Onde está, de verdade, o problema da Previdência?
O problema está na previdência do setor público
Em vez de só barulho, o jornalismo tem de mostrar o
tamanho
da injustiça a ser corrigida
Os
batedores de bumbo do PT nunca estiveram tão exultantes, desde Waldir Maranhão,
com os últimos golpes para “provar que é golpe” a operação que se ensaia para
deter o livre despencar da miséria brasileira nas profundezas do caos político
e das finanças públicas destroçadas que seu partido nos legou.
Lá
virá a ladainha de sempre para demonstrar que alhos são bugalhos, mas é tempo
perdido. O que derrubou o PT foi a
paralisação da economia, o que paralisou a economia foi a mentira
institucionalizada, Temer está onde está porque é o sucessor constitucional no
posto do qual o Brasil apeou Dilma, a Operação Lava Jato não vai parar. Só
o Brasil tem força para desencadear ou para suspender processos como esses.
O
PT passou 13 anos operando só para si e nas sombras, e deu no que deu. Temer
começa falando só de Brasil, mas ainda hesita em expor-se inteiro ao sol. Vai
em busca de sua legitimação junto à única fonte de onde ela pode vir. Pede
humildemente endosso da opinião pública à lógica das suas soluções; dispõe-se a
adaptá-las para consegui-lo.
Por
esse caminho é certo que pode dar certo. Mas se, e somente se, a aposta na
transparência for absoluta.
Ninguém atravessou a “Era
PT” impoluto.
O País conhece os políticos que tem e
sabe que é com eles que terá de contar. O fato de todos eles estarem
discutindo Lava Jato, como o resto do Brasil, não significa, em si mesmo,
rigorosamente nada. Do presidente em exercício para baixo, na equipe política e na equipe técnica, são as mesmas pessoas que
serviram ao PT que se dispõem, agora, a servir antes ao Brasil, como poderia
ter sido sempre, se o governo anterior o tivesse desejado. Muda a música
que se toca, muda a dança que se dança.
Gravações?
Haverá
outras mil. Nesse departamento vivemos o clássico dilema do ovo ou da galinha.
Se a imprensa continuar sinalizando que disparará em manchete toda gravação que
qualquer chantagista lhe enfiar na culatra, a política seguirá, como hoje,
sendo movida exclusivamente a gravações de chantagistas. E mata-se o Brasil. Se passar a investigar e dar manchetes para
o maior problema brasileiro, a política nacional passará a girar em torno do
maior problema brasileiro. E o Brasil ressuscitará.
Explico-me
com um pouco de história. Em 1976, em pleno regime militar e no auge da
censura, este jornal publicou a série “Assim
vivem nossos superfuncionários”, que ficou conhecida como a reportagem “das mordomias”. Ela expôs
em detalhe à miséria nacional o universo obsceno de fausto e desperdício que
ela sustentava sem saber e que drenava todo o dinheiro público que deveria
estar sendo investido em infraestrutura e serviços essenciais à melhoria
continuada do desempenho da economia e, consequentemente, do valor do trabalho.
Dado o sinal à Nação de que havia quem se dispusesse a publicá-las, choveram denúncias na redação durante meses
a fio revelando as infinitas formas que assumia a ordenha do Estado, mal
disfarçada na soma de salários e benefícios estratosféricos, no assalto a longo
prazo ao erário mediante a “anabolização” de último minuto em aposentadorias
que perdurariam por décadas e se desdobrariam em pensões vitalícias
transmitidas de pai para filho e nos outros ralos mil abertos por agentes
corruptos dos Três Poderes que viviam de vender esse saque institucionalizado
do Estado.
Materializada
na exposição direta dos modos de vida que esses esquemas sustentavam, a
discussão saiu do nível abstrato. Cada
brasileiro, lá do seu barraco, pôde ver com os próprios olhos como e por quem
vinha sendo estuprado, e no que se transformava, na realidade, a estatização da
economia que a esquerda, de armas na mão, de um lado, exigia que fosse total e
os militares da direita, lá pelo deles, concretamente executaram como nunca
antes na história deste país criando mais de 540 estatais. [Que paradoxo! Tanto os militares quanto a esquerda da época –
e ainda hoje – queriam a estatização, um Estado grande e “generoso”. Na
verdade, generosidade essa que jamais é para todos, mas para alguns
privilegiados!]
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SE NÃO BASTASSEM OS GASTOS E DIFERENÇAS EXORBITANTES COM AS APOSENTADORIAS DOS FUNCIONÁRIOS PÚBLICOS FEDERAIS, TAMBÉM OS FUNDOS DE PENSÃO DAS MAIORES ESTATAIS APRESENTAM ROMBOS!!! |
Mas
nem a famigerada ditadura militar resistiu à força dos fatos e imagens
revelados. Muitas outras reportagens semelhantes foram produzidas País afora e,
já em 1979, os generais, pressionados, tinham criado um ministério inteiro para
começar a desmontar a privilegiatura. Quando o País emergiu para a
redemocratização, em 1985, sabia em que direção tinha de caminhar. A luta para desprivatizar o Estado e
devolvê-lo ao conjunto dos brasileiros veio até o governo Fernando Henrique Cardoso
e a Lei de Responsabilidade Fiscal, cujo desmonte – e consequências – pôs
um fim à “Era PT”.
Este continua sendo o maior
problema brasileiro. Desde 2003 o PT reelegeu o loteamento do Estado como moeda única do
jogo político e, ao fim de 13 anos de um processo desenfreado de engorda, cada emprego pendurado no cabide vem
desaguando, obeso, na Previdência. O governo Temer aponta vagamente “a
Previdência” como o “xis” do problema brasileiro, e está certo. Mas, pendurado
ainda no ar, sabe que tomar a iniciativa de pôr esse bode na sala é morte
certa. É por isso que nem Henrique
Meirelles nem seu chefe se permitem completar a frase: é a PREVIDÊNCIA DO SETOR PÚBLICO, valendo 33 vezes o que vale a outra,
que é o “xis” do problema brasileiro. E sem mexer profundamente nela o
Brasil não desatola.
Não
há um único jornalista, especialmente em Brasília, onde o despautério é mais
visível a olho nu, que não saiba disso. E, no entanto, persiste a cumplicidade
com essa mistificação quando até o PMDB já está claramente pedindo o empurrão
que falta para que esse tema indigesto suba à mesa.
Para
poder voltar a andar, o Brasil não
precisa, exatamente, de uma reforma da Previdência, espremendo um pouco mais a
miserinha que ela distribui depois da festa dos
aposentados do Estado, na qual, diga-se de passagem, os do JUDICIÁRIO
são reis. Mais do que justiçamentos, o
Brasil precisa de justiça, que é uma ideia bem mais fácil de vender, desde
que antes o jornalismo, em vez de só barulho, faça a sua porca obrigação de
mostrar em todos os seus escandalosos pormenores o tamanho da injustiça que é
necessário corrigir.
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