O sabor do pão repartido

Marcelo Barros
Monge beneditino, escritor e teólogo brasileiro

«Precisamos reencontrar formas de celebrar mais simples e conviviais. A ceia de Jesus deve manifestar a dimensão carinhosa que o evangelho de João mostra que o Mestre revelou aos discípulos que ceavam com ele na noite da Páscoa.»
PAPA FRANCISCO
Na missa do lava-pés - sinal maior do sentido da Eucaristia: ação de graças e serviço ao amor!

Em todas as culturas os momentos fortes de alegria e união se celebram com uma refeição ou algum alimento repartido. Quase todas as tradições espirituais têm uma partilha de comida como sinal de comunhão. Para as Igrejas cristãs, a ceia de Jesus é o sinal de sua presença em nós e entre nós. Desde a Idade Média, anualmente, a Igreja Católica dedica uma festa à Eucaristia. Nesse ano, a festa do Corpo e Sangue de Cristo [Corpus Christi] se realiza nessa quinta-feira. Quando foi criada, a intenção era fortalecer nos fiéis a devoção à presença de Jesus na eucaristia. Atualmente, ela contém duas dimensões importantes para a fé:

– a importância do corpo. Ao adorar o corpo de Cristo, somos chamados a perceber que somos templos do Espirito e o nosso corpo merece cuidado e todo o respeito à sua dignidade sagrada.

– ao fazer do alimento um sinal de sua presença em nós e entre nós, Jesus quis dar ao mundo uma profecia do estilo de vida que devemos assumir: uma vida partilhada.

De fato, todas as Igrejas chamam esse evento de “comunhão”. Esse termo evoca uma “comum união”, mas pode também vir da expressão latina “comum múnus”. Comungar o múnus é assumir o peso da vida, durezas e sofrimentos que cada irmão e irmã carrega.

Conforme o testemunho do Novo Testamento, no primeiro século, as comunidades cristãs realizavam a ceia de Jesus nas casas uns dos outros, como expressão de uma vida partilhada. Ao repartir o pão, a comunidade fazia memória da doação que Jesus fez da sua vida e dava um sinal de que Deus quer que toda humanidade viva uma economia de partilha e de solidariedade. Durante os séculos, ao se inserir em cada cultura, as Igrejas fizeram da ceia de Jesus um culto mais formal. Pouco a pouco, a reunião que, no início, era mais simples e convivial, se tornou parecida com os cultos de outras religiões antigas. Os serviços de coordenação tomaram uma dimensão sacerdotal, como nos cultos das antigas religiões. A teologia passou a explicar a ceia como atualização do sacrifício da Cruz.
 
MARCELO BARROS
Monge beneditino - autor deste artigo
Atualmente, essa linguagem do sacrifício deveria ser revista para que ninguém pense que Deus Pai precisaria da morte do seu próprio filho para salvar o mundo e nos reconciliar consigo. Não podemos negar o valor da história e nem reduzir o sentido mais profundo do mistério que celebramos. No entanto, ao dar graças a Deus por sua presença em nós, em cada eucaristia, fazemos a memória de Jesus não apenas em repetir suas palavras, mas em tomar o mesmo caminho dele, caminho de amor, doação aos outros e serviço. Por isso, temos de encontrar formas mais expressivas para ligar de modo mais profundo a eucaristia que celebramos com a realidade que vivemos e com o caminho que a sociedade toma. Precisamos reencontrar formas de celebrar mais simples e conviviais. A ceia de Jesus deve manifestar a dimensão carinhosa que o evangelho de João mostra que o Mestre revelou aos discípulos que ceavam com ele na noite da Páscoa.

Todas as orações antigas da Igreja e até hoje a primeira Oração Eucarística do Missal Romano lembram que, na missa, os fiéis participam da ação de graças ficando de pé, em redor do altar.

Em 2004, o papa João Paulo II escrevia: “A eucaristia não é somente expressão de comunhão na vida da Igreja. É também projeto de solidariedade da comunidade cristã com toda a humanidade. Na celebração eucarística, a Igreja renova continuamente a sua consciência de ser “sinal e instrumento” não somente da íntima união com Deus, mas também da unidade de todo o gênero humano” (Carta apostólica Mane Nobiscum Domine, n. 17 - clique aqui para ler).

No século IV, ao falar aos cristãos batizados na noite da Páscoa, o bispo Santo Agostinho afirmava:

«O pão da eucaristia representa o que vocês são: o corpo de Cristo, ou seja, a sua presença transformadora para o mundo. Então, se vocês tiverem recebido bem o alimento que é o próprio Cristo que se doa a nós, vocês se tornarão isso que vocês receberam. Vocês são o que vocês receberam».

Fonte: Instituto Humanitas Unisinos – Notícias – Quarta-feira, 25 de maio de 2016 – Internet: clique aqui.

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