O Papa e a família: a novidade inesperada
José María
Castillo
Teología
Sin Censura
24-04-2016
A nova exortação apostólica pós-sinodal “AMORIS
LAETITIA”
inova em questões fundamentais e capta os “sinais dos
tempos”.
O escritor José Artrila publicou um estudo detalhado, “A verdadeira novidade do Amoris laetitia”, no qual explica
documentadamente a novidade que é o conteúdo da recente Exortação do Papa
Francisco. Seguindo em frente digo que concordo plenamente com o que disse José
Artrila em sua recente escrita. E valeria a pena que as mentalidades mais
rígidas e espiritualistas se concentrassem no que ensina o Papa Francisco
quando fala, por exemplo, do “amor
erótico” (nº 150) e do amor como
“paixão” (nº 148). Coisas que, aliás, muitas vezes não são ouvidas na
retórica clerical.
Mas, acima de tudo, o impressionante é a insistência do Papa sobre o tema do amor mútuo,
“amor de amizade” que iguala e une os cônjuges – e não na doutrina da
Igreja ou de suas leis – como argumento transversal, que recorre toda a recente
Exortação papal do início ao fim.
Pois bem, dado o que acabo de indicar,
parece-me importante que aprendamos (ou nos demos conta) da novidade que
envolve toda a aproximação da família, se este assunto é pensado a partir de
dimensões que lhe são inerentes. Por exemplo, a dimensão histórica ou quanto
afeta à sociologia a instituição familiar.
Explico-me. Se prestarmos atenção ao que
dizem os sociólogos atualmente mais renomados, logo entendemos que a família é uma das instituições que está
experimentando mudanças tão rápidas e tão profundas, que, na mesma família
– isso é frequente – os avós não entendem os novos hábitos dos filhos e, ainda
menos, dos netos.
Muitas pessoas
não pensaram que a família tradicional era acima de tudo uma unidade econômica. De maneira que, durante séculos, o casamento não acontecia
na base do amor sexual. Era assim que se entendia (e se vivia) este assunto
desde as origens do direito romano. Todos os direitos e todo o poder estavam
concentrados no Pater familias (Peter
G. Stein). E assim ficamos, em coisas muito fundamentais, até pouco tempo. Daí
que a desigualdade era intrínseca à
família tradicional.
Nos últimos anos, tudo isso saltou pelos
ares. E restam três pontos capitais, que estão substituindo os velhos laços que
costumavam unir as vidas privadas das pessoas; as relações sexuais e
românticas, relações entre pais e filhos e amizade. Daí que o centro da instituição familiar mudou: da família como
“unidade econômica”, ao que foi justamente chamado de “relação pura”
(Anthony Giddens). Mas o que é, definitivamente, essa “relação pura”? “A relação que se baseia na comunicação, de
modo que compreender o ponto de vista de uma outra pessoa é essencial”.
Agora, se tudo isso é assim, e creio que por
aí vão as coisas, se agora voltamos a nossa atenção para a Exortação do Papa
Francisco, não temos que nos esforçar muito para advertir que o papa, sendo
fiel à tradição da Igreja, bateu no prego do que está acontecendo na instituição
familiar. E também no prego da solução que o estado tem de coisas em que
vivemos.
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JOSÉ MARÍA CASTILLO Teólogo espanhol autor deste artigo |
Dito mais claramente: a solução dos problemas da família não vai estar em afirmar verdades
rotundas. Tampouco virá pela submissão a regras totalmente rígidas que se quer.
Não. Em nada disso está o problema. E, por conseguinte, em nada disso está a
solução. A família recuperará a sua
estabilidade, o seu equilíbrio e sua razão de ser, na medida em que o amor de
amizade, que, na linguagem secular, pode ser chamado de "relação
pura", ocupe o centro que, durante séculos, ocupou o Pater familias, como proprietário e
fiador da unidade econômica que, de fato, foi a instituição familiar.
O Papa Francisco, não só tem inovado em
questões muito fundamentais, em relação a são João Paulo II, mas também tem
captado os "sinais dos tempos" muito melhor do que imaginam aqueles
que se empenham para que tudo fique na mesma.
Traduzido do
espanhol por Evlyn Louise Zilch.
Acesse a versão original deste artigo, clicando aqui.
Fonte: Instituto
Humanitas Unisinos – Notícias – Terça-feira, 26 de abril de 2016 – Internet:
clique aqui.
O Papa pode ensinar algo novo ou só eram
Vigários de Cristo os de antes?
Elske
Rasmussen
Religión
Digital
28-04-2016
Francisco ensina que o discernimento no foro interno
pode, em alguns casos, levar a admitir uma aplicação diversa da norma. Não
neguemos ao Papa Francisco, que também é Vigário de Cristo e também possui a
assistência do Espírito, a possibilidade de enriquecer a Igreja com uma melhor
compreensão de seu ensinamento moral e de sua disciplina.
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ÚLTIMOS PAPAS DA IGREJA: João Paulo II, Bento XVI e Francisco |
1. Francisco dissimulado
É chamativo como alguns portais católicos
tratam o Papa Francisco, sobretudo, após a Amoris
Laetitia. Por um lado, se leem notas de Melina, Pérez Soba e outros, que
afirmam: “aqui não aconteceu nada, tudo
continua igual, a disciplina se mantém inalterada”. Porém, existem as notas
no rodapé do capítulo 8, onde Francisco esclarece as dúvidas.
Em todo caso, no retorno [da ilha] de Lesbos,
fizeram ao papa uma pergunta sumamente precisa, para que não fiquem sombras de
dúvida: «Alguns defendem que nada mudou para que os divorciados em segunda
união acedam os sacramentos; outros defendem que mudou muito e que há muitas
novas aberturas. Há novas possibilidades
concretas ou não?». A pergunta procurava fazer com que o Papa explicitasse
se é apenas o caso de manter o já dito na Familiaris
Consortio ou se, a respeito desse assunto concreto, foram abertas “novas
possibilidades”. Francisco respondeu: «Eu
posso dizer que sim». Não me deterei sobre este ponto porque o escrito José Artrila já o explicou muito
claramente em sua nota: “A verdadeira
novidade da Amoris Laetitia”.
2. Francisco condenado
Contudo, junto com a tentativa de dissimular
a novidade da Amoris Laetitia, há
aqueles que perceberam claramente, e com amargura, que a mudança é realmente muito importante, porque dá origem a outro modo
de discernir e de atuar na pastoral. Estes, então, tentam negar que a
Exortação faça parte do Magistério, ou então criam a impressão de que o Papa caiu
dentro de alguma condenação, porque afirma coisas que o Magistério anterior
havia rejeitado.
Basta considerar dois exemplos. Um é o artigo
intitulado “Inconveniências eclesiais IV:
uso da linguagem situacional na Amoris Laetitia, I: pontos 291 a 300”.
Neste, dá a entender que a Exortação de Francisco cai sob a condenação de um
discurso de Pio XII. A “moral de
situação” que Pio XII rejeita, “não se baseia de maneira alguma nas leis
morais universais”, de maneira que a decisão da consciência “não pode ser
imperada pelas ideias, princípios e leis universais”. A isto, Pio XII respondia
que “por causa de sua universalidade, a lei moral compreende necessária e
intencionalmente todos os casos particulares”.
No entanto, Francisco não afirma precisamente que a lei moral não abarque todas as
situações, nem que seja incapaz de imperar a decisão da consciência, mas
que “as normas gerais apresentam um bem
que nunca se deve desatender, nem descuidar, mas em sua formulação não podem
abarcar absolutamente todas as situações particulares” (Amoris Laetitia 304). É a formulação da norma a que não pode
abarcar tudo, não a norma em si mesma. Isto vale, é claro, para as leis
positivas, como as leis canônicas, mas vale também para nosso modo de formular
a lei natural em suas diversas expressões.
A esse respeito, no ponto 305, o Papa utiliza
uma afirmação da Comissão Teológica Internacional, escrita dentro do
pontificado de Bento XVI e com a aprovação da Congregação para a Doutrina da
Fé: “A lei natural não deve ser apresentada como um conjunto já
constituído de regras que se impõem a priori ao sujeito moral, mas é muito mais
uma fonte de inspiração objetiva para o seu processo, eminentemente pessoal, de
tomada de decisão” (Em busca de uma
ética universal, 2009, 59). O autor da nota deveria ter dito, então, que
Bento XVI admitiu que sua própria “Comissão Teológica Internacional” caiu em
uma moral de situação condenada.
Alguém pode não concordar, ou pode dizer que
não consegue compreender, mas acredito que é preciso ter um pouco mais de cuidado
no momento de deixar transparecer que o Papa cai sob a condenação de um
antecessor.
3. Francisco subjetivista
Outro artigo lança uma suspeita semelhante e
nos permite completar a resposta. Trata-se de uma nota de José A. Sayés, intitulada: “A
misericórdia de Deus na Amoris Laetitia”. Nela se diz: “Perguntamo-nos por
que a Exortação parece não indagar a existência do bem e o mal objetivos. Pois
bem, se a reflexão que realizou o Papa Francisco não se interroga sobre a
objetividade da moral, caberia se perguntar se o cumprimento dos mandamentos é
uma exigência para a salvação cristã”. Ao fazer este questionamento, cita
textos de São João Paulo II que condenariam esta falta de Francisco. Outra vez
condenado.
No entanto, Francisco deixa claramente em pé
a existência do mal objetivo e do pecado objetivo, ainda que a culpabilidade da
pessoa possa ser atenuada ou eliminada. O que a “moral de situação” rejeitada
pelo Magistério pretende é que a situação concreta permita chamar de branco o
que é preto, chamar de bem o que é mal, porque são as circunstâncias concretas
que determinam a moralidade objetiva. No entanto, a postura de Francisco é
outra.
Ou seja: o
fato de que os condicionamentos possam diminuir a culpabilidade, não significa
que o que objetivamente é mau passe a ser bom. Basta ler a seguinte frase
do documento: “Por causa dos
condicionamentos ou fatores atenuantes, é possível que, em meio a uma situação
objetiva de pecado – que não seja subjetivamente culpável ou que não o seja de
forma plena – seja possível viver na graça de Deus” (Amoris Laetitia 305). Continua sendo uma “situação objetiva de
pecado”. Precisamente, alguns teólogos progressistas criticam Francisco por
manter a “obsoleta” distinção entre o objetivo e o subjetivo.
Francisco só assume, com todas as suas
consequências, o que o Catecismo já assumiu há bastante tempo: “A imputabilidade e a responsabilidade de uma
ação podem ser diminuídas e inclusive suprimidas por causa da ignorância,
inadvertência, violência, temor, hábitos, afetos desordenados e outros fatores
psíquicos ou sociais” (Catecismo da
Igreja Católica 1735). O Catecismo
menciona também a imaturidade afetiva, a força dos hábitos contraídos, o estado
de angústia (cf. Catecismo da Igreja
Católica 2.352). Mantém-se, então, a qualificação objetiva do ato, mas o Papa explica que esse ato pode não
ter uma gravidade que retire a vida da graça. Isto pode ocorrer, por
exemplo, quando uma pessoa está “em condições que não lhe permitem atuar de
maneira diferente e tomar outras decisões, sem uma nova culpa” (Amoris Laetitia 301).
Em outra parte, o Papa deixa a salvo a
existência do bem e o mal objetivos e da “objetividade da moral”. É quando diz
que a consciência “pode reconhecer não só que uma situação não corresponde
objetivamente à proposta geral do Evangelho. Também pode reconhecer com
sinceridade e honestidade aquilo que, no momento, é a resposta generosa que se
pode oferecer a Deus” (Amoris Laetitia
303).
4. Francisco condenado a repetir
Contudo, para além do fato de demonstrarmos
que Francisco não contradiz os ensinamentos dos Papas anteriores, alguns
sustentam que ele só está autorizado a repetir o que disse o Magistério
anterior, especialmente de Pio XII a Bento XVI.
Parece que “só eram Vigários de Cristo os de
antes”. Por acaso, entre estes e os Papas dos séculos anteriores não houve
diferenças e novidades? Olhemos um pouco a história. De “pérfidos judeus” a “irmãos maiores” há uma diferença. O
Vaticano II produziu uma profunda evolução em temas como a liberdade religiosa,
a separação entre Igreja e Estado e a possibilidade de salvação fora da Igreja
Católica. Em 1832, o Papa Gregório XVI havia dito que é um “julgamento absurdo e errôneo, ou melhor, um
delírio, que se deva admitir e assegurar a cada um a liberdade de consciência”
(Mirari vos 14). O syllabus de Pio IX (1864) inclui a
liberdade religiosa entre os perigosos “erros”.
Mais claro ainda é o caso da escravidão. Em 1452, o Papa Nicolau V concedeu ao rei de Portugal o direito de entrar em
guerra contra os sarracenos e reduzi-los à escravidão perpétua, e o confirmou a
Bula Romanus Pontifex. Até o século XV, a escravidão não era
considerada pecado. No século XVI, os Papas Paulo III e Gregório XIV
tentaram acabar com a escravidão na América Latina, mas no Estado Pontifício
continuou existindo vários séculos depois.
Costuma se dizer que qualquer evolução só se
pode realizar na mesma linha do dito anteriormente pela Igreja. Porém, em alguns exemplos mencionados, não se pode
dizer que a evolução se produz “na mesma linha” do dito antes. Entre
admitir a escravidão e não a admitir, em nenhum caso, há uma grande novidade.
Aí, a continuidade só existe em relação à doutrina geral acerca da dignidade
humana, mas não no ponto preciso que está em questão, onde a Igreja realmente mudou de opinião.
Do mesmo modo, entre afirmar que só um católico pode se salvar, a
sustentar que há possibilidade de
salvação fora da Igreja, a continuidade só está dada em alguns princípios
gerais que impedem cair no relativismo. Algo semelhante ocorreu com a pena de morte. Em outros casos, como o
da liberdade de consciência, o ensinamento não é contraditório, mas há algo
mais que uma nova forma de expressão da verdade. Há realmente uma melhor
captação da proposta do Evangelho, há
uma riqueza nova e novos modos de aplicar o ensinado.
Até agora, o discernimento sobre uma culpabilidade atenuada não permitia tirar
consequências no âmbito externo ou disciplinar, e as consequências de uma norma
canônica permaneciam inalteradas. Agora,
Francisco ensina que o discernimento no foro interno pode, em alguns casos,
levar a admitir uma aplicação diversa da norma. Não neguemos ao Papa
Francisco, que também é Vigário de Cristo e também possui a assistência do
Espírito, a possibilidade de enriquecer a Igreja com uma melhor compreensão de
seu ensinamento moral e de sua disciplina. Ou, ao menos, não coloquemos sobre
ele uma condenação de Pio XII ou de São João Paulo II.
Traduzido do
espanhol pelo Cepat. Acesse a versão
original deste artigo, clicando aqui.
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