É o sistema, Temer, é o sistema!
Repartir para governar
José Roberto
de Toledo
A conta de Temer já está em 26 ministérios e não cabem
todos os candidatos
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MICHEL TEMER O vice-presidente está experimentando o quebra-cabeça que é montar uma equipe ministerial! |
Michel
Temer acha que, dividindo Brasília, vai unir o Brasil. Um ministério para um
partido aqui, outro para uma igreja acolá, e o futuro ex-vice calcula que
conseguirá somar os 308 votos que precisa na Câmara para aprovar reformas
constitucionais. Reformas para controlar os gastos públicos, se diz. Pois,
antes de poupar, Temer se pôs a gastar seu pouco capital político.
A ideia de reduzir os
ministérios ao número de prédios da Esplanada foi há muito esquecida. As 17 caixas de fósforos –
como são chamados os edifícios retangulares ao longo do Eixo Monumental de Brasília
– e os palácios da Justiça e do Itamaraty são obviamente insuficientes para
Temer acomodar todas as suas dívidas. Como não bastaram para quitar as de seus
antecessores.
A
conta já está em 26 futuros ministros e, ainda assim, não estão cabendo todos
os candidatos. A romaria diária ao
Palácio do Jaburu só cresce e, de tão concorrida, já desmembrou-se em uma fila
alternativa na porta de Eliseu Padilha, o futuro ministro ainda sem pasta,
mas com acesso ao ouvido de Temer.
Ora
é o PP que exige três ministérios para começar a brincar, ora é a bancada de
deputados do próprio PMDB que se diz injustiçada. O futuro ex-vice não pode, porém, negligenciar os senadores que, goste
ele ou não, terão a palavra final sobre o seu mandato durante o julgamento de
Dilma Rousseff. Por isso, precisam também ser privilegiados na divisão do
butim.
Não
bastassem os partidos exclusivamente fisiológicos, como o PR e o PSD, Temer
ainda tem que acomodar aliados de primeira hora. Ele precisa amarrar o PSDB
para não se ver abruptamente abandonado pelos tucanos quando estes perceberem
que a nau está vazando. Apesar dos discursos desinteressados e das cartas
programáticas, ele precisa de três
posições na Esplanada para contentar os três caciques do partido: Serra,
Alckmin e Aécio.
É
uma matemática complicada porque a soma das partes é maior do que o todo.
Partidos demais, centrais sindicais e federações empresariais de sobra, sem
contar 27 bancadas estaduais. Assim, já
se fala em “adiar” a redução do número de ministérios. Quem sabe cortar um
ou dois dos 32 não baste para pagar o pato?
Se
a questão se limitasse à quantidade de ministros e aos cargos com altos
salários que cada um deles multiplica já seria desgaste suficiente para um
presidente que chega ao Planalto com votos emprestados por algumas centenas de
parlamentares. Mas há o problema da QUALIDADE
dos ministros.
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MICHEL TEMER E ELISEU PADILHA Os dois mais envolvidos na escolha e definição dos novos ministros de um suposto governo Temer |
Os tidos como certos até
agora são políticos profissionais. Quem ainda não é, como Henrique Meirelles,
pretende sê-lo. Os demais estão ali
porque Temer lhes deve, não porque os admire. Assim, a contabilidade
ministerial vai ficando criativa. Inclui uma pedalada científica, colocando um
ministro criacionista [bispo da Igreja Universal do Reino de Deus!] para
batizar as verbas de fomento à pesquisa darwinista.
Todos os balões de ensaio
com nomes de especialistas para ministérios sociais, como Saúde e Educação,
murcharam em poucas horas. Uns nunca cogitaram ir, outros desistiram ao perceber que teriam que
ceder cargos aos partidos. Se algum vier
a aceitar – já ficou claro –, terá que ser flexível na formação da equipe.
Sem
contar os inúmeros ministros repetidos de governos passados e os ministeriáveis investigados pela Lava Jato.
Alguns podem se orgulhar de estar em ambas as categorias. Diante do inevitável,
Temer já modulou seu rigor ético. Disse que a investigação é só uma investigação
e que não deve impedir uma eventual nomeação. Nada como um choque de realpolitik
para transformar o discurso de campanha em discurso de governo.
E
qual partido que já ocupou a cadeira onde Temer tanto quer sentar pode
censurá-lo? O SISTEMA POLÍTICO-ELEITORAL
brasileiro assim exige e assim é. Por isso, o ministério Temer caminha para
ser nada surpreendente e duvidosamente bom.
Fonte: O Estado de S. Paulo –
Política –
Quinta-feira, 5 de maio de 2016 – Pág. A6 – Internet: clique aqui.
Temer revê planos de equipe de “notáveis”
Erich Decat,
Igor Gadelha, Julia Lindner
Dificuldade para atender partidos também prejudica
intenção
de cortar ministérios
As dificuldades encontradas
na montagem de um novo governo levou o vice Michel Temer (PMDB) a revisar a
intenção de contar com uma equipe de “notáveis” e reduzir o Ministério. Os dois itens foram
defendidos como prioritários pelo peemedebista antes do início das negociações
com os partidos que devem compor a nova
base aliada, após um eventual afastamento da presidente Dilma Rousseff.
Na
lista de nomes praticamente confirmados por Temer estão o senador Romero Jucá (PMDB-RR) e os ex-ministros
Geddel Vieira Lima e Henrique Eduardo Alves, todos citados na Operação Lava Jato.
Apesar disso, Temer disse publicamente que o fato de ser investigado não é
impeditivo para a indicação ao Ministério. [Como é ? ?
?]
Além
disso, o fator Lava Jato tem sido
uma barreira para a definição de um titular
para a Justiça, pasta sob a qual está subordinada a Polícia Federal. Há
ressalvas em escolher alguém ligado aos partidos com parlamentares
investigados. Fora isso, nomes sondados para o cargo, como do ex-ministro do
Supremo Tribunal Federal Carlos Ayres
Britto, têm recusado a ideia. “A
minha contribuição no serviço público já foi dada” [ele foi Ministro do
Supremo Tribunal Federal], disse Britto ao jornal O Estado de S. Paulo.
Na
lista inicial de notáveis também estava o cirurgião
paulista Raul Cutait, que ocuparia, na cota do PP, a pasta da Saúde. O nome dele foi barrado pela bancada do partido na
Câmara, que quer indicar um deputado ao cargo.
“Fatura
amiga”
À
medida que avançam as negociações, Temer
não está livre nem dos embaraços criados pela própria bancada do PMDB da Câmara.
Contrariados com a possibilidade de perderem os Ministérios da Saúde e da
Ciência e Tecnologia, deputados cobram
para serem compensados por pastas do mesmo porte.
“Não queremos abrir mão do espaço que nós
temos. Não podemos pelo fato de termos presidente ficar para trás”, afirmou
o deputado licenciado Edinho Bez (PMDB-SC), após participar ontem de reunião da
bancada com Geddel e o ex-ministro Eliseu Padilha, articuladores de Temer.
Na
saída do encontro, Geddel deu o tom sobre as dificuldades enfrentadas.
“Problemas sempre têm. Se não tivesse, estava desempregado”, afirmou.
Como
alternativa pela perda de espaço, representantes da bancada do PMDB da Câmara
querem que Temer adote o mesmo modelo de distribuição de cargos usado pelo
governo do PT, em que “aliados” indicam o titular da pasta e o partido do
presidente, os cargos do segundo e terceiro escalões. Por essa lógica,
criticada no passado pelos próprios peemedebistas, lideranças do partido estão de olho em superintendências estaduais da
Educação, do Transporte e da Agricultura, que devem ter ministros de DEM, PR e
PP, respectivamente.
Sem
redução
Diante dessa pressão, Temer
começou a indicar que não pretende fazer cortes radicais no número de
ministérios.
No passado recente, o PMDB chegou a pregar a existência de apenas 20 pastas, em
vez das atuais 32. Aos deputados da legenda, o vice disse ontem que deve aguardar o período de três meses na
Presidência para decidir sobre possíveis cortes. “Como eu vou assumir
provisoriamente, vou aproveitar para ver isso e depois as pessoas terem o
direito de me cobrar”, disse o vice, segundo o deputado Jarbas Vasconcelos
(PE).
Apesar
dos problemas, Temer fez avançar algumas negociações para acomodar os indicados
dos partidos. Além de ministérios, o PP
quer comandar a Caixa Econômica Federal e, para tanto, indicará o
ex-ministro Gilberto Occhi, que é funcionário de carreira do banco. Para a pasta de Direitos Humanos, como forma
de atrair o bloco de partidos nanicos da Câmara, Temer sondou a deputada Renata
Abreu (PTN-SP), vice-presidente nacional da sigla.
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MARCOS PEREIRA Presidente nacional do PRB e bispo da Igreja Universal do Reino de Deus deverá ser o novo Ministro da Ciência e Tecnologia. Pode?! |
ENTRAVES
DE TEMER PARA COMPOSIÇÃO DE NOVO MINISTÉRIO:
- Justiça: nomes sondados têm recusado assumir
o posto que tem, entre outras missões, acompanhar a Operação Lava Jato.
- Planejamento: o
senador Romero Jucá (PMDB-RR) é cotado para assumir, mas é investigado na Lava
Jato.
- Secretário-Geral: o
ex-ministro Geddel Vieira Lima (PMDB-BA) é cotado, mas é investigado na Lava
Jato.
- Turismo: o
ex-ministro Henrique Eduardo Alves (PMDB-RN) é cotado, mas é investigado na
Lava Jato.
- Cidades: PSDB
e PSD disputam o comando do ministério. PSD ameaça retirar apoio.
- Saúde: Temer
quer um “notável”, mas bancada do PP na Câmara quer indicar um deputado. O mais
cotado é Ricardo Barros (PR).
- Educação: Temer
que um “notável”, mas bancada do DEM na Câmara quer indicar um deputado. O mais
cotado é Mendonça Filho (PE).
- Integração Nacional: bancadas
da Câmara e Senado do PSB querem indicar um nome. Mais cotado é o deputado
Fernando Filho (PE). Governadores da legenda, capitaneados por Paulo Câmara
(PE) são contra a participação no governo.
- Ciência e Tecnologia: o
presidente da legenda, Marcos Pereira, bispo licenciado da Igreja Universal do
Reino de Deus, será o indicado pela bancada.
- PMDB da Câmara: quer
compensação com a perda da Saúde e Ciência e Tecnologia.
- Itamaraty e MDIC: Paulo
Skaf, presidente da Fiesp, é contra a migração do comércio exterior para o
Itamaraty (Ministério das Relações Exteriores).
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