Estados Unidos: o perigo político é real!
Candidatura republicana é um desastre
The Economist
No triunfo de Donald Trump estão presentes os
ingredientes de
uma tragédia para os republicanos, para os EUA e para o
restante do mundo
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DONALD TRUMP Mega-empresário norte-americano e candidato a Presidente de República pelo Partido Republicano |
Em seus 160 anos de história,
o Partido Republicano aboliu a escravidão, deu os votos necessários à aprovação
da Lei dos Direitos Civis e ajudou a pôr um fim na Guerra Fria. Os próximos seis meses não
serão tão gloriosos. Depois das primárias do Estado de Indiana, na terça-feira
[3 de maio], ficou claro que o candidato republicano nas eleições presidenciais
deste ano será o sujeito que disse que os Estados Unidos da América (EUA)
deveriam perseguir e matar parentes dos terroristas do Estado Islâmico, o homem
que não teve pejo de estimular uso da violência por sua militância, o indivíduo
que parece ter um fraco pelas teorias
conspiratórias mais delirantes e defende políticas protecionistas e economicamente analfabetas, as quais,
quando não carecem de um pé na realidade, tendem a redundar em prejuízo para os
próprios americanos.
Para o Partido Republicano
e, sobretudo, para os EUA, as consequências podem ser desastrosas. Mesmo que seu balão comece
a murchar a partir de agora, Trump já causou muito estrago e vai continuar a
dar dor de cabeça nos próximos meses. O
pior é que, numa disputa limitada a dois candidatos, suas chances de conquistar
a Casa Branca são bem maiores que zero.
Com
a indicação assegurada, é até possível que Trump resolva baixar o tom. Os
insultos talvez deixem de ser tão xucros, agora que ele precisa tentar atrair
pelo menos alguns dos eleitores, principalmente do sexo feminino, que
atualmente lhe devotam tanta ojeriza.
Quem
sabe o magnata comece a se comportar de forma mais digna, como convém a um
candidato presidencial – se bem que não foi exatamente isso o que se viu no
começo da semana, quando Trump acusou o pai de seu até então adversário Ted
Cruz de ter estado com Lee Harvey Oswald alguns meses antes de Oswald
assassinar John Kennedy. O que Trump
dificilmente fará é mudar o norte político de sua candidatura. É cada vez
mais evidente que o bilionário cultiva alguns rudimentos de visão de mundo, que
lhe são caros. Falta coerência e fundamento a essas crenças, que Trump amarra
com uma capacidade de se comunicar politicamente muito singular, típica do
século 21, em que sobressai, em igual medida, o regozijo com o confronto e o desprezo pelos fatos – um talento
provavelmente aperfeiçoado nos anos em que o milionário se dedicou à carreira
de apresentador de reality shows. Seja como for, são crenças firmes e vêm de longa data.
Além
da fanfarronice. Tal visão de mundo nasceu, em parte, nos canteiros de obras
dos edifícios que o pai de Trump construiu em Nova York nos anos 1960. O
magnata gosta de contar que passou muitas de suas férias de verão trabalhando
ao lado de carpinteiros, encanadores, serventes de pedreiro, homens carregando
pesadas estruturas metálicas para montar andaimes. Segundo ele, a experiência o
pôs em sintonia com as preocupações dos americanos que se esfalfam em serviços
brutos ou semiqualificados, trabalhadores de que os políticos do país já não se
lembram. Isso explica seu inveterado
nacionalismo econômico.
Há
décadas, Trump fala poucas e boas dos
acordos comerciais assinados pelos EUA. No início dos anos 1990, ele atacava o Nafta (Acordo de Livre
Comércio da América do Norte). Hoje, diz que o tratado assinado por EUA, Canadá
e México foi o pior acordo comercial da história do planeta. Da mesma forma, para Trump o déficit comercial americano
sempre foi prova de que os outros países não jogam limpo, ou então, de que
os diplomatas americanos não sabem negociar. Obviamente, alguém que pensa assim
só pode achar que a assinatura de novos tratados comerciais seria um desastre e
as empresas americanas deveriam trazer sua produção de volta ao país – do
contrário, teriam de submeter-se à punição das tarifas de importação.
Talvez
Trump até se dispusesse a negociar as penalidades a que as “entreguistas”
recalcitrantes estariam efetivamente sujeitas, mas o fato é que há aí uma
maneira enraizada de ver as coisas. O
bilionário é protecionista por convicção, não por oportunismo. E, a se
julgar pelos resultados das primárias republicanas, pelo menos 10 milhões de
eleitores concordam com ele.
Na política externa, Trump mistura a
insatisfação com os custos inerentes ao papel desempenhado pelos EUA no cenário
mundial, algo que se tornou comum depois das intervenções no Iraque e no
Afeganistão, com o desejo de fazer com
que o país seja temido e respeitado.
Analistas
estrangeiros que se horrorizam com a ignorância geográfica e diplomática do
magnata – que de fato não é pequena – talvez não se deem conta do princípio
muito simples que o anima: Trump quer
fazer com que os outros países arquem com todos os custos associados à proteção
hegemônica que os EUA lhes oferece. Dos aliados, o bilionário quer
contribuições mais polpudas, tanto para bancar as bases americanas instaladas
em seu território quanto para equipar e remunerar as tropas nelas estacionadas.
É
um equívoco chamar isso de isolacionismo, já que Trump também propõe algumas aventuras no exterior, incluindo a ocupação
do Iraque e a apropriação de suas reservas de petróleo. Trata-se antes de
uma visão romana de política externa,
em que ao restante do mundo cabe remeter
tributos à capital e agradecer pelas guarnições.
O tamanho do estrago
Para
os que, como The Economist, acreditam
nos ganhos da globalização e da ordem liberal liderada pelos EUA, essa é uma
visão de mundo aterradora. Por sorte,
Trump deve perder a eleição. Um candidato
malvisto por dois terços dos americanos dificilmente conseguirá conquistar 65
milhões de votos, que é o total aproximado que o candidato vitorioso terá
de somar. A proporção de mulheres que o
desaprovam é ainda mais elevada.
A
questão é que isso não serve de muito consolo: mesmo sem vencer em novembro, a nomeação de Trump como candidato terá
consequências nocivas. A convenção republicana, a ser realizada em
Cleveland, entre 18 e 21 de julho, pode ser palco de conflitos violentos entre
partidários de Trump e grupos de manifestantes que denunciam o que veem como
discurso de ódio do bilionário. Os eleitores passarão os próximos seis meses
ouvindo Trump acusar sua adversária democrata, Hillary Clinton, de vigarista e
mentirosa. Mesmo que Hillary vença a
eleição, muitos dos ataques colarão nela, enfurecendo os que se deixarem levar
por eles e enfraquecendo a democrata. Aliados dos EUA acompanharão as
pesquisas eleitorais com nervosismo: daqui
até 8 de novembro, seja no Conselho de Segurança da ONU, seja em negociações
bilaterais em Pequim, o fantasma de Trump assombrará todas as reuniões.
Sempre
fragmentado, o Partido Republicano corre
o risco de sofrer uma ruptura para valer. Mesmo perdendo a eleição, Trump
terá mostrado que, para quem almeja a indicação do partido, há um caminho que
passa pela xenofobia e pelo populismo econômico. Todo alpinista sabe
que o caminho mais seguro até o cume é aquele que já deu certo antes.
Alguns
republicanos dirão que, suavizada em seus aspectos mais insalubres, a mensagem
de Trump pode garantir a vitória da próxima vez. Outros sustentarão que o
milionário perdeu porque não é um conservador autêntico. Sem um consenso sobre o que deu errado, será difícil construir algo
novo.
E há ainda, obviamente, a
possibilidade de que Trump vença a eleição. Hillary não é detestada por tantos
americanos como o bilionário, mas seus índices de rejeição estão bem acima dos
que os candidatos costumam apresentar. Se
os atentados de Paris, em dezembro, impulsionaram a campanha de Trump, um novo
atentado, ou outro acontecimento que dissemine o medo entre os americanos, pode
muito bem fazer a balança dos votos pender para o seu lado. Embora remota,
a possibilidade existe. É por isso que no triunfo de Trump estão presentes os
ingredientes de uma tragédia para os republicanos, para os EUA e para o
restante do mundo.
Traduzido do inglês por Alexandre Hubner.
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