Compreenda como se formou o ministério de Temer
Quibe com mortadela
José Roberto
de Toledo
O ministério de Michel Temer, ao privilegiar os
políticos do Congresso,
tornou-se o retrato perfeito do que é a atual classe política
brasileira
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ESTES SÃO OS MINISTROS ESCOLHIDOS POR MICHEL TEMER E INDICADOS PELOS PARTIDOS: para saber o nome e a função de cada um deles, clique aqui |
O
controle de admissão no Ministério de Michel Temer compete em rigor com o
departamento de “compliance” da Mossack
Fonseca. A firma tornada famosa pelos #PanamaPapers
submetia os nomes dos clientes que queriam comprar offshore a uma busca no
Google. O novo governo pede bênção de
avalistas como PP e PSD. Se o partido bancou, está aprovado. Com exceção de
Newton Cardoso Júnior (PMDB) para a Defesa: o único que conseguiu ser cliente
da Mossack, mas foi barrado por Temer – ou por alguém acima dele.
Se
não chegaram a frequentar o Panamá, muitos dos ministros do novo gabinete estão
nos “Paraná Papers”. Dos 23 novos e
seminovos (muitos foram reciclados de governos passados), 12 ministros receberam doações de empresas
investigadas pela Lava Jato – a operação comandada desde a capital
paranaense. Até aí, nenhum crime. Impossível
Temer montar um Ministério bancado 100% por partidos e com zero de financiados
por empreiteiras. A amostra é representativa do universo em que ela foi
colhida.
Daí
a ter um ministro que é alvo de um pedido de investigação pela Lava Jato, como Henrique Eduardo Alves, e outro que já
responde a inquérito, como Romero Jucá,
é quase uma imposição probabilística. O
problema de um governo sustentado pelos votos de 367 deputados e 55 senadores é
que ele não pode confrontar os interesses de seus eleitores. Mesmo quando,
nas palavras da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil), um ministro investigado
pela Lava Jato ameace a chance de o Brasil “trilhar melhores rumos”.
HENRIQUE EDUARDO ALVES E ROMERO JUCÁ: ambos ministros do PMDB e envolvidos na Operação Lava Jato! |
Como
explicou o seminovo Eliseu Padilha,
essa é também a razão de não haver mulheres no Ministério. Os partidos não indicaram ninguém do sexo feminino. Tampouco é
surpresa. Várias legendas não conseguem
completar a cota de mulheres nas suas chapas em eleições proporcionais
porque muitas das direções executivas dos partidos poderiam se reunir em
banheiros masculinos – e nenhum dos presentes reclamaria. A misoginia [aversão às
mulheres] está nos bigodes da
política partidária no Brasil. O Ministério é seu reflexo.
Se há super-representação de
homens brancos e ricos (média patrimonial de R$ 11 milhões declarados, com mediana de R$ 2,1
milhões – calculados a partir dos valores compilados pelo Congresso em Foco) no Ministério de Temer é porque essa é a
casta que comanda a maioria dos partidos políticos no Brasil. Um gabinete
semiparlamentarista como o que nasce vai espelhar essa distorção sempre que a
sociedade parar de bater panelas.
O
descontentamento com a baixa
representatividade do sistema político-partidário brasileiro ajudou a
desencadear os protestos de junho de 2013, uma das origens da crise política em
que o Brasil se afunda até hoje. Um dos
produtos dessa crise é a ascensão ao poder apenas daqueles que mais evidenciam
a falta de representatividade. Essa ironia não é mero acaso.
O sistema é endógeno e busca
a perenização, nem que para isso precise sacrificar os que desrespeitam sua lei
do silêncio –
como o ex-senador Delcídio Amaral descobriu. União em torno de um mesmo objetivo, a autopreservação, é chave para o
sucesso da nova ordem. Assim, no mesmo dia em que Temer chamava a “Lava
Jato” de referência, um de seus amigos, o ministro Gilmar Mendes, do Supremo,
arquivava a investigação contra Aécio Neves.
Não
deve parar por aí. Em entrevista a Erich Decat, no jornal O Estado de S. Paulo, o seminovo ministro da Secretaria de Governo
de Temer, Geddel Vieira Lima, deu a
extensão do acordo que se pretende: “Tenho muito apreço, carinho e respeito
pelo ex-presidente Lula. (…) Nenhuma dificuldade de diálogo com ele. Tenho certeza de que, passado esse momento
de emoção, o Lula (…) haverá de dar sua contribuição para o distensionamento”.
Isolada,
a frase parece trivial. Na atual
circunstância da Lava Jato, cheira a convite para uma pizza de quibe com
mortadela. [Onde possam salvar-se todos: PT, PMDB, PP e companhia bela!]
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