Domingo de Pentecostes – Ano C – Homilia

Evangelho: João 20,19-23

19 Ao anoitecer daquele dia, o primeiro da semana, estando fechadas, por medo dos judeus, as portas do lugar onde os discípulos se encontravam, Jesus entrou e pondo-se no meio deles, disse: «A paz esteja convosco».
20 Depois destas palavras, mostrou-lhes as mãos e o lado. Então os discípulos se alegraram por verem o Senhor.
21 Novamente, Jesus disse: «A paz esteja convosco. Como o Pai me enviou, também eu vos envio».
22 E depois de ter dito isto, soprou sobre eles e disse: «Recebei o Espírito Santo.
23 A quem perdoardes os pecados, eles lhes serão perdoados; a quem os não perdoardes, eles lhes serão retidos». 
Pintura de "El Greco" - Museu do Prado (Madri)

JOSÉ ANTONIO PAGOLA

O ESSENCIAL

A Igreja está hoje preocupada com muitas coisas. As pessoas abandonam a prática religiosa. Deus parece interessar cada vez menos. As comunidades cristãs envelhecem. Tudo são problemas e dificuldades. Que futuro nos espera? O que será da fé na sociedade de amanhã?

As reações são diversas. Há quem vive sonhando com saudades daqueles tempos em que a religião parecia ter resposta segura para tudo. Muitos caíram no pessimismo: é inútil fazer remendos, o cristianismo se desmorona. Outros buscam soluções drásticas: deve-se recuperar as seguranças fundamentais, fortalecer a autoridade, defender a ortodoxia. Somente uma Igreja disciplinada e forte poderá enfrentar o futuro.

Porém, onde está a verdadeira força dos crentes? De onde a Igreja pode receber vigor e alento novo? Nas primeiras comunidades cristãs pode-se observar um fato essencial: os crentes vivem de uma experiência que eles chamam «o Espírito» e que não outra coisa que a comunicação interior do mesmo Deus. Ele é o «doador de vida». O princípio vital. Sem o Espírito, Deus se ausenta, Cristo permanece longe como um personagem do passado, o evangelho se converte em letra morta, a Igreja em pura organização. Sem o Espírito, a esperança é substituída pelo charlatanismo, a missão evangelizadora se reduz à propaganda, a liturgia se congela, a audácia da fé desaparece.

Sem o Espírito, as portas da Igreja se fecham, o horizonte do cristianismo diminui, a comunhão desmorona, o povo e a hierarquia [padres, bispos, religiosos e religiosas] se separam. Sem o Espírito, a catequese torna-se doutrinação, produz-se um divórcio entre teologia e espiritualidade, a vida cristã se degrada em «moral de escravos». Sem o Espírito, a liberdade se asfixia, surge a apatia ou o fanatismo, a vida se apaga.

O maior pecado da Igreja atual é a «mediocridade espiritual». Nosso maior problema pastoral é o esquecimento do Espírito. O fato de pretender-se substituir com a organização, o trabalho, a autoridade ou a estratégia o que somente pode nascer da força do Espírito. Não basta reconhecê-lo. É necessário reagir e abrir-nos à sua ação.

O essencial hoje é abrir espaço ao Espírito. Sem Pentecostes não há Igreja. Sem Espírito não há evangelização. Sem a irrupção de Deus em nossas vidas, não se cria nada de novo, nada de verdadeiro. Se não se deixa reavivar pelo Espírito Santo de Deus, a Igreja não poderá oferecer nada de essencial ao anseio do homem de nossos dias.

O ESPÍRITO DE JESUS

Entre os cristãos se fala de «espiritualidade» com acentos muito diferentes. Aos presbíteros [padres] se lhes solicita viver uma espiritualidade sacerdotal, aos casados uma espiritualidade matrimonial. Segundo as diferentes tradições, os religiosos esforçam-se por viver sua própria espiritualidade beneditina, franciscana ou carmelitana. Porém, quais são as características de uma espiritualidade primeira e básica de um seguidor de Jesus?

1ª) É, seguramente, perceber Jesus como alguém vivo e próximo. Sentir seu Espírito sustentando e animando nossa vida, perceber nessa experiência a proximidade absoluta de Deus e fazer dessa proximidade algo central em nossa maneira de viver a fé.

2ª) Perceber Jesus como libertador. Não é uma maneira de falar. É uma experiência essencial. Sentir a Jesus como alguém que nos liberta no mais profundo do coração. Alguém que nos dá força interior para mudar, e nos diz uma outra vez: «Tua fé te está salvando».

3ª) Perceber Jesus como alguém que nos faz bem. É um autêntico presente encontrar-se com Ele. Não é a mesma coisa percorrer a vida com Jesus ou sem Ele! Com Jesus, a vida é uma carga exigente, porém leve ao mesmo tempo. Esta é, talvez a experiência mais genuína do Espírito de Jesus em nós.

4ª) Perceber Jesus como alguém que nos ensina a viver em uma direção nova. É o fundamental. Aprender a organizar a própria vida, não ao redor e a favor de um mesmo, do próprio grupo ou da própria Igreja, mas em favor dos que sofrem distantes ou próximos de nós. O mais decisivo não é a própria santidade, mas uma vida mais digna para todos. Jesus a chamava «Reino de Deus».

Do Espírito de Jesus vão nascendo em nós algumas atitudes básicas:
* uma sensibilidade especial para com os que sofrem,
* uma busca prática de justiça nas grandes e pequenas coisas,
* uma vontade sincera de paz para todos,
* uma capacidade cada vez maior de fazer o bem gratuitamente,
* uma esperança última para todo o bem que hoje não nos é alcançável.

Acolher o Espírito Santo é viver com a alegria e o dinamismo interior de Jesus.

Traduzido do espanhol por Telmo José Amaral de Figueiredo.

Fonte: Sopelako San Pedro Apostol Parrokia – Sopelana – Bizkaia (Espanha) – J. A. Pagola – Ciclo C (Homilías) – Internet: clique aqui e aqui

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