“Sobra-nos religião e nos falta humanidade”, afirma teólogo
Entrevista
com José María Castillo
Teólogo católico espanhol
Jesús Bastante
Na Igreja, houve mais dificuldade para aceitar a
humanidade de Jesus
que a sua divindade. Jesus vivia com as pessoas. Essa é
a cristologia que os apóstolos aprenderam.
![]() |
JOSÉ MARÍA CASTILLO renomado teólogo católico espanhol apresentando seu último livro: "A Humanidade de Jesus" |
Ele
é um dos melhores teólogos espanhóis. Tanto, que o próprio Papa Francisco está
tomando “emprestados” alguns de seus conceitos, ligados à Teologia Popular. Entusiasmado defensor da liberdade, José María Castillo apresenta seu
último livro, “La Humanidad de Jesús” (Editorial Trotta, 2016), onde defende
uma fé frente aos que, hoje como ontem, preferem o artificioso e o ritual. “Sobra-nos religião e nos falta humanidade”.
Eis
a entrevista.
O
que quer dizer com esta frase?
J. M. Castillo: Na Teologia, quando se
estuda a figura de Jesus, resulta que, historicamente, na Igreja, houve mais
dificuldade para aceitar a humanidade de Jesus que a divindade de Jesus. O que
quer dizer que se entendemos por divino tudo aquilo que se encarna no sagrado, na Igreja, o sagrado manda mais que o
profano. Que, traduzido ao problema que apresento aqui, quer dizer que o sagrado manda mais que o humano e se
sobrepõe ao humano.
Deparamo-nos
com a dificuldade que estamos experimentando com tanta frequência e em assuntos
enormemente importantes. Por exemplo, como
em nome de um suposto direito divino se limitam ou simplesmente se eliminam os
direitos humanos.
Em
nome do divino ou sagrado, limita-se a liberdade de pensar, falar, escrever...
Coisas tão elementares como é amar. E aproveito para recordar um artigo de Karl Rahner [teólogo católico alemão: 1904-1984]
que me impressionou muito, no qual se perguntou por que para amar mais a Deus,
precisamos amar menos a um ser humano. Ou precisamos renunciar ao amor humano.
Isso
é muito estranho. Porque uma das coisas que mais cativa no Cristianismo é,
justamente, que Deus se faz homem para assumir todo o pecado da humanidade e
oferecer uma nova porta de salvação. E, no entanto, a figura de Jesus que
deveria ser a do mais humano dos homens, passou a uma excessiva divinização,
conforme apresenta no livro. Como se não fosse importante que Deus tenha se
feito homem, que é o germe do Cristianismo. Sem este fato é impossível que a salvação
aconteça.
J. M. Castillo: É a chave. Não podemos
esquecer que nós não somos de condição divina. Mas, ao contrário, somos seres
humanos. E a partir do humano temos que
compreender o transcendente. O divino. E não nos é possível, porque Deus
não está ao nosso alcance. Se estivesse, seria um ser todo-poderoso, mas não
Deus. Nem sequer o conceito de infinito, porque isto significa o humano, mas
sem limites. E Deus não é nem isso, é
uma realidade que está em um âmbito ao qual não temos acesso. É
incomunicável nesse sentido.
O
Cristianismo, que solução deu a esse problema? Simplesmente, o “Mistério da
Encarnação”, onde o transcendente se fez
visível, tangível e próximo, humanizando-se. E se humanizou em Jesus que,
sem deixar de ser divino, fez-se plenamente humano. De tal maneira que na medida em que conhecemos a humanidade de
Jesus, é o único caminho que temos para conhecer quem é Deus, como é e o
que quer.
![]() |
LIVRO SOBRE O QUAL GIRA ESTA ENTREVISTA AINDA SEM PREVISÃO DE LANÇAMENTO NO BRASIL |
No
entanto, durante séculos, foi se sepultando essa figura humana em uma série de
normas, ritos, judicaturas, mistérios, dogmas de fé, etc., que tornaram a
figura de Jesus em algo distinto. Até o ponto em que a Igreja de hoje não se
parece ao que Jesus queria, ou se parece ao que os outros foram promovendo.
Você se centra muito na figura de Paulo.
J. M. Castillo: Aqui há várias coisas.
Primeira:
Jesus foi plenamente humano e o fato é
que os evangelhos, da forma como chegaram a nós, assim o apresentam. A
primeira coisa que teve que enfrentar foi o religioso e o sagrado, da forma
como naquele tempo eram compreendidos. E, por isso, Jesus enfrentou o templo,
os sacerdotes e os rituais, as normas religiosas. E o enfrentamento foi tão
duro, que chegou um momento em que a instituição religiosa se deu conta de que,
ou acabavam com ele ou ele acabava com eles. O final do capítulo 11 do
Evangelho de São João, após a ressurreição de Lázaro, é chave. O Sinédrio se
reuniu, com urgência, e eles planejaram: ou ele, ou nós.
É
interessante isso que você diz, porque Lázaro é uma figura muito relevante e
muito esquecida.
J. M. Castillo: Além disso, cada dia vai
ganhando espaço relacionar o Lázaro de João, irmão de Marta e Maria, com o
Lázaro citado por Lucas na parábola, com o avarento, o glutão. Aquele morreu e
foi ao paraíso, e este ricaço morreu sem se importar com as pessoas que morriam
de fome diante dele. Exatamente o que se está conhecendo e sendo visto, agora
mesmo, na Espanha. Ricaços que se enchem de dinheiro e como já não cabe nos
bancos da Espanha, guardam-no nos paraísos fiscais do mundo.
Logo
aparecerá algum bispo nos famosos documentos do Panamá.
J. M. Castillo: Eu temo que possa ocorrer.
Vamos
parar por aqui.
J. M. Castillo: Enquanto isso, vemos
famílias sem trabalho, crianças sem escola, enfermos sem remédio, nem cura...,
o desastre. Isto é o Lázaro do Evangelho de Lucas. O rico também morre, assim
como todos aqueles que têm os paraísos fiscais a seus pés irão morrer. O
avarento, aquele que se vestia de púrpura e ouro, com banquetes todos os dias,
que pediu do Hades que Lázaro voltasse de entre os mortos para avisar seus
irmãos, que deviam ser tão sem-vergonhas como ele. Porém, Abraão lhe disse:
“Contam com Moisés e os Profetas; que ouçam a eles!”. E isso é o que toma o
Evangelho de João e vincula com a ressurreição de Lázaro. Aí está o morto que
ressuscita. O que os sumos sacerdotes
decidiram?: matar Lázaro novamente. Diz o Evangelho de João e, é claro, a
Jesus. Reúnem-se com urgência e se dão
conta de que o projeto de Jesus era um conflito impossível de conciliar. E
nós apanhamos para o tornar conciliável, o que nem os sacerdotes do templo de
Jerusalém, nem Jesus, fizeram. Nós o
conciliamos e assim temos esta Igreja. O que aconteceu? Entre a morte de Jesus e os Evangelhos
surge, no Novo Testamento, a figura de Paulo.
Mas,
se Jesus vem para modificar esse sistema, esse sistema lhe mata e, ao final,
com o passar do tempo, conciliando, é esse sistema que está vencendo na Instituição,
não estamos traindo a Nova Aliança que Jesus veio trazer entre Deus e os
homens?
J. M. Castillo: Estamos traindo-a e daí o
conflito, a tensão e os problemas que o Papa Francisco está sofrendo. Porque o Papa é um homem que por formação, sua
educação jesuíta, precisou ser muito mais conservadora. Contudo, sua humanidade é tão profunda, tão sensível
a tudo o que é a dor humana, a injustiça contra os fracos, as crianças, os
enfermos..., que não pode se calar, nem suporta estar acima dos demais, nem
quer ter privilégios. Há teólogos que se perguntam por que não toma decisões
mais determinantes. Eu colocaria esses teólogos ali, para que tomem as
decisões.
Além
disso, eu tenho a opinião de que se este Papa ou outro desejasse mudar as
coisas por meio de um golpe na mesa, estaria dando razão aos que pensam que a
Igreja não tem caminho sinodal, dialogado. Penso que o Papa esteja tentando
dividir o jugo para que todos nos sintamos responsáveis. E as mudanças que
estão ocorrendo são porque o povo estimula. O conceito do pontificado de
Francisco e o de Teologia de José María Castillo são muito parecidos.
J. M. Castillo: Bom, é que a cada dia eu
vejo com maior clareza, a coisa tem que ir por aí. Porque não se trata de mudar cargos, nem de tomar decisões nisto e
naquilo. O importante é mudar a maneira
de fazer Teologia. A maneira de governar. A maneira de viver perto das
pessoas. Saber o que o povo demanda.
Ontem,
conversando com Reyes Mate [foto abaixo], grande
pensador, especialmente este assunto, ele dizia uma grande verdade: as duas
grandes cabeças pensantes que houve no cristianismo, no século passado, foram,
primeiro, Dietrich Bonhoeffer [teólogo luterano alemão: 1906-1945], que
foi morto pelo nazismo, no final da Segunda Guerra Mundial. E o outro Johann
Baptist Metz [teólogo católico alemão, 87 anos], que disse uma coisa
impressionante: a cristologia, ou seja,
o saber sobre Jesus e o poder falar sobre ele, é constitutiva ao seguimento de
Jesus. Os apóstolos não aprenderam cristologia lendo livros sobre o
assunto, nem escutando conferências, nem Jesus se dedicou a dar conferências de
Teologia. Dedicou-se a viver de uma maneira. E lhe seguir era viver dessa
maneira, o quanto era possível. Jesus
vivia com as pessoas. Estava perto dos doentes e crianças. Dos pobres e
excluídos. E essa é a cristologia que aprenderam.
A
novidade deste livro é explicar que entre Jesus e sua morte, e seu nascimento e
os Evangelhos, que são posteriores ao ano 70, estão as cartas de Paulo. Que nem
conheceu ao Jesus terreno da história, nem deu mostras de se interessar muito
em conhecê-lo.
E
teve seus conflitos com Pedro e com outros.
J. M. Castillo: E, sobretudo, que sem conhecer Jesus nem os evangelhos,
pôs-se a organizar as primeiras igrejas. As primeiras comunidades eram
igrejas domésticas. Como tinha a formação de um bom judeu e sua experiência de Jesus era a do
ressuscitado, isso foi o que transmitiu.
Mais
espiritual.
J. M. Castillo: Mais espiritual e mais
religioso. Mais ritualista e normativo.
É verdade que Paulo explicou que todos somos iguais para a salvação, que não é
a lei o que nos salva. Porém, tudo olhando para o transcendente. No imanente, o que fez foi organizar
igrejas domésticas. E se eram domésticas, deviam ser em casas. E se se reuniam
em casas, tinham que ser de pessoas com dinheiro. Então, o que ocorria era
que os líderes das igrejas eram pessoas
com dinheiro.
Para
fazer justiça a Paulo, sem aproximar-se destes ricos convertidos, a Igreja não
teria conseguido fazer todo o processo de evangelização e toda a criação de uma
cultura e de uma sociedade nova ao longo de todo este tempo.
J. M. Castillo: Efetivamente. Estou
completamente de acordo e me alegro por ter levantado o assunto. Porque Paulo,
como bem notou Hans Küng, fez duas
grandiosíssimas e geniais contribuições. Primeira:
estendeu o cristianismo por todo o império. Portanto, converteu o pequeno
movimento de Jesus em um movimento universal, naquele que então era o mundo
conhecido. E, em segundo lugar,
socializou aquele movimento nos costumes da sociedade. Porém, isso teve um preço e isso eu explico no
livro.
Há quatro problemas nos
quais Paulo se enroscou. Lendo Paulo, saltam à vista quatro questões que se relacionam muito
diretamente com a moral, que hoje nos preocupa e nos interessa.
Primeiro, o tema do sexo. Por que o sexo
masculino precisa ser mais dominante, com mais direitos e poder que o feminino
(?). Em definitivo, a desigualdade. A gente não leva em conta isto. Não é a
mesma coisa falar de desigualdade e de diferença. Porque a diferença é um fato,
mas a igualdade é um direito.
Segundo: o modelo de família. O modelo patriarcal.
Para mim, o mais genial que o Papa atual escreveu é afirmar que o amor conjugal é um amor de amizade. E
o argumenta e o repete. Dizer isto é revolucionar a família.
Ou
compreendê-la.
J. M. Castillo: Claro. A terceira
questão é a da escravidão. A
escravidão é a chave da economia. Compreendo que isto é uma leitura marxista. E
que nisto Marx acertou a mira. E isto explica por que os ricos puderam acumular
a riqueza que possuem: à custa de milhões de escravos que trabalharam para
eles. E continua acontecendo hoje. Porém, o que ocorre, é que hoje acontece sem
o estigma da escravidão. À primeira
vista, todos somos iguais em dignidade e direitos, quando na realidade não
somos. Além disso, ocorre outra coisa, antigamente aquele que comprava um
escravo tinha que lhe dar de comer todos os dias. Hoje, aquele que tem escravos
que trabalham para ele lhes dá o que considera. E tudo certo. Os outros que se
virem e eu tenho uma conta no Panamá.
E a
quarta.
É a submissão à autoridade constituída.
Não esqueçamos que quando Paulo escreveu isto era o tempo de Nero. Que não era exatamente um modelo exemplar de
governante. No início do capítulo 13 da Carta
aos Romanos, Paulo disse que a
autoridade é estabelecida por Deus. E, portanto, o que a autoridade manda é
vontade de Deus. E é preciso se submeter
a Deus, submetendo-se à autoridade. Isso, se eu prego hoje em qualquer
esquina da Venezuela, ou da Rússia, ou da França, correm comigo, com toda a
razão.
Jesus
não se meteu nestas confusões, mas simplesmente viveu.
J. M. Castillo: Na realidade, disse que a
César o que é de César e a Deus o que é de Deus. Está dizendo que sejamos cidadãos, e bons crentes. Colocar a cada
um em seu lugar.
Que
imagem de Jesus você possui hoje, após tantos anos estudando-o e vivendo-o?
J. M. Castillo: Primeiro irei dizer como não
o imagino. Não o imagino como um padre.
Não seria bispo, é claro. Não teria
nenhum cargo. Seria um PROFETA
ITINERANTE que defende com uma vida irrepreensível, e que poderia ir dizendo: “se não acreditam no que digo, ao menos olhem
o que faço”. Que é o que Jesus não parava de dizer. Ou, com outra
imagem: a árvore se conhece pelos frutos que produz. Seria um profeta itinerante, próximo a tudo o que é sofrimento, dor,
miséria humana. Não porque tivesse feito um voto de pobreza. Porque o voto
de pobreza que os religiosos fazem hoje é uma das maiores fontes de segurança
que existe. Segurança econômica.
Não
o compreendo.
J. M. Castillo: Aquele que pertence a uma comunidade religiosa [congregações, ordens ou institutos religiosos], possui a vida
assegurada. Nunca lhe faltará nada. Isto é avaliado por quem a teve e, de
repente, um dia, depara-se na rua. É o meu caso. A incerteza lhe apresenta
muitas perguntas que aqueles que possuem voto de pobreza não se fazem.
Jesus
estaria ocupado e preocupado com os pobres, mas não a partir de um voto de
pobreza.
J. M. Castillo: Claro, seria uma pessoa que
compartilha a habilidade com estas pessoas, a condição, a sorte. E seria um homem enormemente livre para
falar, para atuar. Não andaria se
misturando com partidos políticos, mas andaria se preocupando com as
necessidades das pessoas.
Precisamos
encerrar. Esse Jesus se pareceria um pouquinho com você.
J. M. Castillo: Não, absolutamente. Se
desejar, outro dia dedicamos um tempo para esse assunto. Não me importaria. Eu
não tenho nada a esconder. Além disso, se chegar o dia de dizer coisas, irei
dizê-las.
Não,
ele seria parecido com muitas pessoas
boas e desconhecidas. Jesus, quando se pôs a reunir um grupo e disse que
era de Nazaré..., eu sou do Puebla de Don
Fadrique, um povoado perdido no último rincão da província de Granada [com
uma área de 523,38 km² e uma população de 2.554 habitantes]. Sou um
pobre que tento, busco, quero, mas chego aonde chego. Que não é muito longe.
Chega
muito e chega bem. Um prazer, José María. Sempre é um prazer quando vem nos
apresentar livros como este. “La
humanidad de Jesús”, editado por Trotta.
J. M. Castillo: Obrigado a vocês e avante
com Religión Digital, que é um
elemento muito importante em todo o mundo de língua espanhola, sobretudo.
Traduzido
do espanhol pelo Cepat (com correções feitas por Telmo José Amaral de Figueiredo). Acesse a
versão original desta entrevista, clicando aqui.
Comentários
Postar um comentário