E agora, Brasil ? ? ?
Provisório, mas definitivo
Dora Kramer
Dilma não volta, sabe ela, sabe ele, sabemos todos os
brasileiros.
Portanto, prestemos atenção e voltemos nossas cobranças
para Temer e a equipe que ele montou!
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PLACAR DA VOTAÇÃO DO SENADO FEDERAL: 55 senadores foram favoráveis à admissão do processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff |
O presidente em exercício, Michel Temer, na teoria fará de conta
que assume em regime provisório pelos 180 dias que o Senado tem para dar o
veredito final sobre o afastamento de Dilma Rousseff. Na prática, contudo, atuará em consonância com a realidade, com a
ciência de que a decisão dos senadores compõe uma solução definitiva.
Dilma não volta, sabe ela, sabe ele, sabemos
todos os brasileiros. Portanto, prestemos
atenção e voltemos nossas cobranças para a equipe que, com Temer, vai
substituir o PT pelos dois anos e meio restantes ao mandato que os petistas não
souberam honrar nem preservar.
Subiram a rampa do Palácio do Planalto com o
capital da maioria eleitoral que depositou no partido a grande esperança do
País, mas agora eles descem de mãos
atadas ao deputado Waldir Maranhão.
Uma tristeza para quem acreditou:
* no conto da terna abundância,
* do Estado provedor a qualquer custo,
* das fantasias marqueteiras,
* na equivocada tese de que política se faz com mãos sujas,
* na visão distorcida de que o PT apenas fazia uso dos instrumentos de
sempre para governar. Não foi assim, o
partido e seus dirigentes exorbitaram [exageraram].
PLENÁRIO DO SENADO FEDERAL EM BRASÍLIA DURANTE A VOTAÇÃO DE ADMISSIBILIDADE DO PROCESSO DE IMPEACHMENT DE DILMA |
À exorbitância, as instituições e a sociedade
reagiram com força. Ao ponto fora da curva que representou o governo do PT,
foram assentados outros tantos “pontos fora da curva” para enfrentar a excepcionalidade do modo petista de
governar. E – por que não dizer? – de
enganar as pessoas em geral e capturar o pensamento dos incautos no particular.
Quanto mais atenta estiver a sociedade, menos
o mundo político poderá ignorar as suas demandas. Neste aspecto, o pé atrás da
opinião pública em relação a Temer não deixa de ser positivo para manter
os peemedebistas dentro dos limites que, em sua soberba, o PT insistiu em
ultrapassar.
Muita gente pergunta como chegamos a essa
situação. Foi uma trajetória longa e
compartilhada com a complacência do
eleitorado e a cumplicidade do
mundo político. [É bom os eleitores se
darem conta que são eles que colocam os políticos no poder, eles não chegam lá
por conta própria!]
Nenhum dos
dois viu problema em reeleger Luiz Inácio da Silva no auge do escândalo do
mensalão, o
fio da meada que ora se desenrola e pode levá-lo a condenações semelhantes às
já sofridas por seus companheiros de partido.
O governo do
PT, saudado como a grande esperança do Brasil, desce agora a rampa do Planalto
de mãos dadas a Waldir Maranhão, num triste, melancólico, mas merecido fim.
Fonte:
ESTADÃO.COM.BR – Política – Quinta-feira, 12 de maio de 2016 – 03h16 – Internet: clique aqui.
4.880 dias em 10
José Roberto
de Toledo
Terão sido 4.880 dias de era petista, 60% sob Lula da
Silva e
1.958 dias sob Dilma Rousseff.
Uns importam mais que outros. Eis dez dias que abalaram o Brasil e
selaram o destino do PT [Partido dos Trabalhadores].
29.º dia depois do PT: lançamento do Fome
Zero. A ideia original era combater a fome de 44 milhões de pessoas. No dia
293 da era petista, foi englobado pelo Bolsa
Família e tornou-se um dos maiores programas sociais do mundo. De quebra,
virou o principal cabo eleitoral do petismo. Regiões que nunca tinham votado no
PT tornaram-se redutos do partido, mudando o mapa do voto em pelo menos seis
eleições.
887.º dia: pressionado por denúncias de corrupção que o levariam à cadeia, o
presidente do PTB, Roberto Jefferson,
tatua a expressão “mensalão” na
imagem do PT. Além de nunca mais se livrarem da palavra (dicionarizada em 2005
como “procedimento ilícito de pagamentos
feitos a congressistas para cooptação de votos”), os petistas viram sua
mais hábil geração sucumbir ao processo, julgamento e condenações que se
seguiriam.
1.186.º dia: entra em vigor o salário mínimo de R$ 350. Foi o maior
aumento real da era petista, 33% acima
da inflação. Somados ao Bolsa Família e ao crédito consignado (criado no
350.º dia pós-PT), os aumentos reais ano após ano do salário mínimo fomentaram
um mercado de consumo popular inédito
e alavancaram a popularidade de Lula, permitindo a ele reeleger-se, a despeito
do “mensalão”. A voz do bolso seria mais escutada do que qualquer outra pelos
petistas a partir dali.
2.860.º dia: Lula elege Dilma. Surfando a onda de consumo interno e da expansão
da economia mundial, Lula conseguiu furar a “marolinha” da crise financeira de
2009 e, com uma popularidade maior do que qualquer outro presidente brasileiro,
fez como sucessor uma mulher que jamais
disputara uma eleição. Levou o PMDB
de carona, pondo Michel Temer de vice. O
casamento de conveniência PT-PMDB mostrar-se-ia um risco mal calculado.
3.657.º dia: em almoço na praia baiana
de Inema armado por Jaques Wagner, Dilma
evita discutir com Eduardo Campos (PSB) sobre uma nova chapa para a eleição
presidencial de 2014 na qual ele seria seu vice, no lugar de Temer. Campos
saiu da Bahia candidato a presidente e decidido a acabar com 20 anos de aliança
PT-PSB.
3.809.º dia: manifestação contra o
aumento de 20 centavos da passagem de ônibus em São Paulo precipitou uma avalanche de protestos Brasil afora, solapando
a estratosférica popularidade de Dilma. Foi a queda de aprovação mais
abrupta da história brasileira. Uma queda da qual ela jamais se recuperaria – e
que revelava um desejo de mudança que o
PT insistia em ignorar.
3.990.º dia: reunião de técnicos do Tesouro vira rebelião contra as pedaladas
fiscais para maquiar as contas do governo. Além de servir, dois anos
depois, como desculpa para o impeachment,
revelaria o isolamento de Dilma em relação à economia: era, na prática, sua
própria ministra da Fazenda e não ouvia críticas.
4.093.º dia: a Polícia Federal deflagra a Lava Jato, a maior operação contra
corrupção da história brasileira. Pela
primeira vez, os maiores empreiteiros do País seriam condenados e presos,
junto com dezenas de burocratas, doleiros e senadores. Dilma hesita, e a
oposição se aproveita da operação. As
revelações desbotariam o que restava da imagem do governo e provocariam as
maiores manifestações políticas da classe média já registradas.
4.414.º dia: Eduardo Cunha se elege presidente da Câmara. Manobrando o regimento
interno e anos de ressentimento acumulado pelos deputados contra Dilma e o PT,
aprova a pauta bomba, solapa a base governista e inviabiliza o governo.
4.855.º dia: deputados aprovam o impeachment,
e o Brasil descobre de quem é feita a Câmara. Fim da era petista na prática.
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