COMO RENOVAR A POLÍTICA NO BRASIL?
Para renovar a política é urgente democratizar
os partidos
Entrevista
com Roberto Romano
Filósofo e professor de Ética da Unicamp
Marina Gama
Cubas
Para o professor Romano, o desafio de Temer será
conciliar as demandas do PMDB e do centrão com as metas do governo, num
ambiente onde a ética é escassa
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ROBERTO ROMANO Filósofo e Professor de Ética na UNICAMP |
Completado
os primeiros dias do governo interino de Michel
Temer, o filósofo e professor de Ética da Unicamp Roberto Romano diz que as características da política brasileira
impedem o Brasil de ser um país democrático. Para o catedrático, Temer terá de
enfrentar o mesmo desafio dos governos anteriores: conciliar uma agenda de
governo com as exigências dos parlamentares – dos quais o Planalto depende para
aprovações de reformas no Congresso. Nesta entrevista à repórter Marina Gama Cubas, o filósofo destaca
que o problema ético da política
brasileira está mais embaixo do que se imagina: está na DIREÇÃO DOS PARTIDOS políticos.
E
alerta que o País vive uma crise de
renovação das lideranças políticas. “O jovem que queira militar em um
partido político tem que aderir aos seus donos, que estão no comando há 20
anos. E isso, para muitos, não interessa”. A seguir, os principais trechos da
conversa.
Qual
o maior desafio do presidente Temer em seu próprio partido e no governo?
Roberto Romano: Dentro do PMDB, é conseguir
um mínimo de coesão em torno de sua liderança. Ele não é o líder mais
relevante, não tem a capacidade de coordenação política e de flexibilidade que
tem Renan Calheiros e que tinha, ou ainda tem, Eduardo Cunha. O PMDB é uma federação de lideranças
regionais e a base delas é justamente o atendimento às exigências dessas
regiões. Por isso, se não conseguir convencer seus pares de que seu governo
vai distribuir recursos para as regiões, Temer não vai conseguir nada junto ao
partido. Já no governo, o maior desafio
é o centrão. De certo modo, o centrão e Cunha, nos bastidores, dão um sinal
de para onde vai sua gestão. Se Temer
começar a alimentar esse centrão e se dobrar às suas exigências, seu governo se
tornará inviável.
Ele
entregou boa parte dos ministérios a parlamentares. É o oposto do “ministério
de notáveis” que prometeu?
Roberto Romano: Sim. E lembro, a propósito,
uma diferença entre Temer e Itamar Franco, que assumiu a presidência após a
saída de Collor em 1992. Itamar tinha origem peemedebista mas já havia saído do
partido. Surgiu como uma solução de fora do trato político cotidiano, desse
toma lá dá cá. Tinha as mãos mais livres para iniciar reformas e foi isso que
lhe permitiu escolher técnicos competentes – que fizeram o Plano Real, por exemplo.
E mais: nomeou como ministro da Educação o doutor Murílio Hingel, que fechou o
Conselho Federal da Educação, então envolvido em corrupção. O Temer tem um problema a mais: ele integra
organicamente o PMDB. Nessa condição, além de ter que conciliar os
interesses opostos dentro do seu partido precisa
tratar com os nanicos, que se uniram para ter força – hoje eles são quase
maioria absoluta na Câmara. É um desafio duplo. A questão é como encontrar um
atalho para não soçobrar até 2018.
Acha
que isso é possível?
Roberto Romano: Não conheço as
potencialidades políticas do presidente. Esse é um ponto que mostra certa
fraqueza na construção de cenários, para qualquer analista. Temer nunca foi um
líder dentro do seu partido. Nunca teve uma liderança ao estilo do Ulysses Guimarães. Jamais foi um líder
oligárquico à semelhança de Orestes
Quércia e não tem a tradição de Executivo como Itamar Franco – que antes tinha sido prefeito e governador. As
escolas de Temer são a cátedra de direito constitucional, no qual é muito bom,
e o parlamento. Não sabemos até onde ele pode ir como líder da coordenação.
Essa
política da coalizão coloca em xeque a democracia?
Roberto Romano: Vira uma partidocracia.
Porque, se o presidente não consegue
governar, fica à mercê dessas maiorias voltadas para a ocupação de cargos na
máquina federal. E, claro, quando você radicaliza a compra e venda de
apoio, começa a utilizar o dinheiro público para ajudar os partidos. Isso é a
base do mensalão, do petrolão e tudo mais.
Como
mudar a cultura política?
Roberto Romano: O primeiríssimo ponto é pela
ação da opinião pública e da população
mais politizada, radicalizando o que já tem sido feito, por exemplo, com a
Lei de Improbidade Administrativa, com a Lei da Ficha Limpa. Mas é urgente democratizar por dentro os
partidos políticos.
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RENAN CALHEIROS E RENAN FILHO O pai - Senador pelo PMDB/AL - está passando o bastão do poder ao filho, atual governador de Alagoas! É assim que se dá a "renovação" na política brasileira... |
De
que forma?
Roberto Romano: As direções dos partidos
políticos brasileiros – os grandes e os pequenos – permanecem no cargo por mais
de 20 anos. Não existe candidatura, nem
propaganda política, sem autorização deles. São donos do cofre, das
candidaturas e das alianças. E o que prevalece são relacionamentos de troca
entre os dirigentes dos partidos. Com isso, você não tem renovação. Não há mais
lideranças como Ulysses Guimarães, como Mário Covas, Luiz Inácio Lula da Silva
– no passado – e Leonel Brizola, que tinham expressão nacional. Outro ponto: nenhum partido brasileiro tem eleições
primárias. Muitos dizem que o eleitor colabora com esse descalabro porque
não se compromete com os políticos e nem sabe o nome do deputado em quem votou.
Mas, pergunto, como a pessoa vai estar comprometida se ela não foi consultada
no processo anterior? Quando o eleitor
chega à urna, o prato já está feito. Então, se não houver essa
democratização dos partidos políticos não vai ter juventude dentro dos
partidos. Porque o jovem que queira militar vai ter que aderir a esses donos
dos partidos.
É
necessária outra forma de pensar a política brasileira?
Roberto Romano: Acho que é necessária uma
reforma ética.
O
que seria essa reforma?
Roberto Romano: Ética é o conjunto de
atitudes corporais e mentais que, uma vez aprendidas ou praticadas durante
longo tempo, tendem a se tornar automáticas. A ética da política brasileira é sempre a troca de poder descartando
programas, posições doutrinárias etc. É aquela velha pergunta: “O que eu
vou ganhar com isso? Ou o que o meu partido vai ganhar?” Não se pergunta: “Como eu posso colaborar? Como o meu partido poderá
colaborar para o refinamento e a melhoria da sociedade e do Estado?” Quando
você chega nesse automatismo, só uma crise forte criará algo novo na política
brasileira. Numa crise muito forte, o automatismo já não é mais eficaz – e é o
que está ocorrendo agora. O desafio da
crise é justamente você inventar, criar novas formas de relacionamento político.
O espaço está aberto para isso.
O
que se viu na votação do impeachment
na Câmara pode impulsionar essa reforma?
Roberto Romano: Há setores da sociedade que
estão assumindo posições cada vez mais fortes na direção da democratização.
Eles podem pressionar pela mudança na estrutura dos partidos. Até aqui, o
efeito desse espetáculo indecoroso dos políticos foi a criação de uma maior
desconfiança no sistema de representação parlamentar. Pesquisas feitas na
América do Sul mostram que aumentou o
ceticismo pessoas diante do sistema de representação e isso é muito perigoso.
Os
políticos e os brasileiros subvalorizam a democracia?
Roberto Romano: Não vivemos a democracia
ainda, não vivemos sob o signo da responsabilização. O que importa numa democracia é o uso da responsabilidade no dia a dia.
Se você é um prefeito e faz o projeto de uma ponte, tem que levar essa ponte
até o final. O que se vê no cotidiano
das administrações brasileiras é antidemocrático. Você começa uma estrada e
não termina, começa um hospital e não termina. Quando termina, acontece o que
ocorreu com a passarela ciclística no Rio de Janeiro. Vivemos num regime que
ainda não incorporou as bases modernas da democracia.
Existe
luz no fim do túnel?
Roberto Romano: A única oportunidade que
vejo de mudança reside nessa cidadania
que luta e que exige através de instrumentos vários, como a internet e a
imprensa, e luta contra essa ética antidemocrática dos nossos políticos. O
absolutismo foi conhecido como o regime mais corrupto da humanidade, porque
nele tudo se vendia. Mas no absolutismo nunca se teve notícia de um rei pagar a
carruagem do cardeal ou do duque. Aqui
no Brasil o povo paga a carruagem, do vereador ao ministro, e são bilhões que
vão nesse privilégio, que poderiam ser aplicados em escola, tecnologia e
segurança.
As
manifestações de rua vieram para ficar?
Roberto Romano: Sim. É um fenômeno muito
interessante. E muito saudável, se se retirar o sectarismo presente nelas.
Fonte: O Estado de S. Paulo –
Caderno 2 / Direto da Fonte – Sonia Racy – Domingo, 22 de maio de
2016 – Pág. C2 – Internet: clique aqui.
E FALANDO NISSO . . .
Primeira crise, previsível, só se resolve com
saída de Jucá
Igor Gielow
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ROMERO JUCÁ Ministro do Planejamento e Senador licenciado do PMDB (Roraima) |
A crise inaugural do governo
interino de Michel Temer (PMDB) era cantada desde a montagem expressa de seu
ministério:
praticamente não havia interlocutor do hoje presidente que não citasse o risco
de ter Romero Jucá (PMDB-RR) em posição de destaque no gabinete.
Investigado pela Lava Jato,
sabe-se agora o que o poderoso ministro do Planejamento pensa a respeito da
operação.
Suas negativas sobre o sentido da conversa com Sérgio Machado são protocolares,
e politicamente será muito custoso
manter Jucá no governo.
É
péssima notícia para Temer. Reconhecido por sua grande habilidade e
conhecimento no trato de questões orçamentarias no Congresso, Jucá é a ponta de
lança política da área econômica do peemedebista – de resto, montada em torno
da figura de Henrique Meirelles. Ele
está no centro da operação de esquadrinhamento da ruína deixada pela petista
nas contas do governo.
Os diálogos com Machado, revelados pela Folha de S. Paulo nesta segunda-feira
(23 de maio), são estarrecedores, como
de resto são praticamente todas as conversas entre políticos sem a presença
ostensiva de um gravador.
Para saber sobre esses diálogos gravados, bem como, a
transcrição de trechos deles, clique aqui
Os
tucanos ficaram especialmente irritados com as citações ao partido, mas são
parte integral da aliança que sustenta Temer. Se não quiserem mais desgaste
público, já que a Lava Jato hoje incorpora simbolicamente todo o combate à
corrupção no país, terão de pedir a
cabeça de Jucá.
O ministro pode até resistir
na cadeira, justamente pelo peso que tem neste momento, mas com isso garantirá
a desconfiança permanente sobre as intenções do PMDB em relação à Lava Jato. Além disso, Jucá poderá
contar com a boa vontade de seus pares, que no fundo e em privado certamente
concordam com suas opiniões. O que não poupará Temer, que já tem de dar
declarações de apoio às investigações dia sim, dia não, de mais essa dor de
cabeça.
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