Como trabalham os políticos no Brasil
Quem paga o “pacto”
José Roberto de Toledo
O que se ouviu até agora expõe o jeito de fazer
política dos caciques
do PMDB [e de outros partidos mais]
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DA ESQUERDA PARA A DIREITA: ROMERO JUCÁ, JOSÉ SARNEY E RENAN CALHEIROS Caciques em busca de "cobertura" para seus atos!!! |
“Sem meter advogado no meio.” Foi a
oferta dita e repetida pelo decano José
Sarney ao investigado Sérgio Machado
para ajudá-lo a sair da mira da Lava Jato – no mais recente grampo vazado. Foi
o clássico conchavo, no qual “dois é reunião e três vira comício”. Sarney propôs uma saída “política” para um
problema criminal, mimetizando o que fizera Romero Jucá em conversa com Machado.
É
educativo para quem ainda crê que as decisões tomadas em todas as direções num
raio de 500 metros a partir da Praça dos Três Poderes são baseadas em critérios
técnicos ou na legislação. A conversa
prova que – seja no Executivo, no Legislativo ou no Judiciário – a troca de
favores e o jogo de influência prevalecem sobre qualquer norma legal.
Servem-se da lei para intimidar inimigos. Mas seu uso é optativo e de
conveniência.
Encomendados
por procuradores ao ex-presidente da Transpetro em troca de uma delação
premiada com punição amiga, os áudios
são exemplos de politicagem explícita. Ao contrário do grampo que levou
Delcídio Amaral para a cadeia, o que se ouviu até agora não caracteriza crime
em andamento, mas expõe, como raramente se vê por dentro, o jeito de fazer política dos caciques do PMDB. Um jeito que os tem
mantido no poder há três décadas.
A ideia de Sarney era, na base da
conversa entre amigos, “sem advogado no meio”, tirar o caso de Machado da alçada do juiz Moro e levá-lo ao Supremo
Tribunal Federal [STF]. Para não dar chance ao azar, só queria envolver
Renan Calheiros nessa articulação. Sarney sabe que, se a história vazasse e
houvesse mais de dois na sala, nunca teriam certeza de quem a vazou. Como
conhece seus pares, não queria correr riscos desnecessários. Não imaginou que o
risco maior era o próprio Sérgio Machado e seu gravador.
Apesar
de tudo o que revelam, as conversações
deixam muitos silêncios. Percebe-se o desejo de Renan, Sarney e Jucá de
articularem um “pacto” – na expressão do ex-ministro interino – para precipitar
o fim e limitar a extensão da Lava Jato. Mas a maneira como isso seria feito não está totalmente explicitada nas
gravações conhecidas até agora. Dá para imaginar os vazios.
Para o trio grampeado por
Machado atingir aquilo a que se propõe, o tal pacto passaria, necessariamente,
por uma articulação nos três prédios da Praça dos três Poderes: Palácio do
Planalto, Congresso e Supremo. Como Dilma Rousseff não foi chamada para a
conversa, sua substituição é condição implícita.
Outra necessidade seria que
o STF domasse a operação policial, selecionando detenções, arquivando investigações e
acelerando o seu calendário para dar um limite e um prazo à Lava Jato.
Finalmente,
caberia ao Congresso – além de trocar o presidente – aprovar mudanças na
legislação para evitar que o problema se repita no futuro. Para isso, como
sugeriu Renan, seriam proibidas as
delações de quem já esteja preso. Ou seja, acabariam com o recurso mais usado por Moro e procuradores para
conseguir avançar nas investigações e produzir condenações.
Moro
se aproxima da centésima condenação. O juiz diz crer que a Lava Jato vai acabar
com a corrupção sistêmica no Brasil. Não vai. Como os grampos deixam evidente,
nem 100, nem 200 nem mil condenações resolverão o problema. Só uma REFORMA POLÍTICA, que diminuísse o
peso do dinheiro no sistema eleitoral e saneasse o sistema partidário, teria
alguma chance de mudar as estruturas que unem políticos e financiadores de
campanha contra o estado.
Essa
hipótese, porém, é tão improvável quanto a chance de esvaziar a corrupção em
Brasília enchendo as celas de Curitiba. Os
Sarney, Renan e Jucá jamais aprovarão leis que contrariem seus próprios
interesses. Não importa a qual partido pertençam. O mais provável é que o
Brasil continue pagando o “pacto”.
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