira, 20 de maio, os números reais da situação do Governo Federal - o rombo é maior do que se pensava! |
O
governo federal vai pedir ao Congresso autorização para fechar o ano com um déficit de R$ 170,5 bilhões, diferença entre
receitas e despesas.
A
nova projeção para o rombo nas contas do governo foi anunciada nesta
sexta-feira (20 de maio) pelos ministérios da Fazenda e do Planejamento.
O
projeto enviado pela equipe econômica do governo Dilma Rousseff há dois meses
previa um déficit de R$ 96,7 bilhões em 2016. Inicialmente, o governo trabalhava com superávit de R$ 24 bilhões.
A
nova proposta precisa ser aprovada pelo Congresso na próxima semana.
A
nova equipe econômica também reviu a projeção
de queda no PIB (Produto Interno Bruto) do ano de -3,05% para -3,80% (a
projeção da pesquisa Focus mais recente é -3,88%).
A inflação, porém, deve cair, segundo o
novo governo. A nova projeção é de 7%
para este ano, ante 7,44% da projeção anterior.
CONFIRA
COMO FOI O ANÚNCIO
Em
fevereiro e março já haviam sido anunciadas dos cortes que somavam quase R$ 45
bilhões. Se a nova meta for aprovada,
será possível liberar uma parte desse valor, R$ 21,2 bilhões.
A equipe
também colocou na conta despesas com PAC (Programa de Aceleração do
Crescimento), Defesa e Saúde, um total de R$ 15,5 bilhões.
O
governo também colocou na conta um bloco de receitas e despesas, que não serão
detalhadas, mas terão como resultado líquido uma despesa de R$ 19,9 bilhões.
Entram nesse cálculo, por exemplo, aumento
de despesa na renegociações com os Estados, receitas com regularização de
capitais no exterior e mais desembolsos com restos a pagar.
A
nova meta anunciada prevê arrecadação menor
e mais gastos que os estimados pelo governo Dilma.
A estimativa de receita foi reduzida de
R$ 1,103 trilhão para R$ 1,0778 trilhão. O número representa crescimento
nominal de R$ 35 bilhões, e uma queda
real de 4% (descontada a inflação).
Segundo
Henrique Meirelles, a lei feita no
governo Dilma previa aumento de receitas com crescimento real de 9%.
"Hoje verificamos claramente que é incompatível com a queda do PIB
estimada para este ano. Isso faz com que esteja claramente superestimada."
Do
ponto de vista das despesas, o ministro da Fazenda afirmou que o
contingenciamento de R$ 44 bilhões, proposto pelo governo anterior, não é
compatível com o funcionamento dos órgãos até o fim do ano.
"Parte será
descontingenciada para que serviços não parem", afirmou Meirelles, que
anunciou reversão de contingenciamento de R$ 21,2 bilhões.
"Na
nova projeção, o governo incluiu também o pagamento de despesas atrasadas, já
executadas, já medidas ou a serem medidas, do Ministério da Defesa e outras,
gastos necessários para o setor de saúde, despesas do PAC, além de dívida dos
Estados, pagamento a fornecedores, dívidas com organismos internacionais e uma
série de outros."
"O
que temos em mente é uma estrutura governamental que funcione, cumpra suas
funções básicas e tenha uma estrutura de endividamento sustentável", disse
Meirelles.
Não está prevista a
possibilidade de um socorro à Eletrobrás.
O
ministro Romero Jucá (Planejamento) disse que o número de R$ 170,5 bilhões é um teto e que o governo vai trabalhar
para cortar despesas.
Não foram incluídas medidas
de corte de gasto ou aumento de receita que dependam de aprovação do Congresso, como, por exemplo, a
criação da CPMF ou a flexibilização dos gastos públicos que permitam ao governo
fazer cortes em áreas hoje engessadas.
Ficou
mantida a previsão de que Estados e municípios farão um superávit de R$ 6,55
bilhões neste ano, o que reduz o déficit total do setor público para R$ 163,94
bilhões.
Pressionado
pelo mercado financeiro a apresentar rapidamente saídas para equilibrar o déficit
fiscal, o presidente interino Michel
Temer aproveitará discurso na próxima segunda-feira (23 de maio) para anunciar
medidas econômicas para aumento da arrecadação e redução das despesas.
MÉDIO
PRAZO
Segundo
Meirelles, as medidas visam controlar a trajetória da dívida num prazo médio.
"No entanto, isso não pode ser conseguido com medida irrealista, como
contingenciamentos que não podem ser cumpridos."
"O ponto chave é que,
com essa reversão e com este Orçamento, não se pretende revisar novamente esta
meta até o final do ano", disse Meirelles.
"Meta fiscal não é novela, para ser feita em
capítulos", disse o ministro Romero Jucá (Planejamento), para criticar
o fato de que o governo anterior
modificou a meta mais de uma vez ao longo do ano.
Segundo
o ministro da Fazenda, o governo decidiu anunciar uma situação real nesta sexta
(20 de maio) e, a partir daí, anunciar medidas para reverter o crescimento da
dívida pública.
O
ministro do Planejamento, Romero Jucá, afirmou que está debatendo com o
Congresso a DRU [instrumento que dá
mais flexibilidade ao governo para fazer ou cortar gastos] e que mudanças nessa
área "virão oportunamente".
"O
fato de não estar contemplada uma ou outra medida não quer dizer que não haverá
foco nessas medidas, principalmente nas de redução de receita, que serão
apresentadas a partir da semana seguinte", afirmou Meirelles.
"Também
pode haver medidas de aumento de receita, mas hoje a meta é apresentar a meta,
não medidas para reverter a situação do Brasil."
NO
CONGRESSO
Romero
Jucá disse ter mantido contado com a Comissão
de Orçamento, o relator, o presidente da comissão e o presidente do
Congresso, para poder votar o ajuste da meta no projeto de lei na segunda na
comissão e terça no Congresso. "O presidente Renan Calheiros vai
colaborar."
Sobre
o fato de a presidente afastada Dilma Rousseff ter escalado o ministro Nelson
Barbosa para rebater os números apresentados pelo governo, Jucá afirmou que,
"democraticamente", aceita qualquer crítica, mas que não se preocupa
com isso porque os números são
transparentes.
"Críticas
são bem-vindas", afirmou Meirelles, porque ajudam a dimensionar o tamanho
do problema. "Estamos apenas no oitavo dia de governo", disse.
Meirelles
brincou dizendo que uma coisa que deverá ser providenciada rapidamente é a melhoria
do equipamento de som do auditório - repórteres se queixavam de que não
conseguiam ouvir os ministros
O ministro afirmou também
que seria precipitado fazer previsões para 2017 e adiante. "O importante, mais
uma vez, é que o governo cumpra suas obrigações básicas, faça um controle
rigoroso e, a partir daí, com uma base realista, possa ter segurança em suas
análises."
Fonte: Folha de S. Paulo – Mercado – Sexta-feira, 20 de maio de 2016 – 19h28 – Internet: clique
aqui.
A
N Á L I S E
O
tamanho do rombo
Celso Ming
Na medida em que embute muitas incertezas, o propalado
“realismo” do déficit de R$170,5 bilhões para 2016, anunciado nesta
sexta-feira, deve ser visto com certo cuidado
Depois
de tudo, o País ficou sabendo agora que o rombo “realista” das contas do
governo central em 2016 foi parar nos R$ 170,5 bilhões, ou 2,75% do PIB. Foi o
que apresentaram nesta sexta-feira os ministros Henrique Meirelles, da Fazenda,
e Romero Jucá, do Planejamento.
O
número ficou mais ou menos a meia altura de uma cascata de projeções (ou balões
de ensaio) que apareceram nos jornais nesta última semana, em princípio para
demonstrar que as magnitudes com que
vinham trabalhando as autoridades do governo Dilma estavam, mais uma vez,
subdimensionadas.
Mas não dá para garantir
precisão sobre esse número. Com pouco mais de uma semana no governo, não há condições para que a
nova equipe econômica determine com segurança as proporções do déficit e as
necessidades de cobertura para ele. Na
medida em que embute muitas incertezas, também o propalado “realismo” deve ser
visto com certo cuidado.
Como
os ministros enfatizaram, as incertezas não são determinadas apenas pela queda
de arrecadação e pela intensidade da recessão. Há o impacto sobre o Tesouro do acordo que ainda deve ser negociado
entre a União e os Estados; há o efeito do que virá a ser o contingenciamento
das despesas públicas; e há os esqueletos fiscais, que primeiro têm de ser
descobertos e, em seguida, medidos e equacionados.
Essa foi a oitava mudança na
meta fiscal de 2016, desde que a presidente Dilma anunciou a equipe econômica
do seu segundo mandato. O tempo vai dizer se, por conveniência do governo Temer, esses novos
números não foram elaborados de maneira a proporcionar certa folga na execução
do Orçamento.
Há
pouco mais de uma semana, quando de sua apresentação para o cargo de ministro,
Henrique Meirelles avisou que o governo já optara pelo nominalismo,
querendo dizer que renunciava não só à
indexação de valores (corrigi-los pela inflação), mas também a medi-los pelo
PIB, que, sabe-se lá, onde vai parar.
Este
pode parecer um número abstrato demais para as pessoas comuns, que não
conseguem avaliar que diferença faria um déficit primário de 2,7% ou de 3,5% do
PIB. No entanto, isso é como pressão arterial. Pressão alta demais não dói e
raramente é sentida. Mas faz tremenda diferença para o funcionamento geral do
organismo. Assim, também, o déficit fiscal. Na hora, pode não apresentar impacto visível. Mas, logo à frente,
produzirá inflação, perda de renda, desemprego, distorções e deterioração geral
da economia. E pode ser mais funesto ainda se o governo tentar camuflar a
realidade com maquiagem das contas públicas ou com pedaladas, como aconteceu ao
longo do governo Dilma.
O déficit deste
2016 é uma calamidade e seu reconhecimento pelo governo, embora elogiável e necessário para
definir o chão por onde começar a andar, pode dar o mote para nova rodada de rebaixamentos da qualidade
da dívida pelas agências de avaliação de risco.
No
entanto, o que mais vai contar não é
esse estrago e o que virá junto com ele, mas a verdadeira disposição do governo e do
Congresso de virar o jogo e dar
sustentabilidade para a dívida pública nos próximos dois anos e meio de governo.
CONFIRA
No
gráfico, a evolução do IPCA-15 nos sete últimos meses.
Inflação continua
forte
A inflação não está
nocauteada como os comentaristas apressados admitiam. O IPCA-15 divulgado nesta
sexta-feira apontou avanço surpreendente da inflação nos 30 dias terminados dia
15 de maio: 0,86% sobre a posição de abril. A inflação continua forte e espalhada, como mostra o índice de difusão:
66% dos itens da cesta de consumo apontaram alta. É mais um indicador que
tão cedo o Banco Central não deverá derrubar os juros básicos (Selic), hoje nos
14,25% ao ano.
Fonte: O Estado de S. Paulo –
Economia –
Sábado, 21 de maio de 2016 – Pág. B2 – Internet: clique aqui.
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