Ignorar o pobre é desprezar a Deus, alerta Papa na Catequese
Da redação,
com Rádio Vaticano
Francisco refletiu sobre a parábola do rico e de Lázaro,
e falou sobre pobreza e misericórdia
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PAPA FRANCISCO chegando no papamóvel para a Audiência Geral e percorrendo a Praça São Pedro (Vaticano) Quarta-feira, 18 de maio de 2016 |
Na
Catequese desta quarta-feira, 18 de maio, Papa
Francisco falou sobre pobreza e misericórdia, referindo-se à parábola do rico
avarento e do pobre Lázaro (cf. Lc 16,10-31).
“A misericórdia de Deus está
ligada à nossa misericórdia para com o
próximo. Quando não temos misericórdia para com os outros, a misericórdia de Deus não encontra espaço em
nosso coração fechado”, disse o Santo Padre.
Francisco
explicou que a parábola do rico e de Lázaro demonstra isso. O
portão da casa do rico estava sempre fechado ao pobre, que ali jazia
esfomeado e coberto de chagas. Ignorando Lázaro e negando-lhe até mesmo as
sobras da sua mesa, o rico desprezou Deus, segundo as conhecidas palavras de
Jesus: “Sempre que deixastes de fazer isto a um destes pequeninos, foi a Mim
que o deixastes de fazer”.
Segundo
o Pontífice, podemos assim afirmar que “ignorar
o pobre é desprezar Deus”.
“Deus ajuda”
Nesta
parábola, continuou o Santo Padre, há um pormenor interessante: enquanto o nome do rico não é mencionado, o
nome do pobre, Lázaro, que em hebraico significa “Deus ajuda”, repete-se cinco
vezes.
Assim
Lázaro à porta é um apelo vivo feito ao rico para que se recorde de Deus, mas o
rico não acolhe esse apelo. Será
condenado não pelas suas riquezas, mas por não ter tido compaixão de Lázaro
socorrendo-o, disse o Papa.
O
erro dessa atitude é o que se verifica na segunda
parte da parábola, que apresenta
invertida a situação de ambos após a morte: o pobre Lázaro aparece feliz no
seio de Abraão, ao passo que o rico é atormentado.
Agora, o rico reconhece
Lázaro e pede-lhe ajuda, enquanto em vida fazia de conta que não o via. Antes, negava-lhe as
sobras da mesa; agora, pede para que lhe dê de beber. Mas como explica Abraão,
aquele portão de casa que na terra separava o rico do pobre, transformou-se num
“grande abismo”, que é intransponível, concluiu o Papa Francisco.
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PAPA FRANCISCO dirige sua palavra aos milhares de peregrinos de várias partes do mundo presentes na Audiência Geral |
Saudação em português
O
Santo Padre saudou também os peregrinos de língua portuguesa:
“Caros
peregrinos de língua portuguesa, sede bem-vindos! Com afeto saúdo a todos, em
particular às Irmãs Franciscanas
Hospitaleiras da Imaculada Conceição e aos grupos paroquiais de Porto
Nacional e da Póvoa de Varzim, desejando-vos que a peregrinação ao túmulo dos
Santos Apóstolos Pedro e Paulo fortaleça, nos vossos corações, o sentir e o
viver em Igreja, sob o terno olhar da Virgem Mãe. Aprendamos com Ela a ler os
sinais de Deus na história, para ser construtores duma humanidade nova. Deus
vos abençoe, a vós e aos vossos familiares.”
João Paulo II
Aos
peregrinos de língua polaca, Francisco recordou o aniversário de João Paulo II neste dia 18 de maio.
O
Papa Francisco a todos deu a sua bênção.
Leia,
abaixo, a íntegra desta Catequese de Papa Francisco:
AUDIÊNCIA GERAL
Catequese do Papa Francisco
Quarta-feira, 18 de maio de 2016
Praça São Pedro – Vaticano
Parábola do Rico e Lázaro (Lc 16,19-31)
Queridos
irmãos e irmãs, bom dia!
Eu gostaria de refletir com vocês hoje sobre
a parábola do homem rico e do pobre Lázaro. A vida dessas duas pessoas parece
se desenrolar em vias paralelas: as suas condições de vida são opostas e
totalmente sem comunicação. A porta da casa do rico está sempre fechada ao
pobre, que está lá fora tentando comer alguma sobra da mesa do rico. Esse veste
roupas de luxo, enquanto Lázaro estava coberto de feridas; o rico todos os dias
tem um banquete luxuoso, enquanto Lázaro está morrendo de fome. Somente os
cachorros cuidavam dele e vinham lamber-lhe as feridas. Esta cena lembra a
repreensão dura do Filho do Homem no juízo final: “Tive fome e não me destes de comer, tive sede e não me destes de beber,
eu estava […] nu e não me vestistes”
(Mt 25,42-43). Lázaro representa bem o
grito silencioso dos pobres de todos os tempos e a contradição de um mundo onde
imensa riqueza e recursos estão nas mãos de poucos.
Jesus diz que um dia aquele homem rico
morreu: os pobres e os ricos morrem, têm
o mesmo destino, como todos nós, não há exceções a esta regra. E então
aquele homem se volta a Abraão, pedindo-lhe com o título de “pai” (vv. 24.27). Ele
reivindica, então, ser seu filho, pertencente ao povo de Deus. Mas na vida não mostrou nenhuma
consideração por Deus, mas tornou-se o centro de tudo, trancado em seu próprio
mundo de luxo e desperdício. Excluindo Lázaro, não teve qualquer
consideração nem ao Senhor nem à sua lei. Ignorar
o pobre é ignorar Deus! Isto devemos aprender bem: ignorar o pobre é desprezar Deus. Há uma particularidade que deve
ser observada nessa parábola: o rico não
tem nome, apenas o adjetivo: “o rico”; enquanto o nome do pobre é repetido cinco vezes e “Lázaro” significa “Deus
ajuda”. Lázaro, encontrando-se na frente da porta, é um chamado vivo para
que o rico se lembre de Deus, mas o rico não acolhe esse chamado. Será condenado, portanto, não por sua
riqueza, mas por ser incapaz de sentir compaixão por Lázaro e socorrê-lo.
Na segunda parte da parábola, encontramos
Lázaro e o homem rico após a morte (vv. 22-31). No além, a situação se inverte:
Lázaro foi levado pelos anjos ao céu a Abraão, o rico se precipita em meio aos
tormentos. Em seguida, o rico “olhou para cima e viu ao longe Abraão, e Lázaro
ao seu lado.” Ele parece ver Lázaro pela
primeira vez, mas suas palavras o contradizem: “Pai Abraão, diz – tenha
misericórdia de mim e envia Lázaro para molhar a ponta do seu dedo e me
refrescar a língua, porque estou atormentado nesta chama”. Agora o rico reconhece Lázaro e pede ajuda,
enquanto em vida, fingia não vê-lo. Quantas
vezes as pessoas fingem não ver os pobres! Para eles, os pobres não existem.
Antes negou-lhe até mesmo as sobras de sua mesa e agora pede o que beber! Ainda
assim, ele acredita que possa reivindicar direitos devido sua precedente
condição social. Declarando impossível atender seu pedido, o próprio Abraão fornece a chave de toda a história: ele explica
que o bem e o mal foram distribuídos para compensar a injustiça terrena, e a porta que separava em vida o rico e o
pobre, é transformada em “um grande abismo.” Enquanto Lázaro estava em sua
casa, para o rico havia uma chance de salvação, abrir a porta, ajudar Lázaro,
mas agora que estão mortos, a situação se tornou irreparável. Deus não foi
nunca chamado diretamente em causa, mas a
parábola adverte claramente: a misericórdia de Deus para conosco é proporcional
à nossa misericórdia para com o próximo. Quando esta falta, quando não tem
lugar no nosso coração fechado, ela não pode entrar. Se eu não escancarar a porta do meu coração aos pobres, a porta está
fechada. Mesmo para Deus. E isso é terrível.
Neste ponto, o homem rico pensa nos seus
irmãos, que estão suscetíveis de ter o mesmo destino, e pede que Lázaro retorne
ao mundo para avisá-los. Mas Abraão responde: “Eles têm Moisés e os profetas, ouçam-nos.” Para converter a nós mesmos, não devemos esperar acontecimentos
milagrosos, mas abrir o coração à Palavra de Deus, que nos chama a amar Deus e
o próximo. A Palavra de Deus pode reviver um coração murcho e curá-lo de
sua cegueira. O rico conhecia a Palavra
de Deus, mas não deixou que ela entrasse em seu coração, não a escutou,
então foi incapaz de abrir os olhos e ter compaixão pelo pobre. Nenhum mensageiro e nenhuma mensagem poderão
substituir os pobres que encontramos pela estrada, porque neles encontramos o
próprio Jesus: “Tudo o que você fizer
ao menor destes meus irmãos, a mim o fizestes” (Mt 25: 40), diz Jesus.
Então na reversão das sortes que a parábola descreve está escondido o mistério
da nossa salvação, no qual Cristo une a pobreza à misericórdia. Queridos irmãos
e irmãs, ouvindo esse Evangelho, todos nós, junto aos pobres da terra, podemos
cantar com Maria: “Depôs poderosos de
seus tronos e exaltou os humildes; Ele encheu os famintos com coisas boas,
despediu os ricos de mãos vazias“ (Lc 1,52-53).
Traduzido do italiano por Thaysi Santos [e corrigido por Telmo
José Amaral de Figueiredo]. Acesse a versão original, clicando aqui.
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