Solenidade da Ascensão do Senhor – Ano C – Homilia
Evangelho:
Lucas 24,46-53
Naquele tempo, disse Jesus a seus discípulos:
46 «Assim está escrito: O Cristo sofrerá
e ressuscitará dos mortos ao terceiro dia
47 e no seu nome, serão anunciados a
conversão e o perdão dos pecados a todas as nações, começando por Jerusalém.
48 Vós sereis testemunhas de tudo isso.
49 Eu enviarei sobre vós aquele que meu
Pai prometeu. Por isso, permanecei na cidade, até que sejais revestidos da
força do alto».
50 Então Jesus levou-os para fora, até
perto de Betânia. Ali ergueu as mãos e abençoou-os.
51 Enquanto os abençoava, afastou-se
deles e foi levado para o céu.
52 Eles o adoraram. Em seguida voltaram
para Jerusalém, com grande alegria.
53 E estavam sempre no Templo, bendizendo
a Deus.
JOSÉ ANTONIO
PAGOLA
CRESCIMENTO
E CRIATIVIDADE
Os
evangelhos nos oferecem diversas chaves para entender como as primeiras
comunidades cristãs começaram sua caminhada histórica sem a presença de Jesus à
frente de seus seguidores. Talvez, não foi tuto tão simples como às vezes
imaginamos. Como entenderam e viveram sua relação com ele, uma vez desaparecido
da terra?
Mateus não diz uma só palavra
sobre a sua ascensão ao céu. Termina seu evangelho com uma cena de despedida em
uma montanha da Galileia, na qual Jesus lhes faz essa solene promessa: «Eis que estou convosco todos os dias, até o
fim do mundo» (Mt 28,20). Os
discípulos não haverão de sentir sua ausência. Jesus estará sempre com eles.
Mas como?
Lucas oferece uma visão
diferente. Na cena final de seu evangelho, Jesus «afastou-se deles e foi levado para o céu» (24,51). Os discípulos
têm de aceitar com todo realismo a separação: Jesus já vive no mistério de
Deus. Porém, sobe ao Pai «bendizendo»
aos seus. Seus seguidores começam sua caminhada protegidos por aquela bênção com a qual Jesus curava os enfermos,
perdoava os pecadores e acariciava os pequenos.
O
evangelista João põe na boca de
Jesus palavras que propõem outra chave. Ao despedir-se dos seus, Jesus lhes
diz: «Eu vou ao Pai e vós estais tristes...
No entanto, convém-vos que eu vá, porque, se eu não for, o Espírito Santo não
virá para vós» (Jo 16,6-7). A tristeza dos discípulos é explicável. Desejam
a segurança que lhes dá ter Jesus sempre junto a eles. É a tentação de viver de maneira infantil sob a proteção do Mestre.
A
resposta de Jesus mostra uma sábia pedagogia. Sua ausência fará crescer a
maturidade de seus seguidores. Deixa-lhes
a marca de seu Espírito. Será ele quem, em sua ausência, promoverá o
crescimento responsável e adulto dos seus. É bom recordar disso em tempos
em que parece crescer em nós o medo e a criatividade, a tentação do imobilismo
ou a nostalgia por um cristianismo pensado para outros tempos e outra cultura.
Os
cristãos têm caído, mais de uma vez, ao longo da história, na tentação de viver
o seguimento de Jesus de maneira infantil. A festa da Ascensão do Senhor nos
recorda que, terminada a presença histórica de Jesus, vivemos «o tempo do Espírito», tempo de criatividade e de crescimento
responsável. O Espírito não proporciona aos discípulos de Jesus «receitas
eternas». Dá-nos luz e ânimo para ir buscando caminhos sempre novos para
reproduzir hoje sua atuação. Assim, nos conduz para a verdade completa de
Jesus.
UM
LUGAR EM DEUS
Que sentido pode ter a «Ascensão»
de Jesus ao céu numa época em que nenhuma pessoa lúcida imagina, ainda, Deus
como um ser que vive num lugar celeste, por cima das nuvens?
Porém,
sobretudo, o que pode significar para
nós um Salvador que desapareceu longe de nós, quando o que importa é a solução
dos problemas de nosso mundo cada vez mais graves e ameaçadores?
E,
contudo, neste tempo em que a progressiva exploração do mundo não parece
oferecer-nos toda a felicidade desejada e quando se perfila, inclusive, a
possibilidade de um final catastrófico da história e não sua consumação feliz,
necessitamos escutar mais do que nunca a mensagem que se encerra na Ascensão do
Senhor.
Crer na Ascensão de Jesus é
crer que a humanidade de Cristo, da qual todos participamos, entrou na vida
íntima de Deus de um modo novo e definitivo. Jesus ocultou-se em Deus, porém não para
ausentar-se de nós, mas para viver, a partir desse Deus, uma proximidade nova e
insuperável, e impulsionar a vida dos homens para seu destino último.
Isso
significa que o ser humano encontrou, em
Deus, um lugar para sempre. «O céu
não é um lugar que está acima das estrelas, é algo muito mais importante: é o
lugar que qualquer pessoa tem junto a Deus».
Jesus,
mesmo, é isso que nós chamamos céu, pois o
CÉU, na realidade, não é nenhum lugar, mas uma pessoa, a PESSOA DE JESUS CRISTO
na qual Deus e a humanidade se encontram inseparavelmente unidos para sempre.
Isso
quer dizer que nos dirigimos ao céu, entramos
no céu, à medida que orientamos nossa vida para Jesus e vamos adentrando-nos
nele. Deus tem para os homens um espaço de felicidade definitiva que Cristo
nos abriu para sempre. Uma pátria última de reconciliação e paz para a humanidade.
Isto
que será escutado por muitos com um sorriso cético é, para aquele que crê, a
realidade que sustenta o mundo e dá sentido à apaixonante história da
humanidade. Quando se desvanece esta
última esperança, o mundo não se enriquece, mas se esvazia de sentido e fica
privado de seu verdadeiro horizonte.
Nós
que cremos somos seres estranhos num mundo racionalizado, fechado somente em
suas próprias possibilidades, otimista algumas vezes e triste e desesperançado
outras, segundo os ciclos dos êxitos e fracassos da humanidade, que tanto
mudam!
Porém,
somos seres alegremente estranhos que
levamos em nós uma fé que nos oferece razões para viver e esperança para morrer.
Tradução do espanhol por Telmo José Amaral de Figueiredo.
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