O mundo pop do golpe
Eliane Cantanhêde
Como a turma do vermelho é a minoria
da minoria, a estratégia petista é usar a transformação do Ministério da
Cultura em Secretaria como pretexto para mobilizar os aliados do ambiente
artístico
Diversos manifestantes ocuparam nesta segunda-feira (16 de maio) o Palácio da Cultura Gustavo Capanema, no Centro do Rio de Janeiro, em protesto contra o governo interino do presidente Michel Temer e principalmente contra o seu plano de extinguir o Ministério da Cultura, transformando-o em Secretaria. |
O “exército do Stédile” estava perdendo a guerra da
opinião pública e os que ainda insistem em falar em “golpe” trocaram os
carimbados MST, CUT, UNE e MTST por uma
tropa de elite: os artistas, que se misturam às mocinhas bonitas da classe
média alta de Rio e São Paulo que ilustram as manifestações da Avenida Paulista
e as capas dos jornais.
Como a turma
do vermelho é a minoria da minoria, a estratégia petista é usar a transformação
do Ministério da Cultura em Secretaria como pretexto para mobilizar os aliados
do ambiente artístico, que acham chiquérrimo ser “de esquerda” e, a partir disso, defendem
qualquer coisa. Os “movimentos sociais” dividem, mas o PT acha que esse “mundo pop” soma. É assim que artistas e
assemelhados invadem prédios da área de Cultura, para ganhar espaço nas TVs e atrair simpatias entre os que não
entenderam nada das pedaladas fiscais e caem na história do “golpe”.
Se ainda há
dúvidas sobre por que Dilma Rousseff foi afastada, basta olhar o rombo das
contas públicas: o governo dela admitia que era mais de R$ 90 bilhões e Henrique
Meirelles e equipe – aliás, excelente equipe – já trabalham com quase R$ 200 bilhões. R$ 200 bi! [Agora, pode-se entender porque falta dinheiro para a saúde,
educação, programa “Minha Casa, Minha Vida”, universidades federais, manutenção
das rodovias federais e muito mais!]
As pedaladas foram exatamente isso: Dilma gastou o que tinha e o que não tinha
e, mesmo depois de estourar o Orçamento, continuou contraindo mais dívida,
inclusive sem permissão do Congresso. Ou seja: ela “pedalou” para esconder o rombo, para continuar gastando mais e
mais em políticas populistas e para se reeleger. É ou não crime de
responsabilidade?
Aliás, há quem diga, principalmente nas Forças
Armadas e na diplomacia, que um outro
crime de responsabilidade de Dilma foi, e é, insistir na história do “golpe” no
exterior. Para parlamentares, isso
configura calúnia e difamações contra as instituições brasileiras: o Supremo, a
Câmara e o Senado. Sem falar nos ataques do PT ao Ministério Público, à Polícia
Federal e à mídia, pilares da democracia.
Se faltava cutucar os militares, não falta mais,
depois da Resolução do Diretório Nacional
sobre Conjuntura em que os petistas
lamentam não terem aproveitado os tempos de poder para modificar os currículos
das academias militares e promover oficiais “com compromisso democrático e
nacionalista”. Pôr em dúvida o compromisso democrático e até o nacionalismo
de generais, almirantes e brigadeiros é um insulto às Forças Armadas. [Para
saber mais sobre este assunto, clique aqui e aqui]
RUI FALCÃO Presidente do Partido dos Trabalhadores (PT) |
Apesar de as três Forças terem mantido silêncio e
distância da crise política, econômica e ética, o comandante do Exército,
general Eduardo Villas Boas, não resistiu. Ontem, ele me disse que, com coisas
assim, o PT está agindo como nas décadas
de 1960 e 1970, aproximando-se do “bolivarianismo” de Cuba e Venezuela e
“plantando o antipetismo no Exército”. Essa declaração de um comandante
militar, convenhamos, não é trivial. [Criticar falta
de “nacionalismo” nas Forças Armadas é uma incoerência quando tantos petistas
colocam Cuba como modelo de sociedade e de governo e não se cansam de apoiar
regimes ditatoriais como de Hugo Chávez e Maduro na Venezuela!!!]
No próprio plano
externo, a tese do golpe está ficando restrita aos próprios “bolivarianos”.
Os Estados Unidos já se manifestaram em sentido contrário na Organização dos
Estados Americanos (OEA) e a Argentina e o Paraguai, entre outros, abortaram
ameaças conjuntas contra o Brasil. Venezuela
e seus seguidores podem ficar falando sozinhos.
Nicolás Maduro diz que há um golpe no Brasil, mas
ele é que está na mira da Organização dos Estados Americanos [OEA]. O diretor-geral da organização, Luis
Almagro, o chamou de “ditadorzinho”. Maduro reagiu dizendo que ele é
“agente da Cia”. E, como Almagro foi chanceler do Uruguai, o ex-presidente Mujica tomou as dores: “Maduro está louco como uma cabra”.
Temos, pois, que Dilma anda mal de defensores. Os
artistas farão manifestações inconsequentes internamente e Maduro tem de se
preocupar mais com ele e com a OEA do que com o Brasil, enquanto Michel Temer
toureia um Congresso rebelde e Henrique
Meirelles tenta descobrir o tamanho do rombo e o fundo de um poço que parece
não ter fim.
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