Perdemos um dos maiores e mais coerentes líderes operários do Brasil!
“Perdemos o companheiro de luta
Waldemar Rossi”
CSP – Conlutas
04-05-2015
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WALDEMAR ROSSI (1933-2016) Militante católico no meio operário e sindical - Pastoral Operária |
Perdemos
nesta quarta-feira, 4 de maio, Waldemar Rossi, aos 82 anos. Um militante
precioso para a luta dos trabalhadores brasileiros. Um bravo companheiro,
expressão de uma geração que enfrentou a ditadura e foi peça fundamental para a
redemocratização e reorganização da classe trabalhadora no Brasil.
Militante
operário, foi um dos fundadores da
histórica oposição metalúrgica de São Paulo e também participou da fundação
da CUT e da construção do PT, quando essas organizações ainda eram de luta.
Até o final foi integrante
ativo da Pastoral Operária. Um defensor da justiça e da igualdade social, com uma integridade
absoluta.
Para
nós, da CSP-Conlutas, prestar
homenagem a Waldemar ainda em vida, no Dia Internacional dos Trabalhadores, com
a presença de seus dois filhos, Sergio e Wagner, e de Paulo Pedrini, da
Pastoral Operária, foi recompensador pelos anos de atuação em parceria e
respeito entre as respectivas organizações e seus militantes.
A CSP-Conlutas se solidariza com toda a
família: sua esposa, Célia, e seus
cinco filhos – Wagner, Paulo, Sergio, Simone e Márcio. Também prestamos a nossa
solidariedade à Pastoral Operária.
Hoje
é um dia triste, mas temos certeza que a luta travada por este companheiro
continuará.
A
nossa homenagem e profundo respeito a Waldemar Rossi.
Leia
abaixo, uma entrevista concedida por ele em 2007, onde podemos conhecer melhor
o trabalho e atuação desse grande e coerente líder operário católico:
A trajetória de um típico militante operário
Entrevista
com Waldemar Rossi
Pastoral Operária da Arquidiocese de São
Paulo (SP)
IHU On-Line
Do trabalho de boia-fria,
passando pela construção civil até virar metalúrgico, Waldemar Rossi acompanhou
de perto a luta operária brasileira nas últimas quatro décadas. Militante
assumidamente cristão, foi da Juventude Operária
Católica (JOC) e posteriormente da
Pastoral Operária, da qual é o coordenador na Arquidiocese de São Paulo.
Militante da oposição sindical
metalúrgica em São Paulo, Waldemar Rossi em 1980 foi o escolhido para fazer
a saudação ao papa João Paulo II em nome dos trabalhadores brasileiros, no
estádio do Morumbi.
Um
ano antes, em 1979, como membro do
comando da greve, acompanhou o assassinato do seu amigo Santo Dias. Define a sua trajetória de vida como a de um
militante que assume com muita intensidade todas as empreitadas em que
participa. Na entrevista concedida ao IHU
On Line, Rossi comenta a sua vida de militante, as principais lutas em que
se envolveu.
A
sua mensagem nesse 1º de maio aos trabalhadores e trabalhadoras é uma
convocação para que todos arregacem as mangas e lutem sem tréguas.
Confira
a entrevista:
As origens humildes
IHU On-Line:
O Sr. é considerado um “militante operário”. Poderia nos falar um pouco da sua
origem operária e como entrou para o MOMSP, o Movimento de Oposição Sindical
dos Metalúrgicos de São Paulo?
Waldemar Rossi: De fato, comecei minha vida
de trabalho como “boia-fria”, aos 10 anos de idade, em minha terra natal, Sertãozinho - SP. Dos 13
aos 27 trabalhei como pedreiro, tendo vivido experiências como balconista e em
usina de açúcar. Foi em 1955 que conheci
a JOC (Juventude Operária Católica) e, através dela, me inseri na luta de classes, por ver no meu irmão operário, explorado,
a figura do próprio Jesus. Fui descobrindo o sentido das lutas operárias
como ato de solidariedade de classe. Em
1960, fui convidado a assumir a coordenação da JOC na Região Sul (SP-PR-SC).
Nesse estágio, fui descobrindo que a industrialização do Brasil se dava
alicerçada na metalurgia. Tendo refletido muito em equipe sobre a importância
de me engajar pra valer nessa luta, decidi procurar trabalho numa fábrica
metalúrgica, abdicando da minha profissão original, a construção civil.
Na
JOC, tínhamos feito um estudo sobre as origens
da estrutura sindical brasileira, herdada de Getúlio, inspirada no
sindicalismo fascista da Itália de Mussolini. Já estávamos decididos a lutar
contra ela e pela implantação de um sindicalismo a partir da sua organização
nas empresas. Foi fundamental para isso a experiência do João Batista Cândido (que me antecedeu na coordenação da JOC), e
seu trabalho de base na fábrica Cobrasma, de Osasco, de onde sai a primeira Comissão de Fábrica da história do
sindicalismo brasileiro, e isso à revelia da direção sindical da época.
Ao
entrar numa fábrica, em maio de 1963, meus passos deveriam ser aqueles que eu
havia aprendido e defendido na JOC. Foi o que fiz. Depois de uma rica
experiência, percebi que, embora tivesse feito um bom trabalho de base, ele
fora marcado por alguma precipitação, o que rendeu meu primeiro desemprego. Após o golpe de 1964, aprofundamos o
trabalho de base, de forma clandestina e, aos poucos, fomos achando uma brecha
nas ações da ditadura e começamos a participar mais das atividades do
sindicato, fazendo o enfrentamento com os interventores.
Em 1967, lançamos duas
chapas de Oposição: Osasco e São Paulo. A de Osasco foi vitoriosa, tendo como alavanca as Comissões de Fábricas lá existentes,
enquanto que em São Paulo fomos derrotados por absoluta falta de experiência e
de infraestrutura. Estavam lançadas as sementes do novo sindicalismo que
queríamos implantar. Foi assim que nasceu a Oposição Sindical Metalúrgica de
São Paulo, que, por sua vez, inspirou a formação de muitas outras pelo
Brasil afora, graças aos contatos que tínhamos. O MOMSP foi a evolução das
primeiras experiências.
Início dos trabalhos de mobilização operária
O
senhor poderia falar um pouco sobre a greve da Cobrasma em 1968? Muitos
consideram que a greve foi organizada de “fora para dentro” e a partir do
trabalho de base do chão-de-fábrica. Como era esse trabalho de base em plena
ditadura? O senhor conheceu o José Ibrahim, um dos líderes da greve, poderia
falar dele um pouco?
Waldemar Rossi: A greve de Osasco foi fruto
do trabalho de base que havia em Osasco, principalmente das Comissões de
Fábrica, mas caminhou no bojo do movimento francês daquele ano, de aliança operário-estudantil, com
ocupação de fábricas, "sequestro" de dirigentes das empresas e outras
formas de lutas. A de Osasco se deu na mesma época em que se deu a greve de
Contagem, ambas repetindo experiências francesas. Antes, em S. Paulo, houve o
1º de Maio na Sé, programado pelo MIA (Movimento Sindical Anti-Arrocho) e que
contava com a participação de dirigentes sindicais pelegos [são aqueles que não representam, de verdade,
a classe trabalhadora, mas os interesses patronais], de esquerda e das
oposições. Naquele dia, os pelegos levaram o governador biônico, Roberto de
Abreu Sodré, ao palanque. Foram todos escorraçados pela enorme massa humana ali
presente, com pedras e pedaços de pau. Em seguida essa massa derrubou e ateou
fogo no palanque. Os pelegos e as autoridades fugiram para o sindicato dos
Metalúrgicos do Joaquinzão e os de esquerda, oposições e a massa saiu em
passeata pelo centro da cidade.
Portanto,
no mês em que se deu a greve, as condições objetivas e subjetivas estavam
dadas. Essa greve foi organizada a
partir das fábricas, porém, com orientação política do sindicato, que era
dirigido por uma composição de partidos de esquerda, todos, à época, se dizendo
revolucionários. Creio que foi uma experiência muito alta para o momento
político do Brasil, onde a correlação de forças era desfavorável ao movimento
sindical. Foi essa precipitação, fruto de uma visão política revolucionária equivocada que levou à cassação de
toda a diretoria e ao fim daquelas comissões de fábrica.
Ibraim era o presidente do
Sindicato, mas não era o mentor intelectual daquele movimento. Era um rapaz
inteligente e corajoso, que sonhava com a revolução socialista. Não creio que fosse
mais que isso.
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WALDEMAR ROSSI E A OPOSIÇÃO SINDICAL METALÚRGICA |
A oposição ao Sindicato dos Metalúrgicos
No
MOMSP conviviam operários de origem cristã, marxistas-leninistas, trokistas.
Como era essa convivência?
Waldemar Rossi: É evidente que a convivência
com militantes de inspirações – ou matrizes ideológicas – tão diferentes não
era nada fácil. No início, as dificuldades eram maiores pelo fato de que cada
agrupamento – auto denominado partido – se acreditava como o mais capaz para
dirigir a revolução socialista, de maneira especial todos achavam que tinham a melhor proposta para derrotar a ditadura.
O tempo e as derrotas (talvez a mais importante dessas derrotas tenha sido a
cassação da diretoria de Osasco e o fim da Comissão de Fábrica) fizeram com que
os pés fossem fincados no chão. Foi a partir dos anos 1974/75 que o entendimento
começou a melhorar, pois todos viam que
precisávamos de um movimento dos trabalhadores muito forte e que o Sindicato
dos Metalúrgicos de S. Paulo era estratégico.
Muitos
dizem que se a oposição tivesse vencido as eleições para o Sindicato dos
Metalúrgicos de São Paulo em 1978, o rumo do movimento operário hoje seria
outro. O Sr. concorda? E por que a oposição rachou?
Waldemar Rossi: Na verdade, nós vencemos aquelas eleições. Elas foram de tal forma fraudadas que o
escrutinador Sr. Preus (amigo do Joaquinzão, como ele mesmo disse no dia) não teve dúvidas em declará-las nulas.
Seria formada uma junta para dirigir o sindicato e programar uma nova eleição
para daí a 60 dias. Mas o Ministro do Trabalho – Arnaldo Prieto – fez uma nova intervenção ao dar posse ao
Joaquinzão.
Sem
dúvidas, a conquista daquele sindicato seria estratégica para o movimento
sindical brasileiro, pois ele é considerado estratégico pelo capitalismo, não
apenas por ser o maior na área da produção. Mas porque em São Paulo se produz
de tudo, desde máquinas, passando por peças de reposição até autopeças e peças
de avião. Parar São Paulo seria parar o
Brasil. Isso explica porque os militares deram tanta atenção a esse sindicato,
mais do que a qualquer outro.
Os interesses partidários levaram ao racha da
oposição em São Paulo. Primeiro foi o antigo Partido Comunista Brasileiro
(PCB), que devido ao acordo feito com os
militares propiciou o retorno de muitos comunistas do exílio. Por esse
acordo, o PCB trabalharia para apoiar um
pacto social. Seria importante não fazer oposição aos pelegos e combater as
oposições de esquerda. Segundo, foram as
pretensões do Partido Comunista do Brasil (PC do B) em querer assumir aquele sindicato e transformá-lo numa correia de
transmissão partidária. Como a Oposição tinha uma prática democrática de
escolher seus candidatos a partir de convenções nas fábricas, nas regiões e na
cidade, eles não conseguiram impor a composição de uma chapa em que o PC do B
era absoluto. A convenção para as
eleições de 1981, com cerca de 500 operários(as) escolheu a chapa da Oposição,
enquanto que o PC do B formou sua própria.
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LULA DISCURSA PARA METALÚRGICOS EM 1979 - SÃO BERNARDO DO CAMPO (SP) |
Lula, líder autoritário e com pretensões de
hegemonia
O
MOMSP é contemporâneo ao Lula na presidência do Sindicato dos Metalúrgicos do
ABC? Como era a relação com ele? É fato que vocês não confiavam no Lula e até o
consideravam pelego?
Waldemar Rossi: Pelo que já foi narrado, dá
para saber que a Oposição Sindical
Metalúrgica de São Paulo nasceu muito antes do Lula se tornar sindicalista.
Ele começa, pelo que sei, no ano de 1970, como suplente, sem experiência e vai
galgando espaços progressivamente. Assumiu a presidência em 1977 ou 78, quando
o Paulo Vidal perdeu a base territorial.
Havia
uma certa compreensão de que o Lula,
assim como a maioria dos sindicalistas da época - chamados de combativos -,
vinha da própria estrutura sindical pelega e tinha a compreensão e praticava um
sindicalismo de resultados, da troca de muitos anéis pelos dedos. Não havia, entre esses sindicalistas, a
compreensão clara do antagonismo histórico entre capital e trabalho, coisa
que era explícita para a maioria dos sindicalistas do MOMSP.
Apesar
das divergências em muitos pontos, de início tínhamos um relacionamento de companheirismo. Tanto é que o MOMSP
foi convidado a participar do Congresso dos Metalúrgicos do ABC, onde defendeu
a tese das Comissões de Fábricas, conquistadas durante a greve de 1979, e
que foi aprovada pela categoria, embora tivesse a desaprovação de parte daquela
diretoria. Com o tempo, Lula foi
revelando seu lado autoritário, embora de muito bom papo, ao tentar impor
companheiros de sua tendência como encabeçadores das chapas do MOMSP,
esbarrando no mesmo obstáculo que envolveu o PCB e o PC do B.
O enraizamento do MOMSP nas
fábricas era maravilhoso. Nossas convenções reuniam 500 ou mais companheiros(as) de toda a
cidade, em plena ditadura militar. Nas
Eleições de 1987, saíram três chapas, novamente:
1ª) uma
da direção pelega,
2ª) outra
da Oposição, encabeçada pelo
companheiro Carlúcio Castanha e
3ª) a
terceira encabeçada pelo Lúcio Belentani
(da Ford – SP), com apoio financeiro e
logístico de Lula e dos Metalúrgicos do ABC.
Na
reunião ocorrida em São Bernardo, e que selou tal aliança, Lula disse ao Lúcio: “Vai lá,
enterra o MOMSP e o Joaquinzão no mesmo caixão”, fato testemunhado por
companheiro nosso presente por equívoco na reunião. Curiosamente, em 1991, o Lúcio Belentani participou como fundador da
Força Sindical, nascida para se contrapor à CUT [ligada ao PT e Lula].
Pode-se dizer que a luta pela hegemonia no movimento sindical renascente foi
uma das alavancas das indisposições existentes.
A sua relação com o PT
O
Sr. também resistiu em entrar no PT. Por que razão? Tratava-se de uma decisão
pessoal ou do grupo político do MOMSP?
Waldemar Rossi: Foi rigorosamente uma
decisão pessoal. Tanto é que muitos dos nossos militantes foram fundadores do
PT, inclusive o Anízio de Oliveira, que encabeçou a chapa de 1978. De minha
parte, como um dos coordenadores da
Pastoral Operária, não achava justo filiar-me a um partido, estimulando
outros a seguirem meu exemplo, sem o senso crítico necessário. Para militar num
partido, era necessário ter o discernimento político da época, o que muitos dos
militantes da Pastoral Operária filiados ao PT não tiveram. Essa foi a razão
principal. Outra, tão importante quanto esta, foi a constatação de que iria encontrar no PT toda a esquerda que já
encontrava no movimento sindical, tão cheia de conflitos e disputas de espaços.
Não gostaria de viver conflitos semelhantes num partido.
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PAPA JOÃO PAULO II ABRAÇA WALDEMAR ROSSI Estádio do Morumbi (São Paulo) - Encontro do Papa com os trabalhadores, ao lado está D. Paulo Arns Julho de 1980 |
O encontro com o Papa João Paulo II
Sobre
a sua militância cristã, poderia nos contar um pouco dos bastidores da sua
escolha para ler o documento dos operários para o Papa João Paulo II no estádio
do Morumbi e as suas lembranças desse acontecimento?
Waldemar Rossi: Algumas semanas antes da
chegada do papa João Paulo II à S. Paulo, o Cardeal D. Paulo Arns comunicou-me confidencialmente de que eu
deveria preparar-me para fazer a saudação ao papa em nome dos trabalhadores.
Segundo ele, era necessário sigilo absoluto, mas não me deu as razões desse
segredo. Falou que a escolha se dava por
conta de toda minha história de militante operário e de militante de pastoral.
Certamente pesou também para essa escolha, o
fato de eu pertencer à Comissão de Justiça e Paz, ter sido preso. Creio que
o assassinato do Santo (Dias da Silva) e o do Gringo também pesou.
A
principal lembrança se deve ao fato de, na véspera do encontro, o Dalmo de Abreu Dallari – presidente da
Comissão de Justiça e Paz – ter sido sequestrado pelas forças de segurança,
esfaqueado e atirado em terreno baldio. Descoberto
por vizinhos foi levado ao hospital e de lá seguiu em maca, todo enfaixado,
para o Campo de Marte, onde fez uma das leituras da missa celebrada pelo papa.
D. Paulo não queria que eu fosse para minha casa, naquela noite, determinação
por mim rejeitada. Fui dormir ao lado da minha esposa. Suas razões, além do sequestro
do Dalmo tinham como base a negação da
credencial do comandante do 2º Exército para minha entrada no gramado.
Entrei na marra (único nessa condição), com uma credencial de D. Paulo, não sem
antes ter feito um enfrentamento com o coronel encarregado da segurança no
local de entrada. A outra marca,
negativa, foi o pedido do Secretário do Vaticano para que minha saudação fosse
muito breve, por conta do atraso do papa na chegada ao Morumbi e pela noite
chuvosa que poderia afetar a saúde do papa, ainda no terceiro dia da visita (sic). Foi uma frustração porque era o momento político mais importante para a
classe trabalhadora brasileira.
O
Sr. conheceu o Santo Dias da Silva. Que lembranças tem dele, e que tipo de
personalidade ele tinha? Era um líder?
Waldemar Rossi: Santo Dias era um guerreiro,
inteligente, comprometido com a classe e com seus companheiros. Não tinha medo
e não fugia dos enfrentamentos necessários. Cristão convicto, sabia do seu engajamento e da dimensão evangélica do
seu compromisso. Era um líder nato, muito comunicativo, sem pretensões
pessoais, de grande desprendimento. Tinha grande facilidade para harmonizar seu
trabalho de fábrica, com as atividades da Oposição, da Pastoral, assim como
harmonizar sua vida familiar com a vida na comunidade e nos movimentos
populares da região de moradia. Um homem
justo, isto é, um santo verdadeiro.
PT se perdeu eticamente e ideologicamente,
CUT correia de transmissão do PT e de Lula
Sobre
a CUT e o PT. O que pensa dessas organizações? E também qual é a sua opinião
sobre a Conlutas?
Waldemar Rossi: Quanto ao PT – ao qual me filiei em fins de 1985 –, pedi minha desfiliação em junho de 2004
porque entendi que ele se tornara um partido do capital, não mais dos
trabalhadores. Esse momento da
desfiliação não se deu por conta da linha política do governo Lula. Ela foi o
resultado de seguidos e crescentes desvios éticos e ideológicos que a sua
direção e corrente majoritária vinham praticando. Pude perceber tudo isso
quando participei da Executiva Estadual e do Diretório Nacional, entre os anos
1993 a 1995. A linha do Governo Lula foi a gota d’água. Minha crença é de que a concepção e prática dos partidos de esquerda
estão falidos, não sendo capazes de organizar e praticar um projeto alternativo
para o país.
Quanto
à CUT, por ter se tornado uma correia de transmissão partidária – no mais
claro estilo stalinista e trotskista de
fazer política –, ao mesmo tempo em que é correia de transmissão do governo Lula, deu no que estamos vendo:
uma Central que se tornou defensora dos interesses do capital, que entorpece o conceito de classe, engana
os seus sindicalizados e a sua base social, camufla nossa história de lutas, faz acordos escabrosos com empresas e
patronato em detrimento dos interesses reais dos trabalhadores.
Quanto
à Conlutas
e à Intersindical,
creio que são esforços gigantescos de
muitos dirigentes sindicais e militantes que desacreditaram da CUT, que viram
um governo petista descambar para o neoliberalismo, que estão vendo esse
mesmo governo pôr em prática as
determinações do “Consenso de Washington”, promovendo Reformas na Constituição
que visam anular nossas históricas conquistas. Esses dois movimentos e outras
iniciativas que vêm sendo tomadas poderão ser o desaguadouro capaz de canalizar
as forças sociais que se movem para não serem tragadas pela enxurrada do
neoliberalismo.
A experiência e prática partidária da
esquerda está
equivocada e ultrapassada
O
Sr. filiou-se ao PSOL, o que pensa do partido? O PSOL fala em ser o que o PT
foi no início dos anos 80, isso é possível?
Waldemar Rossi: Não me filiei ao PSOL ou outro partido qualquer, nem pretendo me
filiar, pois considero a experiência e prática partidária da esquerda
equivocada e ultrapassada. Seus vícios políticos (originados nas várias matrizes ideológicas “marxistas”)
não permite que sejam capazes de gerar e levar adiante um projeto alternativo de sociedade, socialista, democrática de fato,
com ampla participação popular que deve controlar os “poderes”. Penso que,
historicamente, temos que criar novos
instrumentos de lutas, com parâmetros diferentes dos atuais.
Creio
que o PSOL, por mais que venha a avançar, não terá a menor condição de
responder a esse desafio estratégico. Quem sabe venha a ser um PT (o PT de sua
origem, não o atual) melhorado. Não mais que isso.
Alegrias e frustrações
Quais
foram as suas três maiores alegrias na sua trajetória de militante e as três
maiores decepções?
Waldemar Rossi: Teria muita dificuldade em
selecionar três grandes alegrias em toda minha vida de militante, tão intenso
tem sido meu engajamento. Talvez seja mais fácil dizer que – apesar de muitos
erros cometidos – sinto que tenho vivido
sempre muito tranquilo e seguro e com muita intensidade em todas as empreitadas
assumidas. Pode ser isso resultado de que, sempre que julgo necessário entrar numa luta, o faço se ela aponta para
um caminho em busca da solidariedade e da justiça, se essa luta ou tarefa seja
um campo de semeaduras.
Diria
que frustração senti:
1º)
quando D. Paulo Evaristo Arns
anunciou que eu iria reduzir minha saudação ao papa, porque o centro da mensagem trazia denúncias e
apelos muito fortes, condizentes com o momento histórico.
2º) Outra
frustração, sem dúvidas, foi o fato de
termos sido derrotados pela direita, pela repressão, pelo peleguismo e por
setores da “esquerda” no esforço hercúleo para derrotar os pelegos e ocupar a
direção do sindicato de maior peso político da América Latina, estratégico
na luta de classes.
3º) A
perseguição à Teologia da Libertação,
como um todo, sem os discernimentos
necessários entre possíveis excessos e suas enormes virtudes, redunda em favor
das vitórias que o capital vem tendo sobre a classe trabalhador e pode ser
elencada como uma das frustrações, não apenas minhas, mas de tantos e tantas
militantes cristãos(ãs).
"... tempos, de arregaçar as mangas e
de ir pra luta
sem tréguas contra o capital"
Qual
é a sua mensagem para os trabalhadores e trabalhadoras nesse 1º de maio?
Waldemar Rossi: Se é verdade que estamos no
auge da exploração capitalista, com a crescente miséria e marginalização, se é
bem verdade que, no Brasil, estamos com um governo que nos rouba direitos
conquistados com muita luta e muito sangue, também é verdade que o movimento
social começa a acordar, a dar passos significativos na busca da mínima unidade
política necessária para defender coletivamente seus direitos.
O 1º de maio deste ano de 2007
transforma-se num momento privilegiado para fortalecer essa unidade e para
recuperar o sentido histórico dessa luta. Nesse sentido, o que posso esperar de
todos(as) os(as) de boa vontade é que sejam capazes de perceber os sinais dos
tempos, de arregaçar as mangas e de ir pra luta sem tréguas contra o capital.
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