Lições do rebuliço de ontem no Brasil
Caso mostra como Lava Jato se tornou
politicamente intocável
Igor Gielow
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NAS MANIFESTAÇÕES GIGANTESCAS OCORRIDAS NO BRASIL FICOU ESTAMPADO O ORGULHO E APOIO DA MAIORIA À OPERAÇÃO LAVA JATO. No cartaz da foto acima se lê, em inglês: "Em Moro nós confiamos" |
O episódio Romero Jucá demonstra, caso
alguém ainda tivesse dúvida, como a Operação Lava Jato tornou-se intocável
politicamente. "Interferir na Lava
Jato" é o novo "acabar com o Bolsa Família", "privatizar a
Petrobras" ou qualquer outro bordão tóxico para políticos.
O
que mais surpreende não é tanto o conteúdo das inconfidências de Jucá ou a
tentativa de edulcorar [adocicar] a conversa, mas o fato de que políticos que se
orgulham de seu propalado profissionalismo não tenham antevisto a confusão.
Jucá já era um dos mais
enrolados líderes do PMDB na Lava Jato antes de assumir o Planejamento. Michel Temer insistiu em
sua nomeação baseado na capacidade do correligionário de azeitar a coordenação
dos interesses do Planalto no Senado, particularmente a agenda econômica, mas
não só – Dilma Rousseff ainda será julgada pela Casa.
Temer menosprezou os riscos,
e agora tem a primeira baixa de peso com pouco mais de uma semana no cargo. O mesmo critério levou o
presidente interino a aceitar nomes sob suspeita no gabinete e uma figura como
a do líder na Câmara [Dep. Fed.
André Moura, PSC/SE], acusado até de tentar matar um vigia.
O peemedebista talvez não
tenha outra opção [afinal, quem está limpo?]. Mas agora
terá de lidar com o reforço à desconfiança das intenções do seu PMDB em relação
à Lava Jato, que já não era pouca, já que o
partido divide com PT e PP o estrelato no rol de acusados no petrolão.
Efetivamente,
o acordão sugerido por Jucá parece intangível, até pela quantidade de atores
que teria de arregimentar – a começar por um certo juiz de Curitiba, delegados
e procuradores.
Do
ponto de vista estritamente legal, pode até ganhar o salvo-conduto da
Procuradoria-Geral da República, instada a falar sobre o áudio com Sérgio
Machado. Jucá sonha com uma "solução Hargreaves", referência a um
aliado de Itamar Franco que foi afastado durante uma investigação e voltou ao
cargo após ser inocentado. Na prática,
contudo, sua situação é hoje incontornável.
Temer
sofre um forte abalo de saída, já que Jucá carregava o software de negociação
política da agenda econômica a ser anunciada nesta terça (24) por Henrique
Meirelles (Fazenda).
É
provável, inclusive, que toque o serviço com o terno de senador. Num Congresso em que a maioria dos seus
colegas tem a mesma opinião dele sobre a Lava Jato, pode até funcionar – desde
que ninguém fale em voz alta.
Temer
vê aumentada sua dívida com o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), desafeto e um dos últimos aliados a
abandonar Dilma. Ele é central para o
encaminhamento das propostas que cabiam a Jucá.
Ao
menos até surgirem eventuais novidades; por sinal, Sérgio Machado era apadrinhado de Renan na Transpetro.
Fonte: Folha de S. Paulo –
Poder –
Terça-feira, 24 de maio de 2016 – Pág. A6 – Internet: clique aqui.
De Delcídios e Romeros
Eliane
Cantanhêde
Cunha, Jucá e Sérgio Machado são prato feito para a
oposição a Temer
O
presidente em exercício Michel Temer sabia que não seria fácil, mas não sabia
que seria tão difícil. Cada dia, sua agonia – ou, cada dia, o seu amigo ou
ministro problemático. Se Eduardo Cunha
é um peso enorme, Romero Jucá não fica atrás. Os dois, juntos, já puxam
Temer e seu projeto para um limbo de interrogações. Mas eles não são os únicos.
Na
fita revelada ontem pelo repórter Rubens Valente, Jucá discute com o ex-presidente da Transpetro Sérgio Machado um
“pacto” para garantir o impeachment
de Dilma Rousseff, a posse de Michel Temer e a interrupção pelo meio da
Operação Lava Jato. No caso da Lava Jato, era inexequível, pouco mais que
um devaneio, mas virou um imenso constrangimento para o governo interino e um
explosivo combustível para o discurso da nova oposição e os movimentos que
acossam Temer.
Na
tentativa de pedir a prisão e a cassação de Jucá, a primeira comparação feita
pelo PT e seus aliados no Congresso foi com a gravação ambiente que justificou
a prisão do primeiro senador no exercício do mandato, o então líder do governo
Dilma, Delcídio Amaral. Mas, na verdade, a
comparação mais correta é com o diálogo entre o então ministro da Educação
Aloizio Mercadante e Eduardo Marzagão, assessor de Delcídio.
Delcídio foi preso e cassado por
tentativa concreta de obstrução da Justiça, depois de flagrado oferecendo meios
práticos, como dinheiro e até um avião, para tirar Nestor Cerveró do Brasil e
assim evitar que fizesse delação premiada e contasse cobras e lagartos sobre a
participação de amigos do ex-presidente Lula e de empreiteiros que, segundo o ex-líder,
estariam sendo protegidos por Dilma.
Mercadante foi mais sutil
quando chamou Marzagão para uma conversa no seu gabinete. Disse que poderia “ajudar”
no que fosse possível, sugeriu que poderia oferecer advogado e até alguma ajuda
financeira, mas para a defesa. Tudo implícito, sugestivo, sub-reptício, como
fez Jucá com Machado.
Jucá
não disse onde, como, com quem especificamente e com que recursos práticos
pretendia construir um pacto nacional “com o Supremo”, “parar tudo”, “delimitar
onde está, pronto”, “proteger o Lula, proteger todo mundo”. Um projeto megalomaníaco, como se bastasse um
estalar de dedos para suspender a Lava Jato, parar o Supremo Tribunal Federal,
o juiz Sérgio Moro, o Ministério Público, a Polícia Federal e a imprensa.
Simples, não?
Aliás,
é curioso como os políticos pegos em
grampos falam do Supremo [Tribunal Federal] sem a menor cerimônia, como se fossem íntimos dos ministros. Alguém
consegue imaginar Dilma, de um lado, ou Temer, de outro, destacando emissários
para calar, cooptar ou sei lá o quê os onze ministros do tribunal, todos e cada
um deles listados entre os maiores e mais respeitáveis juristas do País?
EDUARDO CUNHA E ROMERO JUCÁ Somente dois exemplos dos perigos dos "homens do presidente" Michel Temer! |
Nas
fitas, Jucá também diz que o vivíssimo
Eduardo Cunha “está morto”. Nem tanto... Cunha e Jucá têm em comum a
proximidade do presidente em exercício, os rolos com a Lava Jato e destaque no
início da gestão Temer, mas Cunha sobrevive mesmo afastado e Jucá é que parece
“morto”. Dizem que os peixes morrem pela boca, mas Jucá morre pela boca e por “otras cositas mas”.
Ninguém
nega que Jucá seja um bom economista e um líder eficaz de qualquer governo, e
esses são os motivos alegados por Temer para destacá-lo para um cargo
estratégico como o Planejamento. Desde o início, porém, virou alvo favorito dos
adversários de Temer e do impeachment,
como exemplo de que o PMDB estaria envolvido até o último fio do cabelo em
maracutaias.
Jucá, portanto, era uma
crise anunciada. Como são as indicações feitas
a dedo por Eduardo Cunha no governo interino, a começar do líder na Câmara, o
réu André Moura. Os antigos governistas, hoje oposicionistas, nem vão ter
muito trabalho. Podem ficar sentados, esperando os próximos escândalos.
Nenhum
deles, aliás, tem tanta capacidade de fazer estrago na equipe do presidente em
exercício Michel Temer quanto Sérgio
Machado – o amigo que jogou Romero Jucá no olho da rua e sabe das coisas.
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