Papa: “Um Estado deve ser laico. O dever do cristianismo é o serviço.”
Entrevista
com Papa Francisco
Guillaume
Goubert e Sébastien Maillard
Jornal “La
Croix” – Paris (França)
17-05-2016
Antes
de obter o consentimento do Papa Francisco para uma entrevista com o La Croix,
o nosso enviado especial permanente em Roma, Sébastien Maillard, teve que renovar várias vezes o seu pedido,
mas, de acordo com o próprio papa, soube fazer isso de maneira
"humilde".
Antes,
houve um acordo de princípio por parte do papa. Depois, em um domingo, um
e-mail do padre Federico Lombardi, diretor da Sala de Imprensa da Santa Sé,
marcou o encontro para a segunda-feira, 9 de maio, às 16h30. Uma lista de
perguntas tinha sido previamente transmitida ao papa, a seu pedido.
Naquele
dia, Sébastien Maillard e Guillaume Goubert, diretor de redação,
acompanhados pelo padre Lombardi, dirigiram-se à Casa Santa Marta, onde reside
o papa no Vaticano. Esperaram-no em uma sala no piso térreo. O papa chegou
sozinho, com alguns minutos de antecedência.
Depois
das fotos, a conversa ocorreu em italiano, mas, de vez em quando, o papa
introduzia alguma expressão francesa: "Ah, la laïcité française!",
exclamou, arrastando maliciosamente a penúltima sílaba.
A
conversa durou pouco mais de uma hora, em um clima descontraído. Concordou-se
que o texto tirado da entrevista seria relido pelo papa antes da publicação. O
papa, depois, foi embora, como tinha vindo, simples e sorridente, privadamente,
assim como aparece em público.
Eis
a entrevista.
"É preciso integrar os migrantes"
Nos
seus discursos sobre a Europa, o senhor fala das "raízes" do
continente, mas sem jamais defini-las como cristãs. Em vez disso, define a
identidade europeia como "dinâmica e multicultural". Na sua opinião,
a expressão "raízes cristãs" não é apropriada para a Europa?
Papa Francisco: É preciso falar de raízes
no plural, porque há muitas. Nesse sentido, quando ouço falar de raízes cristãs
da Europa, eu temo às vezes o tom, que pode ser triunfalista ou vingativo. E,
então, torna-se colonialismo. João Paulo II falava disso com um tom tranquilo. A Europa, sim, tem raízes cristãs. O
cristianismo tem o dever de "borrifá-las", mas em um espírito de
serviço, como no lava-pés. O dever do cristianismo, para a Europa, é o serviço. Erich Przywara, grande mestre
de Romano Guardini e de Hans Urs von Balthasar, nos ensina: a contribuição do cristianismo a uma
cultura é a de Cristo com o lava-pés, ou seja, o serviço e o dom da vida.
Não deve ser uma contribuição colonialista.
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PAPA FRANCISCO beija criança de origem africana, juntamente com sua família em Lesbos (Grécia) |
O
senhor fez um gesto forte, trazendo consigo refugiados de Lesbos [Grécia] para
Roma, no dia 16 de abril. Mas a Europa pode acolher tantos migrantes?
Papa Francisco: É uma pergunta justa e
responsável, porque não se pode escancarar as portas de forma irracional. Mas a pergunta de fundo a se fazer é por que há
tantos migrantes hoje em dia. Quando eu fui para Lampedusa [Itália], há
três anos, esse fenômeno já estava começando. O problema inicial são as guerras
no Oriente Médio e na África, e o subdesenvolvimento
do continente africano, que provoca a fome. Se há guerras, é porque existem
fabricantes de armas – que pode se justificar para a defesa – e, sobretudo,
traficantes de armas. Se há tanto desemprego, é por causa da falta de
investimentos que possam gerar empregos, dos quais a África tanto precisa.
Isso
levanta, de modo mais geral, a questão de um
sistema econômico mundial que caiu na idolatria do dinheiro. Mais de 80% das riquezas da humanidade
estão nas mãos de cerca de 16% da população. Um mercado completamente livre
não funciona. O mercado, em si mesmo, é uma coisa boa, mas deve haver, como
ponto de apoio, um terceiro, o Estado, para controlá-lo e equilibrá-lo. É o que
se chama de economia social de mercado.
Voltemos
aos migrantes. A pior acolhida é a de
"guetizá-los", enquanto, ao contrário, é preciso integrá-los. Em
Bruxelas, os terroristas eram belgas, filhos de migrantes, mas vinham de um
gueto. Em Londres, o novo prefeito [Sadiq Khan, filho de paquistaneses
muçulmanos] prestou juramento em uma catedral e, sem dúvida, será recebido pela
rainha. Isso demonstra para a Europa a
importância de reencontrar a sua capacidade de integrar. Eu penso em
Gregório Magno [papa de 590 a 604], que negociou com aqueles que eram chamados
de bárbaros, que, depois, se integraram. Essa integração é ainda mais
necessária hoje em dia, quando a Europa conhece um grave problema de baixa taxa
de natalidade, em razão de uma busca
egoísta de bem-estar. Instala-se um vácuo demográfico. Na França, no
entanto, graças à política familiar, essa tendência é atenuada.
O
medo de acolher os migrantes se alimenta, em parte, do medo do Islã. Na sua
opinião, o medo causado por essa religião na Europa é justificado?
Papa Francisco: Eu não acho que agora haja
um medo do Islã como tal, mas do Estado Islâmico e da sua guerra de conquista,
tirada em parte do Islã. A ideia de conquista é inerente à alma do Islã, é
verdade. Mas ela poderia ser interpretada com a mesma ideia de conquista, no
fim do Evangelho de Mateus, em que Jesus envia os seus discípulos a todas as
nações. Diante do atual terrorismo islamista, seria oportuno nos interrogarmos sobre a maneira pela qual foi
exportado um modelo de democracia, ocidental demais, para países em que havia um
poder forte, como no Iraque. Ou na Líbia,
que tem uma estrutura tribal. Como dizia um líbio há algum tempo: "Antigamente, nós tínhamos Gaddafi. Agora
temos 50!". No fundo, a
coexistência entre cristãos e muçulmanos é possível. Eu venho de um país
onde eles convivem em boa familiaridade. Lá, os muçulmanos veneram a Virgem
Maria e São Jorge. Em um país da África, me disseram, para o Jubileu da
Misericórdia, os muçulmanos fazem uma longa fila na catedral para passar pela
porta santa e rezar para a Virgem Maria. Na África Central, antes da guerra,
cristãos e muçulmanos viviam juntos e devem reaprender a fazer isso hoje. O
Líbano também demonstra que isso é possível.
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SADIQ KHAN é muçulmano, filho de um motorista de ônibus paquistanês, tornou-se prefeito de Londres e prestou juramento em um catedral da cidade |
“Um Estado deve ser laico”
O
peso que o Islã tem hoje na França, assim como o vínculo histórico do país com
o cristianismo, levantam problemas recorrentes sobre o lugar das religiões no
espaço público. Qual é, na sua opinião, uma boa laicidade?
Papa Francisco: Um Estado deve ser laico. Os Estados confessionais acabam mal.
Isso vai contra a história. Eu acho que uma
laicidade acompanhada por uma lei sólida que garanta a liberdade religiosa
oferece um quadro para se seguir em frente. Nós somos todos iguais, como
filhos de Deus ou com a nossa dignidade de pessoa. Mas cada um deve ter a
liberdade de exteriorizar sua própria fé. Se uma mulher muçulmana quer usar o
véu, ela deve poder fazer isso. Assim também se um católico quer portar uma
cruz. Deve-se poder professar a própria
fé, não ao lado, mas dentro da cultura. Uma pequena crítica que eu
dirigiria para a França a esse respeito é de exagerar a laicidade. Isso provém de uma maneira de considerar as religiões como uma subcultura
e não como uma cultura, para todos os efeitos. Eu temo que essa abordagem,
que se compreende como a herança do Iluminismo, ainda esteja presente. A França
deveria dar um passo a mais nesse assunto, para aceitar que a abertura à
transcendência é um direito de todos.
Em
um contexto laico, como os católicos deveriam se posicionar para defender as
suas posições sobre questões éticas, como a eutanásia ou o casamento entre
pessoas do mesmo sexo?
Papa Francisco: É no Parlamento que se deve
discutir, argumentar, explicar, raciocinar. Desse modo, uma sociedade cresce.
Assim que a lei for votada, o Estado
deve respeitar as consciências. Em toda estrutura jurídica, a objeção de consciência deve estar
presente, porque é um direito humano,
incluindo para um funcionário do governo, que é uma pessoa humana. O Estado também deve respeitar as críticas.
Essa é uma verdadeira laicidade. Não podemos deixar de levar em conta os argumentos
dos católicos, dizendo-lhes: "Você
fala como um padre". Não, eles se apoiam no pensamento cristão, que a
França desenvolveu de forma notável.
O
que a França representa para o senhor?
Papa Francisco: La fille aînée de l'Église... mais pas
la plus fidèle! [A filha mais velha da Igreja... mas não a mais fiel!] (risos). Nos anos 1950, também se dizia:
"França, país de missão". Nesse sentido, é uma periferia a ser evangelizada. Mas precisamos ser justos com a
França. A Igreja lá possui uma capacidade criativa. A França também é uma terra
de grandes santos, de grandes pensadores: Jean
Guitton, Maurice Blondel, Emmanuel Levinas – que não era católico
–, Jacques Maritain. Penso igualmente
na profundidade da sua literatura. Eu também aprecio como a cultura francesa
impregnou a espiritualidade jesuíta em relação à corrente espanhola, mais
ascética. A corrente francesa, que começou com Pedro Fabro, embora sempre
insistindo no discernimento do espírito, dá outro sabor. Com os grandes
espirituais franceses: Louis Lallemand,
Jean-Pierre de Caussade. E com os
grandes teólogos franceses, que tanto ajudaram a Companhia de Jesus: Henri de Lubac e Michel de Certeau. Eu gosto muito destes dois últimos: dois
jesuítas que são criativos. Em suma, é isso que me fascina da França. Por um lado, essa laicidade exagerada, a
herança da Revolução Francesa e, por outro, tantos grandes santos.
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HENRI-MARIE DE LUBAC (1896-1991) renomado teólogo jesuíta francês |
Qual
é o santo ou a santa que o senhor prefere?
Papa Francisco: Santa Teresa de Lisieux.
O
senhor prometeu ir para a França. Quando imagina que poderá fazer essa viagem?
Papa Francisco: Recentemente, eu recebi uma
carta de convite do presidente François Hollande. A Conferência Episcopal
também me convidou. Não sei quando vai acontecer essa viagem, porque o ano que
vem é eleitoral na França, e, em geral, a prática da Santa Sé é de não fazer
tal deslocamento nesse período. No ano passado, tínhamos começado a levantar
hipóteses em vista dessa viagem, incluindo uma passagem por Paris e pela sua
periferia, por Lourdes e por uma cidade aonde nenhum papa se dirigiu, Marselha,
por exemplo, que representa uma porta aberta para o mundo.
A
Igreja na França vive uma grave crise de vocações sacerdotais. Como fazer hoje
com tão poucos padres?
Papa Francisco: A Coreia oferece um exemplo
histórico. Esse país foi evangelizado por missionários vindos da China que, depois,
voltaram para a China. Mais tarde, durante
dois séculos, a Coreia foi evangelizada por leigos. É uma terra de santos e
de mártires que hoje tem uma Igreja forte. Para
evangelizar, não é preciso de padres necessariamente.
O
batismo dá a força para evangelizar. E o Espírito Santo, recebido no batismo,
impulsiona a sair, a levar a mensagem cristã, com coragem e paciência. É o Espírito Santo o protagonista daquilo
que a Igreja faz, o seu motor. Muitos cristãos ignoram isso. Ao contrário, um perigo para a Igreja é o clericalismo.
É um pecado que se comete a dois, como o tango!
Os
padres querem clericalizar os leigos, e os leigos pedem para ser
clericalizados, por facilidade. Em
Buenos Aires, eu conheci inúmeros bons párocos que, vendo um leigo capaz, logo
exclamavam: "Façamos dele um diácono!". Não, é preciso deixá-lo
como leigo. O clericalismo é particularmente importante na América Latina. Se a
devoção popular lá é forte, é justamente porque é a única iniciativa dos leigos
que não é clerical. E continua sendo mal compreendida pelo clero.
A
Igreja na França, particularmente em Lyon, está sendo atualmente atingida por
escândalos de pedofilia que remontam ao passado. O que se deve fazer nessa
situação?
Papa Francisco: É verdade que não é fácil julgar
determinados fatos depois de décadas, em outro contexto. A realidade nem sempre
é clara. Mas, para a Igreja, nesse
âmbito, não pode haver prescrição. Para aqueles abusos, um padre que tem
vocação de levar uma criança para Deus a destrói. Dissemina o mal, o
ressentimento, a dor. Como disse Bento
XVI, a tolerância deve ser zero. Com base nos elementos de que eu disponho,
eu acredito que, em Lyon, o cardeal
Barbarin tomou as medidas necessárias, tomou as coisas bem em mãos. É
corajoso, criativo, missionário. Agora, devemos esperar pelo prosseguimento do
processo perante a justiça civil.
Portanto,
o cardeal Barbarin não deve renunciar?
Papa Francisco: Não, seria um contrassenso,
uma imprudência. Depois da conclusão do
processo, isso será visto. Mas, agora, seria como se declarar culpado.
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PHILLIPE BARBARIN Cardeal-arcebispo de Lyon (França) foi acusado de não ter combatido a pedofilia de alguns padres de sua arquidiocese |
“Todos saímos diferentes do Sínodo”
No
dia 1º de abril, o senhor recebeu Dom Bernard Fellay, superior-geral da
Fraternidade Sacerdotal São Pio X. Está novamente prevista a reintegração dos
lefebvrianos na Igreja?
Papa Francisco: Em Buenos Aires, eu sempre
falei com eles. Eles me cumprimentavam, me pediam uma bênção de joelhos. Eles
amam a Igreja. Dom Fellay é um homem com quem se pode dialogar. Não é assim como
outros elementos um pouco estranhos, como Dom Williamson, ou outros que se
radicalizaram. Eu acho que, como já disse na Argentina, eles são católicos a caminho da plena comunhão. Durante um Ano da
Misericórdia, pareceu-me que eu devia autorizar os seus confessores a perdoar o
pecado do aborto. Eles me agradeceram por esse gesto. Antes, Bento XVI, que
eles respeitam muito, tinha liberado a missa segundo o rito tridentino.
Dialoga-se bem, faz-se um bom trabalho.
O
senhor estaria disposto a lhes conceder um status de prelazia pessoal?
Papa Francisco: Seria uma solução possível,
mas, em primeiro lugar, é preciso
estabelecer um acordo de fundo com eles. O Concílio Vaticano II tem o seu valor.
Prossegue-se lentamente, com paciência.
O
senhor convocou dois sínodos sobre a família. Esse longo processo, na sua
opinião, mudou a Igreja?
Papa Francisco: É um processo que começou
com o consistório [de fevereiro de 2014], introduzido pelo cardeal Kasper,
antes de um Sínodo extraordinário em outubro do mesmo ano, seguido por um ano
de reflexão e por um Sínodo ordinário. Acho
que todos saímos diferentes desse processo em relação a como entramos. Eu
também. Na exortação pós-sinodal [Amoris
laetitia, de abril de 2016], eu tentei respeitar ao máximo o Sínodo. Vocês
não vão encontrar detalhes canônicos sobre o que se pode ou se deve fazer ou
não fazer. É uma reflexão serena, pacífica, sobre a beleza do amor, sobre como
educar os filhos, como se preparar para o matrimônio... Ela valoriza as
responsabilidades que poderiam ser acompanhadas pelo Pontifício Conselho para
os Leigos, sob a forma de orientações de fundo.
Além
desse processo, devemos pensar na
verdadeira sinodalidade, ao menos naquilo que significa a sinodalidade
católica. Os bispos estão cum Petro, sub Petro [com o sucessor de Pedro e sob
o sucessor de Pedro]. Isso difere da sinodalidade ortodoxa e da sinodalidade
das Igrejas greco-católicas, em que o patriarca conta como um único voto. O
Concílio Vaticano II dá um ideal de comunhão sinodal e episcopal. Ainda é preciso fazê-lo crescer, mesmo
em nível paroquial, levando-se em conta do que está prescrito. Existem paróquias que não estão dotadas nem
de um conselho pastoral, nem um conselho para assuntos econômicos, enquanto
o Código de Direito Canônico exige isso expressamente. A sinodalidade também se
joga nesse nível.
Traduzido do francês por Moisés Sbardelotto. Acesse a versão original desta entrevista,
clicando aqui.
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