CONHEÇA PAPA FRANCISCO MAIS DE PERTO
Entrevista com o padre Antonio
Spadaro
José Manuel
Vidal
Religión
Digital
09-05-2016
Para este Papa, não basta mudar as estruturas: tem de
mudar
as almas,
que são as que mudam as estruturas depois
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PAPA FRANCISCO E PADRE ANTONIO SPADARO |
Chamam-lhe ciberteólogo, mas o padre Antonio Spadaro é, acima de tudo,
um dos intelectuais mais importantes da Igreja e, como tal, diretor da Civiltà
Cattolica, uma das revistas mais prestigiadas da Companhia de Jesus
[Jesuítas]. Ainda não tem 50 anos, mas o
jesuíta já escreveu mais de vinte livros, fez a primeira entrevista com o Papa
Francisco e é considerado um dos conselheiros da corte Bergoglio.
“A
Companhia vive uma relação de tensão com o Papa que, a meu ver, é muito positiva”,
constata o jesuíta.
Eis a entrevista.
Você é um dos conselheiros de Bergoglio?
Antonio
Spadaro: O
Papa Francisco conhece muitas pessoas a quem pede conselhos. Não, eu não me
considero um conselheiro do Papa. Absolutamente não. Eu sou apenas uma pessoa
que teve contato com ele, como muitos outros. Uma das principais
características deste Papa é que ele é muito aberto para dispor-se a escutar as
pessoas. De fato, essa é uma das razões pelas quais ele vive em Santa Marta,
porque ali pode conhecer muitas pessoas, pastores ou não, que lhe dão
informação, lhe contam... É um Papa muito aberto a conselhos e à comunicação.
A Igreja escuta a pulsação do coração do povo porque o
Papa se identifica com essa gente.
Antonio
Spadaro: Absolutamente.
Sim, é um papa que ouve profundamente. Suas fontes de informação não são apenas
as oficiais: ele é uma pessoa que quer ouvir.
Você, por exemplo, sobre que temas concretos costuma
lhe perguntar?
Antonio
Spadaro: Não,
não, eu não tenho nenhuma comunicação regular com ele... Quando eu estive com
ele, tem dependido do tempo; a pergunta tem dependido da situação.
Você acaba de publicar um livro sobre o Papa e as
crianças: Querido Papa Francisco.
Como foi a experiência?
Antonio
Spadaro: Extraordinária.
Porque o papa recebe muitas cartas de tantas crianças... Então eu tive essa
idéia: pegar algumas cartas de crianças de todas as partes do mundo e
apresentá-las ao Papa para que as respondesse.
Apresentei em Santa Marta a seleção de
cartas, das crianças de todas as partes do mundo (China, Síria, Argentina,
obviamente, Irlanda... também da Espanha), e o mais bonito foi que o Papa
respondeu-lhes de uma forma especial.
Com as crianças ele não encontra barreiras e
elas levantam as perguntas que qualquer um de nós levanta. Então, surgem as
questões sobre a vida, sobre a morte, sobre o sentido do sofrimento, assim como
as perguntas pessoais sobre a vida do Papa... O Papa se divertiu com todas
essas perguntas, que são realmente difíceis de responder, mas que, quando são
respondidas, a resposta se aplica a todos, porque vem do coração.
O livro foi publicado também na Espanha.
Antonio
Spadaro: Sim
e em muitas partes do mundo e em muitas línguas. [No
Brasil, o livro foi publicado em março de 2016 pela Edições Loyola – veja foto
da capa abaixo:]
Qual é a chave, em sua opinião, deste pontificado? A
recuperação do espírito do Vaticano II?
Antonio
Spadaro: Pode-se
dizer que o Papa Francisco é o primeiro Papa pós-Vaticano II, porque ele não
participou no Concílio. Porém, embora ele não o tenha testemunhado,
internalizou profundamente seu espírito. Como ele disse na entrevista que fiz
com ele, o seu sonho é andar para frente. Por isso eu não me atreveria a dizer que deseja recuperar algo do passado,
porque é um Papa que quer avançar. É um Papa que quer servir o Espírito na
Igreja de hoje. A palavra que ele usa mais fortemente é a palavra misericórdia, desde 2013, durante os
primeiros meses de seu pontificado, nomeou-a duzentas vezes. E logo chegou o Ano da Misericórdia...
Com isto quero dizer que a principal coisa é
a pastoral; que a missão da Igreja para
ele é a salvação das almas, acima da doutrina, de todas as questões
doutrinárias... Ele vai direto a um Evangelho que consiga mover a história
e o coração do homem. Essa é a grande lição do Vaticano II que o Papa Francisco
fez sua.
Você deu em Madri uma conferência sobre a “Misericórdia
no Papa Francisco”. Quais são as chaves de fundo dessa misericórdia? Você
explicou que há misericórdia no tempo, no espaço...
Antonio
Spadaro: Sim.
A misericórdia é reconhecer que o Senhor vem ao seu encontro antes de você ir à
procura dele. É saber que Deus estará com você mesmo antes que você deseje, de
que necessite. Por isso me refiro ao tempo e ao espaço: Deus se antecipa. Está
sempre completamente aberto a encontrar-se conosco. Não há impedimento, não há
barreiras. O Senhor com os braços abertos sempre tem essa grande mensagem:
misericórdia é descobrir o rosto de Deus. É a grande mensagem da evangelização.
Essa mensagem de ternura, de misericórdia, está
permeando as pessoas?
Antonio
Spadaro: Penso
que sim. Creio que há muita gente seduzida pela figura do Papa. Sua forma de se
mover, de falar, todos os seus gestos de ternura não são somente simbólicos:
são reais.
É um Papa que abraça.
Antonio
Spadaro: Exatamente.
É um Papa que abraça, que sorri! Seu abraço se sente porque, quando abraça
fisicamente, o faz com força. Ou seja, é Evangelho: saber que o Papa, que
visivelmente representa a face da Igreja frente a toda a humanidade, sorri.
Ele está conduzindo a uma conversão de coração das pessoas
e das estruturas?
Antonio
Spadaro: Absolutamente
de acordo. Para este Papa, não basta
mudar as estruturas: tem de mudar as almas, que são as que mudam as estruturas
depois... Não é um Papa revolucionário, no sentido de que o que está
fazendo é simplesmente reivindicar o Evangelho. Ele pensa que, se a Igreja se apega ao coração do Senhor, tudo pode
mudar. Isto é o que o Papa realmente quer: não fazer revoluções, mas colocar de maneira radical a Jesus dentro
de cada coração. E é assim que vai mudar a Igreja.
Mas isso é uma grande revolução.
Antonio
Spadaro: Porque
o Evangelho é uma grande revolução! Descobrir que o Evangelho não é a legitimidade de um status quo, mas é algo que
muda o coração e muda a história.
Que resistência está tendo dentro, em sua própria casa:
na Cúria, em algum lugar na hierarquia...? O povo está visivelmente convencido,
e o clero?
Antonio
Spadaro: Vamos
dizer que o Papa não é um papa de atos, mas de processos. Ama o processo. Abrir
processos que não tem por que terminá-los ele mesmo necessariamente. Portanto,
se um processo é realmente uma partida, não vai contra as resistências: o próprio fato de que há resistência
significa que o processo funciona.
Esta
resistência é porque qualquer mudança pode ser desestabilizadora... Mas essa abundante
misericórdia de Deus, que é o núcleo mais profundo do Evangelho, não se pode
desestabilizar! Isso é só porque estão
mais atentos à estrutura e à
certeza do que à liberdade do coração. Por isso Francisco gera atenção, mas
também confusão. Mas esta não deveria existir: é a palavra do Evangelho a que
ele demonstra. Sua abertura é esta: a mensagem do Evangelho.
Se olharmos para as raízes cristãs da Europa,
estas são o lava-pés. Quando o Papa Francisco lavou os pés dos refugiados na
quinta-feira santa [ver foto abaixo], embora eles não fossem cristãos, mas muçulmanos, teve um
gesto que diz quais são as verdadeiras raízes cristãs da Europa.
Mulheres refugiadas que choravam ao vê-lo realizar um
gesto tão autêntico.
Antonio
Spadaro: Absolutamente
real. Este Papa não é simbólico, é verdadeiro.
Esta compreensão está questionando o estilo de vida da
alta hierarquia?
Antonio
Spadaro: Acho
que está colocando em questão a vida de todos nós. Não está somente exigindo
uma mudança com a alta hierarquia. Porque é fácil categorizar as pessoas e
fazer distinção entre alta e baixa hierarquia, mas o Papa não pode dar crédito
a tudo isso: no que ele se concentra é
na diferença da qualidade evangélica. Por exemplo, há muitos cardeais que não vivem uma profunda experiência evangélica.
Isso depende da pessoa, do coração. Não é um problema de categoria, mas sim de
coração.
Mas aqueles que têm essa categoria deveriam dar mais
exemplo. E, segundo, demonstrar que seguem os passos do Papa. Porque, pelo
menos na Espanha, não se nota o que eles fazem. Se o Papa deixa o palácio, por
que os bispos não deixam os seus?
Antonio
Spadaro: Com
certeza sim. O Papa tem insistido muitas vezes em uma expressão que já
utilizava frequentemente quando era arcebispo de Buenos Aires e mesmo antes:
que os clérigos [padres, bispos,
religiosos] não podem ser funcionários da Igreja, mas pastores. A
verdadeira chave para a leitura do homem da Igreja, daquele que está dentro,
seja mais acima ou mais abaixo, é ser realmente pastor. Esse pastor, que disse o Papa, com cheiro de ovelha. A expressão é
muito bonita. Poética. Isso significa que,
se você se aproximar das pessoas do povo, as pessoas irão lhe impregnar com
esse odor de “ovelha”.
Na verdade, é um modelo de conversão para os
padres que estão desconfiados do Papa Francisco porque dá mais importância a
ser "pastor" que a ser um padre. Mas se desenvolvessem uma capacidade
de juízo positivo, eles iriam ver que a
grandeza de Francisco é encontrar as pessoas, longe de questões de
estruturas e palácios. O fundamental é
que o pastor está perto de seu povo.
Então, o pastor tem que demonstrar-se e também
espressar-se nessas questões materiais. Um padre não pode dirigir uma Mercedes.
Antonio
Spadaro: Sim,
é isso. Algo assim sempre seria contraditório. Mas repito que o julgamento não
é o exterior: o juízo é o coração. Se uma pessoa está perto ou longe. Não são
tanto os hábitos externos, porque uma pessoa pode ter uma externalidade
simples, mas um coração profundo.
A reforma é demasiada lenta para alguns e muito rápida
para os outros?
Antonio
Spadaro: Qualquer
processo que seja realmente profundo é lento. E a qualidade da reforma não é avaliada pela sua velocidade, mas por
sua força. E para que a tenha, para que haja profundidade, se necessita de
tempo.
Em segundo lugar, direi que sua reforma está se impulsionando de forma irreversível.
Porque é profunda.
Irreversível neste pontificado?
Antonio
Spadaro: Sim.
Mas com continuidade no pontificado seguinte?
Antonio
Spadaro: Bem,
vamos deixar essa surpresa para Deus. Não podemos adivinhar o futuro... Mas
certamente estamos vendo que o Papa Francisco está tendo um impacto não só
sobre a Igreja, mas em todo o mundo. Em
sondagens internacionais já vimos que o Papa Francisco é o líder mais crível do
mundo, em comparação com os grandes líderes políticos e morais da história.
O seu grau de aceitação é muito alto.
Isto significa
que o Papa não influencia somente a Igreja. Por exemplo, vamos prestar atenção ao que
disse seu amigo muçulmano argentino: quando
foi eleito o Papa Francisco em 2013, não foi eleito somente o chefe da Igreja
Católica, mas um líder moral para o mundo. Neste processo, não se trata de
diferir o que é o cristianismo, mas oferecer um cristianismo mais humano.
Um líder com autoridade moral reconhecida não apenas
pela base, mas entre os líderes políticos mundiais.
Antonio
Spadaro: É
algo incrível. Porque o Papa Francisco é muito sóbrio, muito simples, mas
justamente conquista por essa proximidade das pessoas que estão mais
acostumadas com as distâncias cerimoniais. E até mesmo fica contraditório: quanto mais perto ele tem se mostrado, mais
tem crescido sua autoridade. Porque as
pessoas têm entendido que o significado da verdadeira autoridade está na
proximidade.
Estamos passando de
uma imagem do Papa imperial a um normalizado. Ele está simplificando o Papado?
Antonio
Spadaro: Estamos
passando de uma imagem constantiniana, imperial, de sinais e símbolos e
herdada, a um pontificado que vai se purificando, digamos. Ele está se
purificando de todos esses – demasiados – elementos. Aos poucos, ele está simplificando o Papado, levando-o ao imediatismo
evangélico.
Mas isso não agrada a muitas pessoas da Igreja.
Antonio
Spadaro: Isto
não agrada porque se acredita que a perda de sinais imperiais é uma perda de
autoridade... Mas estamos vendo que não é assim. Que é completamente o oposto.
Os inimigos principais do Papa estão dentro ou fora?
Antonio
Spadaro: Supondo
que eles existam, evidentemente, mas eu não faço esta distinção. As distinções
têm que ser muito mais profundas do que falar sobre dentro ou fora, de amigos
ou inimigos. O que tem que ser visto é
se temos um estilo equivalente ao dele, ou se o admiramos muito ou não,
seja de dentro ou fora da Igreja. A diferença, mais uma vez, não é no interior
ou no exterior, mas no esforço do coração.
De todos estes inimigos potenciais ou reais que o Papa
tem, pode se esperar que passem a agir? Você acha que poderia acontecer algo
com ele?
Antonio
Spadaro: Não,
acho que não. Francamente, o próprio Papa não está preocupado com isso. O Papa
sabe que este processo é real e envolve sua pessoa e pode provocar, portanto,
sentimentos contrários a ele. Mas, ao mesmo tempo, ele sabe que, como um
verdadeiro processo, é um processo silencioso. Não pode incomodar tanto.
O Papa não está preocupado porque não há
oposição. Além disso, explicitamente ele a quer. Ele é muito aberto à diferença
e à escuta e está confiante porque tudo ele faz com tranquilidade. O que ele
quer é envolver a alma das pessoas, suas vidas. A existência de oposição não irá impedir que este processo siga adiante.
Ele assume o risco de que dentro deste processo deve
haver oposição.
Antonio
Spadaro: Exato.
Entre os processos inacabados do Papado, em geral, está
a Rússia. Após a reunião em Cuba com o Patriarca Cirilo, pode-se pensar em uma
próxima reunião em Moscou?
Antonio
Spadaro: Não
sei. Não podemos falar em termos de geopolítica. O Papa é uma pessoa muito
livre, mas sabe perfeitamente que o
mundo é dominado por interesses. Por isso ele quer acabar com os bons e os
maus, os russos e os americanos... E construir
pontes. É um fato que este Papa falou calmamente tanto com Obama como com
Putin. Ele abriu canais de camaradagem
com vários líderes mundiais. Ele tem tentado mediar conflitos como os que
estão sendo negociados em Cuba e na Colômbia.
Tudo isto significa que o Papa se move muito
livremente no palco global. De uma maneira próxima, mas sempre buscando o que é
possível, com muito realismo. Quanto à
Rússia, então, ele percebeu que ela deve estar incluída neste processo de
pacificação do mundo. Como a China.
O grande amor que o Papa tem pela China decorre da constatação de que a China
tem uma forte influência política, e uma tradição cultural de enorme sabedoria.
É mais certa, então, a possibilidade de uma visita à
China?
Antonio
Spadaro: Parece,
mas não sei... O processo é lento. Não será uma questão de um par de dias. Não
será de imediato uma visita. Mas ele
está aberto para o mais difícil, como quando ele se encontrou com o
patriarca russo, Cirilo [ver foto acima]. Ele foi revolucionário pelo que teve de novidade, mas
também pela modalidade. Quem teria
imaginado que o Papa e o Patriarca se encontrariam em um aeroporto em Cuba? Todos
teriam imaginado uma igreja, um monastério; o Vaticano ou Moscou... E não nessa
sala simplíssima de um aeroporto em um lugar de Cuba, que é o Novo Mundo. É tão
aberto que o resultado é incrível! Mas depois de tudo isso, compreende-se
melhor que tenha sido autorizado a voar
em território chinês, que tenham lhe dado esse privilégio.
Ele é um animal político, impressionante pela sua
capacidade de desatar nós.
Antonio
Spadaro: Sim.
Acabo de estar em Buenos Aires e de ver a imagem do “Desatanudos”
[desatadora de nós].
Antonio
Spadaro: Sim,
mas no fundo essa imagem de “desatanudos” é muito forte para o Papa: o Papa não
pode resolver todos os problemas do mundo. O Papa quer levá-los um por um. É o
do processo. Colocar óleo sobre as
feridas, evitar o conflito... Curar. Começando
pelos lugares que estão em situação catastrófica, como a Síria.
No dia 8 foi publicada a exortação pós-sinodal “Amoris Laetitia”. O que vamos encontrar?
Antonio
Spadaro: A
Exortação Apostólica é a última etapa de um processo sinodal aberto e inspirado
pelo primeiro Sínodo Extraordinário. Diante de um questionário lançado ao Povo
de Deus, podemos imaginar que esta exortação recolherá o fruto deste processo
longo e honesto. Não é simplesmente uma carta apostólica escrita pelo Papa,
amadurecida em dois ou três dias. É um fruto lento, amadurecido dentro de um
processo sinodal muito recorrido. O Papa
deu importância ao processo sinodal. Ele tentou entendê-lo na intensidade de
cada palavra.
E quer que esse processo sinodal se torne realidade na
Igreja em todos os níveis.
Antonio
Spadaro: Sim.
O processo sinodal deve dar lugar a algo sólido. A Igreja deve viver um processo sinodal. É muito interessante que o
Papa Francisco, desde sua primeira exortação, Evangelii Gaudium, sempre citou
as conferências episcopais locais em suas encíclicas. Fazendo entrar o local no magistério pontifício. No fundo, o
magistério pontifício não é algo solitário, mas é mantido na vida interior de
cada Conferência Episcopal, na vida diária do Povo de Deus. Toda a Igreja deve
ser participante deste processo. Este
Papa tem ativado a colegialidade.
Você espera que
haja decisões concretas? Os jornalistas sempre falam sobre os divorciados que
voltam a casar.
Antonio
Spadaro: Vimos
que neste assunto tem se feito um processo e que a palavra-chave do Sínodo foi
a integração. Integrar as pessoas na
vida ordinária da Igreja.
Para recuperar as pessoas?
Antonio
Spadaro: Também.
Mas, acima de tudo, como já foi aprovada pela maioria, a integração será o
ponto de partida. Não tem que imaginar outra palavra: a integração é a chave.
O Papa mantém uma relação muito estreita com os meios
de comunicação. Mas dá a sensação de que, às vezes, a grande mídia, grandes
corporações de mídia tentam invisibilizá-lo, ignorar a sua mensagem para
permanecer no anedótico.
Antonio
Spadaro: Isto
é interessante. É um risco. O Papa Francisco se destaca por sua humanidade, e este
é um valor muito importante. O valor da ternura, que não é um valor
superficial; é muito profundo. Assim, o risco é cair simplesmente em acentuar
os gestos, os grandes gestos do Papa, que são muito poderosos e que
impressionam os jornalistas. Mas a mensagem está atrás: o gesto que mencionei antes, o lava-pés na homilia da missa da manhã de
quinta-feira santa, foi muito poderoso precisamente porque a mensagem oculta
era ternura. Não foi um gesto simples: foi um gesto profundo, de coração.
Muito mais do que um gesto.
Você é especialista na internet e escreveu um livro
sobre ciberteologia. Que papel está desempenhando a rede neste momento, no que
diz respeito ao Papa?
Antonio
Spadaro: As
redes do Papa que foram abertas bateram todos os recordes de seguidores. É
incrível. As pessoas estão muito atentas
ao que faz o Papa Francisco. A seus gestos, às suas palavras. As mensagens
de seu twitter, por exemplo, são
muito retuitadas, e são palavras que ele expressa em sua conta pessoal...
Também temos assistido à abertura de outra das contas pessoais do Papa: seu instagram, no qual,
extraordinariamente, voltou a bater todos os recordes. Milhões de seguidores em
apenas 12 horas! As pessoas “redizem”
suas profundas mensagens. Isso é espetacular em Francisco. E penso que isso
se deve ao fato de necessitarmos de tuítes como os dele. Que metem o dedo na ferida e tocam o coração.
Temos tantas imagens do Papa, recebemos
tantas mensagens suas... Mas são mensagens que passam por nós superando os
limites confessionais, e então fluem e nos tocam.
É o tipo de
pessoa que mais alcança ao público jovem, que é o que está mais conectado às
redes sociais.
Antonio
Spadaro: Por
exemplo, o Papa tira selfies com os
jovens, e o faz de uma forma tão natural que surpreende. Estamos acostumados a
vê-lo em vídeo-conferências; ver suas vídeo-mensagens. Provavelmente ele não usa o computador. Não acredito que goste. Mas que se deu conta imediatamente da
importância que ele tem para a prática pastoral. No fundo, é uma pessoa que
se adapta muito facilmente às exigências pastorais.
De fato, como você disse, ele reconheceu uma vez ser um
ignorante tecnológico.
Antonio
Spadaro: Sim.
Definiu-se como um dinossauro tecnológico. No entanto, soube ver a importância
da comunicação, ainda que em seu interior não seja um homem digital.
No final, você sente-se esperançoso com este processo
que se iniciou com Francisco.
Antonio
Spadaro: Sim,
acredito que ele está fazendo um
trabalho de espírito. Não é somente um Papa com carisma e genialidade, mas
que além da pessoa estamos vivendo um
momento particular espiritualmente. Vivemos um momento histórico com certo
aspecto trágico, mas também neste mundo há esperança. Vemos violência, e às
vezes tanta incapacidade de reagir contra essa violência. E precisamos de uma mensagem de harmonia, de
espiritualidade. Isto é o que está emergindo do Papa Francisco: o mais
essencial para o momento que atravessamos.
Falta-nos no seio da Igreja um pouco mais de entusiasmo
para subirmos nesta carruagem de Francisco, que está sendo uma bola de neve
comparada ao pós-Concílio? Depois do Concílio, na Espanha que é o que eu
conheço, houve uma onda de entusiasmo, desde as bases até o clero.
Antonio
Spadaro: Acho
que precisamos de um idealismo por um lado, no melhor sentido do termo, e, por
outro lado, o realismo. O Papa Francisco
é um papa realista. Ele não fala em
abstrato nem se apaixona por ideais: ele se apaixona por pessoas. Mas
parece-me que a Igreja sempre quis grandes esperanças e grandes desejos, mais
do que realismo. O projeto de Francisco não é isso: não é nenhuma ideologia
impraticável. De dentro da história, escutando-a, quer aprender com ela.
Fermento na massa: a condução que tem o Papa é daquelas
épocas de cristianismo de profundas convicções.
Antonio
Spadaro: O
Papa disse uma vez aos superiores gerais de ordens religiosas que hoje nós temos que enfrentar perguntas que
nem mesmo nós compreendemos. No fundo, a
realidade vai além da nossa capacidade de compreensão. Isso é realismo: saber que não temos todas as respostas.
Nisto o Papa deu várias voltas em seus documentos oficiais: que nunca teremos
todas as respostas.
Há uma coisa que sempre me espantou no Papa. Em algumas ocasiões, diante de alguma pergunta,
sua resposta foi “não sei”. Isto é singular em um papa. Mas esse “não sei”
não significa viver na ignorância, mas confiar no Senhor. No livro Querido Papa Francisco, a pergunta de
uma criança foi a seguinte: “Se você
pudesse fazer um milagre, o que você faria?”. O Papa respondeu: “Curaria todas as crianças do mundo que estão
doentes, porque não entendo o significado desse sofrimento”.
O problema do mal inocente?
Antonio
Spadaro: De
fato. O Papa não apenas quis dizer que não entende, mas disse que para ele é
uma ferida aberta. Lembro-me da pergunta de outra criança, que em sua inocência
pergunta: "Você ama Jesus?".
Uma pergunta estranha para um papa. E o Papa respondeu: "Eu não sei, mas
eu sei que ele me ama". Esta
atitude de total honestidade, de não dar respostas automáticas, este é o
realismo que precisamos.
Deixa transparecer o que vive, não?
Antonio
Spadaro: Absolutamente.
É uma experiência de fé.
Vamos terminando a entrevista. Você também é diretor da
Civiltà Cattolica, revista da Companhia
de Jesus com muitos anos e com muito pedigree. Supervisiona, acredito que agora
também, a Secretaria de Estado. A revista está indo bem? Cresce com a internet?
Antonio
Spadaro: É a revista mais antiga na
Itália e uma das revistas mais antigas do mundo. Foi fundada em 1850. Por
isso, viveu a história dos últimos 165 anos de forma direta. Esta é a figura
para entender a situação da revista. Aceita
o desafio da história neste momento e deste pontificado. A revista foi
fundada pelo Papa Pio IX, ligada aos jesuítas. Mas a ideia daquele Papa era que
ela estivesse sempre ligada de maneira profunda com o Papado.
Para nós a atualidade é um grande desafio: explicar como o Papa Francisco está
realizando sua missão no seio da Igreja.
Vocês são uma espécie de abastecimento de ideias da
Igreja, que a partir da revista abrem reflexões e propostas relacionadas com
este processo do Papa?
Antonio
Spadaro: Nestes
momentos esta é uma das nossas tarefas fundamentais: mediar, comunicar e
aprofundar-se em tudo o que está acontecendo dentro da Igreja, e o impacto de
Francisco, obviamente. De seu pontificado na Igreja e no mundo. Isto, como pode
ser facilmente compreendido, é uma tarefa enorme, que exige uma grande
quantidade de energia. Portanto, a
revista está tendo um grande sucesso de leitores e até mesmo de assinantes.
Mas, ao mesmo tempo, ela nos exige enormes energias, para lidar com essa
tarefa.
Influência também?
Antonio
Spadaro: Esperamos
que sim, porque se fizemos esta tarefa cultural, é porque queremos influenciar
a cultura e a sociedade. Mas eu tenho que dizer que estamos conseguindo, até
porque muitos de nossos artigos são
traduzidos e chegam a muitas partes do mundo.
Para fazer este trabalho, você tem procurado teólogos
argentinos que conhecem muito bem a maneira de ser e de pensar do Papa?
Antonio
Spadaro: Exatamente.
Porque hoje pensar uma revista cultural é impossível se reduzirmos o vínculo a
uma única nação. De fato, por isso no meu escritório eu tenho um catálogo de
todos os jesuítas do mundo. Somente os
jesuítas podem escrever na revista. É uma norma papal desde 1950 e que permanece
até hoje.
Com o catálogo de todos os jesuítas do mundo
nas mãos, peço artigos a quem me parece oportuno segundo suas competências.
Reduziu-se o nível intelectual da Companhia, como dizem
alguns?
Antonio
Spadaro: Eu
acho que a Companhia de Jesus está intimamente ligada às fronteiras. Algo muito
característico do Papa Francisco, mas também de Paulo VI, que dizia que tínhamos que estar nas encruzilhadas
culturais. Os jesuítas sentem o desafio das fronteiras. E esta é uma
característica da Companhia que queremos que siga viva. Que façamos bem ou mal
nas fronteiras, isso depende das circunstâncias. Mas a atenção cultural, o
discernimento do que está acontecendo no mundo, a Companhia vive realmente.
Ou seja, vocês procuram casar o cultural com o social.
Antonio
Spadaro: Sim,
esta sempre foi uma constante na Companhia. Tentar compreender as dinâmicas
sociais internas. Por isso muitos jesuítas trabalham diretamente nas áreas
sociais, enquanto outros o fazem na educação e na cultura: nas universidades ou
escrevendo livros e artigos. Como corpo
apostólico, a Companhia de Jesus está muito atenta para entender o que está
acontecendo no mundo.
Foi conveniente à Companhia ter o primeiro Papa jesuíta
da história, ou isso tem seus prós e contras?
Antonio
Spadaro: Surpreendeu
a todos nós que ele tenha sido eleito. Eu mesmo fiquei traumatizado, naquele
dia 13 de março de 2013, quando se anunciou a eleição de Bergoglio. Fiquei
comovido, porque nunca na história havia acontecido algo assim: não sabíamos o
que iria significar ter um Papa jesuíta. Nunca nós havíamos imaginado ser uma
ordem que desse à Igreja um Pontífice.Isto é um grande desafio para a
Companhia, evidentemente.
Somente é um desafio?
Antonio
Spadaro: A
palavra, para mim, carrega um valor profundo. Um desafio nos impulsiona a pensar de uma forma diferente da que
costumamos pensar habitualmente. Para tanto, o fato de que haja um Papa jesuíta que além de tudo explicita
a espiritualidade inaciana – o discernimento
em todos os seus gestos –, no fundo está convertendo todo o seu ministério
em um discernimento. Nas vésperas da Congregação Geral para a eleição de um
novo Superior Geral, isto para nós é um desafio. Em minha opinião, muito
positivo.
Dizem que nessa congregação geral vocês irão focar na
Ásia.
Antonio
Spadaro: Certamente,
a Ásia é um grande pulmão da Igreja,
tanto do presente como do futuro. Vimos quando o Papa visitou países como
Sri Lanka e Filipinas. Estamos vendo os movimentos da China e a explosão de
vocações em países como Vietnã, por exemplo. É certo que a Ásia é um continente que contém o germe do futuro.
PAPA FRANCISCO SAÚDA PADRE NICOLÁS (SUPERIOR GERAL DOS JESUÍTAS) |
Poderá vir da Ásia o próximo geral?
Antonio
Spadaro: De
fato, o Padre Arrupe e o atual
geral, o Padre Nicolás, já vêm da
Ásia, porque ainda que ambos sejam espanhóis, passaram grande parte de suas vidas no Japão. O Padre Kolvenbach era holandês, mas viveu no Líbano, no Oriente Médio. Nós
jesuítas sempre fomos especialmente atraídos pelo Oriente. Para nós, a figura
de Mateo Ricci é uma figura chave neste sentido.
E São Francisco Xavier.
Antonio
Spadaro: Com
certeza.
Pode-se dizer que a Companhia está prestes a morrer
pelo Papa?
Antonio
Spadaro: Pode-se
dizer que a Companhia vive uma relação singular com o Papa, porque percebe
claramente que este Papa vem da Companhia, mas também tem muito clara a grande
obediência que a Companhia deve ao Papa. É uma relação de tensão que em minha
opinião é muito positiva.
Terminamos por onde começamos: pela misericórdia. O Papa Francisco entrará
para a História por ela?
Antonio
Spadaro: Isto
é algo interessante porque, obviamente, não foi o primeiro Papa que falou da
misericórdia e, de fato, está em plena continuidade com seus antecessores: João
XXIII e João Paulo II, que escreveu uma encíclica sobre a misericórdia.
Mas Francisco
é provavelmente o Papa que a está encarnando. Está encarnando a misericórdia no tempo atual, para mudar inclusive a
forma da Igreja. Está levando a misericórdia a suas consequências mais
radicais, sem colocar-lhe limites nem barreiras. Neste sentido, está levando o sentido da misericórdia à
sua máxima radicalidade, ao extremo da misericórdia de Deus.
Precisávamos disso, não?
Antonio
Spadaro: Penso
que sim. A Igreja mãe, a maternidade da Igreja, uma Igreja que abraça a
humanidade ferida. Isto é o que o Papa chama de hospital de campo. A Igreja está a serviço da humanidade
ferida. Esta é a grande imagem.
Passar de ser alfândega a hospital de campo.
Antonio
Spadaro: Exatamente.
Estas são as duas grandes imagens. A Igreja
como alfândega que filtra o acesso ou a
Igreja hospital de campo que acolhe a todas as pessoas feridas.
Traduzido do
espanhol por Evlyn Louise Zilch.
Acesse a versão original desta entrevista, clicando aqui.
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