Os políticos estão dispostos, mesmo, a tirar-nos da crise?
Sarneyzação à vista
O que fará o presidente em exercício quando a chapa
esquentar de verdade?
CONGRESSO NACIONAL vota ampliação do déficit no orçamento da União para R$ 170,5 bilhões neste ano! Quarta-feira, 25 de maio de 2016 |
Até
agora foi fácil. A única votação importante a que o governo se submeteu no
Congresso foi para aumentar despesas, não para cortá-las. Pegou a herança
maldita da gestão anterior e acrescentou um dígito. Não havia nenhum interesse
específico a ser contrariado, só a oposição pela oposição de PT e companhia. Teste mesmo será quando tiver que aprovar
redução de gastos, perdas de direitos adquiridos e, se ousar, aumento de
imposto. Mesmo assim, Michel Temer bateu na mesa e se disse atacado.
A má notícia para o
presidente interino é que a pressão só tende a aumentar. O teto de despesas do
governo federal proposto pelo ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, embute
uma redução brutal do gasto público.
É um dos dois motivos pelos quais se costurou o pacto em torno do vice de Dilma
Rousseff: para ele e Meirelles fazerem o
trabalho que o PT não fez e o PSDB não quer fazer. O outro ouve-se nos
grampos: cortar a água da Lava Jato.
Por
enquanto, o plano de Meirelles é apenas uma carta de intenção. Quando for
transformado em medidas práticas se conhecerão os detalhes onde mora o diabo.
Só então serão batizados os patos que pagarão o pacto. Haverá reações, e não só
da turma da mortadela [PT, PCdoB, PSOL e outros]. Se continuar batendo na mesa,
Temer vai machucar a mão. Ademais, o papel de vítima já foi ocupado por Dilma,
em entrevistas diárias em múltiplos idiomas.
O que fará o presidente
interino, então, quando a chapa esquentar de verdade? Pelo que se viu até
agora, improvisar.
A
reação ao ministério 100% testosterona
foi forte? Apressa-se em reunir a bancada feminina e prometer um “ministério
para as mulheres” em um futuro sem data. Os artistas estão reclamando do fim do
Ministério da Cultura? Recria-se o
ministério. Uma menina é estuprada por 33 bandidos? Propõe-se a criação de uma delegacia especial da mulher
na Polícia Federal. Só puxadinhos.
Nada nessas ações indica um
plano. A
tal ponte para o futuro foi arquitetada como um fim em si mesmo: levar o PMDB
ao poder sem intermediários. O que fazer quando chegar lá, além de terceirizar
a área econômica? Na hora a gente vê. Tome-se o caso do ministro da Educação. Até ser convidado para o cargo, parece jamais
ter pensado profundamente sobre os temas que estão em sua mesa. Ou não teria
priorizado os conselhos de um ator pornô [Alexandre Frota - veja foto abaixo:].
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MENDONÇA FILHO, MINISTRO DA EDUCAÇÃO recebe em audiência o ator pornô Alexandre Frota e Marcello Reis, integrante do grupo Revoltados On Line Quarta-feira, 25 de maio de 2016 |
O problema do improviso é
que a administração fica vulnerável a todo tipo de lobby [grupos de pressão sobre o
governo]. Especialmente quando a gestão que sai não deixa nenhum memorial,
roteiro ou assessores que saibam o que está acontecendo. Nessas horas os espertos aparecem. Como não há vácuo no poder,
sempre tem alguém que percebe a oportunidade de ocupá-lo, nem que seja com
sugestões desinteressadas, consultorias sem ônus ou para “colocar algumas
ideias”.
Toda sugestão representa um
interesse, toda consultoria tem custo e toda ideia foi “colocada” ali por um
motivo, tal
qual o jabuti – na falta de melhor palavra – trepado na árvore.
Temer
foi eleito, mas vice não tem programa próprio. Os votos que recebeu por tabela
foram dados para a execução de uma plataforma à qual Dilma renunciou depois de
reeleita. Aquele programa morreu politicamente, e – com ele – quem o endossou
e, depois, renegou. O novo programa não
foi avalizado pelas urnas. Pode ter a simpatia do mercado e a boa vontade
do Congresso, mas sua legitimidade sempre será contestada pelos patos do pacto. [Ou seja, a parcela da população que mais arcará com o custo do ajuste econômico necessário]
A
depender de quantos começarem a grasnar, o humor dos congressistas vai mudar. E
se mudar, nem mesmo as duas dezenas de partidos da base governista vão bastar. O fisiologismo é padrasto do
presidencialismo de coalizão. Em mais de uma vez, renegou o enteado quando
este perdeu popularidade e, por fim, governabilidade. Deu em dois filicídios e
num parlamentarismo branco. Temer está mais para Sarney do que para Collor ou
Dilma.
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