Nem sempre fazer o certo rende popularidade !
Para Delfim, Temer precisa “convencer o País de que
ajustes não são maldade”
Entrevista
com Delfim Netto*
Economista, ex-Ministro da Fazenda e da
Agricultura, ex-Deputado Federal
Sonia Racy
Crítico do governo Dilma e ciente dos desafios que
Michel Temer enfrentará, ex-ministro acha crucial que ele convença o eleitor de
que corrigir os erros é a única saída.
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ANTÔNIO DELFIM NETTO Economista, ex-Ministro e Professor de Economia |
Também
neste governo Temer, Delfim Netto
certamente será chamado a opinar. Como vem fazendo nos últimos 50 anos,
tendo começado nos governos militares quando ficou conhecido pelo “milagre
brasileiro” (1968-1973), nos tempos em que o Produto Nacional Bruto (PNB)
crescia, em média, 10% ao ano.
Muito
próximo a Temer, com quem costuma almoçar regularmente em São Paulo, o
ex-ministro, ex-deputado e afiadíssimo economista de 88 anos, 24 deles no
Congresso como deputado, acha que Temer “recebeu um presente de Deus, que pôs o
dedo nele e disse: ‘Você é um político eficaz. Estou lhe dando a chance de ser
um estadista. Você não tem mais passado, você só tem futuro. O seu futuro vai
ser escolhido agora. Você vai fazer nesse curto prazo o que tem que ser feito.
Plante carvalho ao invés de plantar couve”. Sobre Dilma, afirmou: “A aprovação
dela melhorou, quanto mais ela errava mais melhorava”.
Semana
passada, pouco antes de Temer assumir, ele falou à coluna no seu escritório em
Higienópolis [São Paulo].
Na
atual situação, só o político salva a economia ou só a economia salva o
político?
Delfim Netto: Na verdade, em qualquer
circunstância, o economista tem a pretensão de que as suas medidas sejam tão
perfeitas que mesmo quando elas impõem um sofrimento dramático à sociedade,
como ele sabe que está apoiado na ciência, faz aquela maldade com a maior
tranquilidade por acreditar que ela vai salvar o cidadão. Há vários equívocos
nisso. Primeiro, que a economia não é
uma ciência. Não existe nenhuma
hipótese de você ter soluções científicas para problemas econômicos. O
Temer tem toda razão quando diz que não há escassez de diagnóstico. Todo mundo
sabe o que fazer, não importa a escola a que se pertença. Há uma pequena
diferença aqui ou ali, mas todos sabem que você tem que fazer um ajuste nesse
desequilíbrio fiscal, estrutural, que está dentro da Constituição. Também não
há nenhuma escassez de talentos para executar essa tarefa.
E
por que não se executa?
Delfim Netto: Porque para executar essa tarefa precisa de uma maioria política sólida
convencida de que aquela é a solução. Uma maioria que não se restrinja ao
Congresso, mas que vá aos eleitores mostrar que não se trata de nenhuma
maldade, e sim de corrigir alguns defeitos do processo, e que precisamos fazer.
Está
claro o que precisa ser feito. Mas como?
Delfim Netto: Tem de convencer a sociedade
de que ela não vai ficar sem a aposentadoria. Na verdade, vão se criar condições para que todos se aposentem. Vão
se eliminar as grandes diferenças entre
o setor público e o privado, corrigir problemas da Previdência no setor
agrícola. Sem atacar direitos adquiridos.
Então, só o político pode salvar o economista.
O
governo Temer terá forças para aprovar tais medidas?
Delfim Netto: Deixa eu lhe dizer: o
governo começa com os 367 votos na Câmara e 55 no Senado. Quantos ele vai ter
daqui 90 dias, não sei. Mas uma coisa é segura: é preciso levar as propostas constitucionais e deixar o Congresso
trabalhar… Ele precisa de trabalho. Você tem que levar ao Congresso o que
você precisa, o que a nação precisa – e ele em geral melhora a proposta. Tem que ocupar o Congresso com coisas
corretas.
Esta
é a função do Executivo?
Delfim Netto: Sim. Se o Executivo não tem protagonismo, não funciona. Não se pode ter
um presidencialismo de coalizão que nem presidencializa e nem coaliza. Então,
ele começa presidente, com capacidade pra coalizar. Ele tem que deixar no
Congresso as necessidades do País, porque o Congresso não quer o mal do País.
Ele se desorganizou por causa da disputa entre Executivo e Legislativo, que foi
uma disputa insensata – a intervenção do Executivo na eleição da Presidência da
Câmara.
Qual
será, nesse processo, o impacto da saída de Eduardo Cunha?
Delfim Netto: Ele pode ter todos os
problemas, mas nunca houve um presidente com a eficácia do Cunha, que
conhecesse tão bem o regimento, que seja capaz de fazer as coisas caminharem.
Não é possível dizer que sob sua presidência o Congresso não tenha andado muito
mais depressa. Aprovou maluquices, mas podia ter aprovado coisas muito boas.
Acha
que o destino de Renan tende a ser o mesmo de Cunha?
Delfim Netto: Não há a menor dúvida de que
a Lava Jato é um momento de inflexão.
O Brasil será (depois dela)
completamente diferente. A manifestação da Andrade Gutierrez, reconhecendo
os equívocos, é apenas uma. Ela está acontecendo em outros campos, em outras
empresas, sem esse pedido público de perdão. E as instituições estão cada vez mais sólidas e ajudarão o País a
crescer mais depressa. O STF tem se comportado, na minha opinião, de
maneira absolutamente correta.
Com
a indicação de Henrique Meirelles, a iniciativa privada sossegou em relação à
parte técnica da Fazenda. Hoje estão mais voltados para a atuação de Romero
Jucá, que será o grande responsável pela relação entre Executivo e Legislativo.
Concorda?
Delfim Netto: O Jucá é um craque, está
nisso há mais de 40 anos, trabalhou conosco, com Andreazza, foi interventor em
Rondônia, foi governador. Conhece Orçamento como gente grande, tem uma
habilidade política extraordinária. E vou dizer uma coisa, a minha hipótese é que ele será um excelente ministro do Planejamento.
É operacional, sabe o que precisa ser feito.
Ante
as denúncias da Lava Jato, acha que a situação dele é frágil?
Delfim Netto: Uma simples denúncia não
significa nada. Ele vai ser julgado, se for condenado é outra coisa.
Acha
temeroso Temer nomear gente que possa, a curto, médio ou longo prazo, ser
alcançada pela Lava Jato?
Delfim Netto: Na minha opinião, ninguém
pode prejulgar isso. Quer dizer, a
presunção de inocência continua sendo um dos fundamentos de toda a sociedade
civilizada. Então, quem for acusado vai se defender.
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LUIZ INÁCIO LULA DA SILVA E DELFIM NETTO O ex-presidente Lula consultava muito o economista Delfim! |
O
sr. tem dito que tem muita gente querendo trabalhar no governo Temer. Mas por
que são sempre os mesmos? Por exemplo, o ex-presidente Lula defendia Henrique
Meirelles para Fazenda e também o Jucá para ser o líder de governo.
Delfim Netto: Porque o Lula é um
pragmático. O Lula é uma inteligência
privilegiada e um grande administrador. Tem uma intuição muito poderosa. De
forma que quando ele defendeu o
Meirelles e o Jucá, na minha opinião ele sabia o que estava fazendo.
O
sr. já esteve muito próximo da presidente Dilma. Depois, houve um certo
afastamento.
Delfim Netto: Eu acho a Dilma,
pessoalmente, absolutamente correta. Nunca tive nenhuma amolação com ela. Eu me
separei, diminuí a minha presença, e ela também não me convidou mais. Mas em dezembro de 2012, quando houve aquela
quadrangulação fantástica que transformou chumbo em ouro…
Como
assim?
Delfim Netto: Ela transformou a dívida
pública, colocou recursos no BNDES, o
BNDES pagou e virou superávit primário. Aí, na verdade, acho que foi o
instante em que o governo atingiu uma situação muito delicada. Ela fez em 2011
um governo muito bom, em 2011 cresceu 3,9% , a inflação ficou no limite
superior da meta…
A
complicação econômica não veio de anos anteriores?
Delfim Netto: Não, ela estava só
corrigindo algumas coisas do Lula. Tanto assim que a relação dívida-PIB caiu.
Teve superávit primário, teve superávit fiscal. Ela começou a errar em 2012, quando fez a intervenção na energia,
quando começou a fazer voluntarismo. Quando fez a intervenção na taxa de
juros.
Mas
ela já não influía nas decisões da Petrobrás antes?
Delfim Netto: Não, não tinha destruído ainda o setor energético, não tinha destruído o
setor sucroalcooleiro. Aqui é uma coisa muito interessante, para a qual a
gente deveria chamar a atenção. Dilma
atingiu o máximo da sua popularidade no Datafolha
quando estava no máximo dos seus erros. Entrou em 2012 com aprovação
elevada. Quando pôs a mão na energia elétrica a aprovação dela subiu 6 pontos.
Quando pôs a mão no câmbio, na queda de juros, subiu mais 6 pontos…
O
sr. quer dizer que ela entrou numa fase populista?
Delfim Netto: Esse é que é o problema central… quando você
foca no curto prazo sem levar em conta o longo prazo. A aprovação da Dilma
melhorou, quanto mais ela errava mais melhorava.
O
senhor culpa as pesquisas?
Delfim Netto: Não. As pesquisas são ótimas
porque mostram como você pode errar com conforto. Na minha opinião, a Dilma
deixa uma lição para os futuros presidentes, para pessoas que têm
responsabilidade. É que não se pode
administrar olhando a aprovação de curto prazo. Tem que olhar o futuro.
Que
conselho daria a Temer?
Delfim Netto: Ele é normalmente um homem
muito cuidadoso. E a meu ver não tem nenhuma razão, hoje, pra se meter numa
política voluntarista.
Se
daqui a 180 dias o processo reverter e Dilma voltar ao governo, o que acontece?
Delfim Netto: Tudo vai piorar. Ou seja: pobre Brasil, vai ter
que esperar 2018. A ideia de que a Dilma recupere o seu protagonismo, eu
até gostaria, mas acho que é impossível.
Temer
tem muito pouco tempo para mostrar a que veio. Ele deve olhar as pesquisas?
Delfim Netto: Não, o Temer não tem que olhar para pesquisas coisa nenhuma. Ele recebeu
um presente de Deus, que pôs o dedo nele e disse: “Você é um político eficaz.
Estou lhe dando a chance de ser um estadista. Você não tem mais passado, você
só tem futuro. O seu futuro vai ser escolhido agora. Você vai fazer nesse curto prazo o que tem que ser feito. Plante
carvalho ao invés de plantar couve”.
MICHEL TEMER, DELFIM NETTO E ROMERO JUCÁ encontro ocorrido antes de Temer assumir a Presidência da República |
Como
ele vai tomar medidas duras e agradar ao Congresso?
Delfim Netto: Há no fundo uma mudança de
concepção. O Congresso sabe que o que
vinha sendo feito é impossível. Se continuasse assim, iria para o buraco.
Se esse negócio agora não der certo, a probabilidade de essa gente se reeleger
é zero. Em 2018 vão todos para casa. Você não pode ter o Brasil sem
administração. Essa narrativa de que
tudo o que existe é maldade é equivocada. A correção vai ser benigna.
No
médio e no longo prazo?
Delfim Netto: Na reforma da Previdência,
ninguém pretende dizer pro sujeito: “Você perdeu sua aposentadoria”. Não existe
isso. Ou então: “Você perdeu a sua Bolsa Família”. Não existe isso. Você precisa de um governo ativo, que tenha
comunicação não só com o Congresso, mas com a sociedade, para explicar o
seguinte: “Eu não estou tirando o seu direito, estou tirando, na verdade, o
parasitismo que tem nesse direito. Estou tirando aquilo de que grupos bem
organizados se apropriaram e que você, brasileiro, paga”. Quer dizer, você
vai ter que mostrar à sociedade que corrigir a aposentadoria é para poder
continuar pagando aposentadoria. Que corrigir a vinculação é para poder
melhorar a qualidade da administração e exigir eficiência. Terceiro, que
continuar a usar o salário mínimo como um instrumento importante de
redistribuição de renda só pode acontecer se eu eliminar o seu papel de
indexador. Quarto, que eu preciso de uma liberdade de negociação entre
trabalhadores e empregados. E por quê? Porque o sistema brasileiro pressupõe que
o trabalhador é um idiota e que o empresário é um ladrão, então precisa ter um
juiz no meio. Nada disso. Sob o controle do sindicato, deixe que trabalhadores
e empregados coloquem na mesa transparentemente o futuro da empresa e discutam
entre si como distribuir o excedente.
Essa
receita, existe há vinte anos. Por que é que, desta vez, ela vai andar?
Delfim Netto: Porque a minha esperança é
que o Temer continue sabendo fazer tricô com quatro agulhas.
*
Antonio Delfim Netto é economista e professor. Formou-se,
em 1951, pela Faculdade de Economia e Administração (FEA) da Universidade de
São Paulo (USP). Foi secretário de Finanças de São Paulo, ministro da Fazenda,
ministro da Agricultura, ministro-chefe
da Secretaria de Planejamento da Presidência da República e embaixador do
Brasil na França. Participou da elaboração da Constituição de 1988. É
professor-emérito da FEA e sua área de especialidade é economia brasileira.
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