Caindo na real ! ! !
Para sair da crise econômica
«O desafio de Temer é fazer todos cederem»
Entrevista
com Luiz Guilherme Schymura*
Diretor do Ibre/FGV (Instituto Brasileiro
de Economia/Fundação Getúlio Vargas)
Alexa Salomão
e Ricardo Grinbaum
Para diretor do Ibre, cabe ao novo governo pacificar a
relação entre Legislativo e Executivo e abrir espaço para reformas, revertendo
as expectativas ruins de hoje
![]() |
LUIZ GUILHERME SCHYMURA DE OLIVEIRA Economista e engenheiro |
Luiz
Guilherme Schymura, diretor do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre/FGV), se
diz otimista com a gestão de Michel Temer. “Nunca
vi um governo tomar posse com todos os ministros falando da necessidade do
ajuste”, diz. Mas não tem ilusões.
O trabalho a seguir é penoso. Considera
que o aumento de impostos é “inexorável”, que será preciso esperar para tocar
um programa de concessões e que a
sociedade não está preparada para a reforma da Previdência – no máximo será
possível encaminhá-la.
Seu
conselho para a nova equipe econômica é mostrar que o nó político entre
Executivo e Legislativo foi desfeito para que as expectativas, hoje muito
pessimistas, sejam revertidas: “O governo
Temer deve partir para propostas factíveis, que tenham impacto fiscal e possam
ser bem acolhidas pelo Congresso, dando a percepção de que as coisas estão
caminhando”. A seguir os principais trechos da entrevista que concedeu ao jornal
O Estado de S. Paulo.
Como
o sr. está vendo a formação da nova equipe econômica?
Luiz Guilherme
Schymura: A
equipe econômica não é o grande problema. Pelos nomes que têm aparecido, é uma
equipe competente, como já era a de Dilma. Tanto Nelson Barbosa quanto Joaquim
Levy (ex-ministros da Fazenda) são economistas competentes e conhecedores das
contas públicas. Henrique Meirelles (novo Ministro da Fazenda) e os demais
nomes avaliados são competentes.
Se
esse não é o problema, qual é?
L.G. Schymura: O problema nunca foi
técnico. A dificuldade não é fazer
conta. É conseguir uma composição política.
Para
entendermos: o sr. está dizendo que a agenda econômica dos dois governos é
parecida, mas que um pode ter mais facilidade para implementá-la?
L.G. Schymura: A presidente Dilma padeceu
de um mal: expectativas. Não conseguiu convencer os agentes econômicos de que
conseguiria reverter as expectativas. Gosto muito de dar o exemplo de José
Mourinho, técnico do Chelsea. Ele foi campeão inglês de futebol em 2014 e 2015.
Começou a temporada de 2016, mas saiu depois de 16 rodadas. Por quê? Porque o
Chelsea estava perto da zona de rebaixamento. Não estou comparando a Dilma ao
Mourinho. Estou lembrando a importâncias
das expectativas. Mourinho saiu porque não havia a expectativa de que o
Chelsea poderia se recuperar nas mãos dele. Na minha visão, um dos fatores que levaram ao impeachment de Dilma foi o entendimento de que ela não conseguiria
fazer as composições políticas que viabilizariam a agenda de crescimento.
Essa é a verdade. A gente sabe qual é a importância das expectativas em
economia.
JOSÉ MOURINHO - técnico demitido do Chelsea (time de futebol inglês) |
Nesse
cenário, um choque de confiança com a mudança de governo é o início para
reverter a situação?
L.G. Schymura: Não sei se o presidente
Michel Temer, com um choque positivo nas expectativas, vai conseguir reverter a
situação. Mas sem o choque, sem a possibilidade das expectativas positivas, não
haveria retomada mesmo.
Em
termos econômicos, qual é a sua sugestão para o governo Temer?
L.G. Schymura: Minha sugestão é que o
governo Temer deve partir para propostas factíveis, que tenham impacto fiscal e
possam ser bem acolhidas pelo Congresso, dando a percepção de que as coisas
estão caminhando. A questão não é
aprovar imediatamente as medidas. O déficit do ano está dado. Todo mundo sabe
que não existe reforma em três meses, que não existe mágica. É preciso
passar a percepção que há uma sintonia entre Executivo e Legislativo e dar um sinal claro de que a situação vai
ser revertida lá na frente. O ministério que o Michel Temer montou, na
minha opinião, é eminentemente político. Não acredito que vamos ter grandes
modificações na maioria dos ministérios, ver grandes mexidas na Educação, por
exemplo. Estão entrando para afinar o
discurso entre Executivo e Legislativo. Estou otimista. Nunca vi um governo
tomar posse com todos os ministros falando da necessidade do ajuste. Ao menos
existe essa consciência.
Henrique
Meirelles assumiu a Fazenda sem descartar a volta da CPMF. Será preciso
aumentar a carga tributária?
L.G. Schymura: Acho inexorável o aumento de
impostos. Não há saída para equilibrar
as contas ou gerar a expectativa que falei sem o aumento de impostos. [Ai de nós!]
Será
preciso também cortar desonerações, benefícios creditícios e financeiros, que
custam bilhões em renúncias ou terminam em aportes do Tesouro?
L.G. Schymura: Eu preparei uma carta, que
sai nesta semana, tratando exatamente sobre isso. Apesar de ter tido um enorme
volume de desonerações – que nem quero discutir se foram boas ou ruins –, de
ter recebido vantagens do BNDES, de terem derrubado o preço da energia, a indústria passa por um momento muito
complicado. Nada disso foi suficiente para segurá-la. Como é que vai ficar a indústria quando você suspender as desonerações?
A gente não sabe como ela vai reagir. E o BNDES? Nas concessões, para evitar
que a tarifa ou o pedágio ficasse elevado, dentro de uma certa taxa de retorno,
entrou dinheiro do BNDES. O banco permitiu isso, dando financiamento de longo prazo.
Agora o BNDES está com um aperto fiscal
grande. Como vamos fazer as concessões num contexto de restrição fiscal
mais forte?
O
sr. tem respostas para essas questões ou está lançando a discussão?
L.G. Schymura: Estou lançando. Eu acho difícil, nesse contexto, deslanchar
muitas concessões. Não tem financiamento de longo prazo a uma taxa de juros
razoável. Talvez seja melhor esperar que
as expectativas dos investidores melhorem e a taxa de juros caia. As
desonerações não têm jeito. Você precisa retirar. O gargalo fiscal é grande.
Mas precisa pensar em algo para a
indústria.
Do
lado da receita, a repatriação de recursos não declarados pode ajudar?
L.G. Schymura: Sem dúvida. A gente não sabe
qual o valor, mas pode ser muito positivo. Entenda bem: essa é uma solução não
estrutural. É como a CPMF. Dá um gás conjuntural, um ânimo. A gente vive uma
situação muito delicada. O que eu acho que vem acontecendo na economia é
resultado de um processo democrático: nos últimos 30 anos tivemos o processo de
redemocratização, de combate à hiperinflação, de inclusão muito forte. Até
escrevi um artigo para o jornal O Estado
de S. Paulo. Tivemos o processo de combate à corrupção, com a prisão de
pessoas que pertencem a um grupo que, há até pouco tempo, era impossível
imaginar que poderiam ser julgadas. Para deflagrarmos essa agenda, houve
aumento da despesa pública. De 1999 até
2014, a despesa cresceu, em termos reais, 6,2% ao ano. Os políticos se
acostumaram a trabalhar assim. O aumento foi viável no período de alta da carga
tributária, de choque nos preços das commodities,
de formalização da mão de obra, enfim, quando a receita também crescia. Em 2012, a receita começou a crescer menos
e foi dificultado o crescimento da despesa naquela proporção histórica. A
classe política não se deu conta desse processo e isso explodiu no final de
2014. Em 2015, a economia desaba e Dilma não consegue retomar o
crescimento. Viam nela parte do problema e que ela não conseguiria tirar o País
desse filme de horror em que estamos. Taxa
negativa de crescimento em 4% é um horror. Essa é a minha radiografia.
Então,
estamos numa tendência de reversão dessa tendência histórica de gastos
crescentes?
L.G. Schymura: Não temos como escapar do
ajuste fiscal. Vou falar números grosseiros. Hoje estamos com um déficit fiscal próximo de 2% do PIB (Produto
Interno Bruto), o que vai fazer com que,
no final deste ano, a dívida pública bruta saia de 65% do PIB para 73% do PIB.
Ano que vem, a dívida pode terminar em 80%. Para termos uma trajetória de
dívida com um certo conforto, precisamos
de um superávit de 2%, em números arredondados. Isso quer dizer que, para cobrir o déficit e gerar o superávit,
precisamos de algo como 4% do PIB – o que pode ser feito com corte de
despesas, aumento de receita ou uma combinação das duas coisas. Como o PIB está
caindo 4%, temos queda de receita, o que torna o resultado muito pior. Isso não é um número pequeno: é criar todo
ano, daqui para a frente, algo como R$ 130 bilhões. Então, o governo de
Michel Temer precisa sinalizar, de alguma maneira, que esse desequilíbrio
fiscal estrutural vai ser resolvido. O choque de expectativa que precisa ser
gerado é um choque que faça com que as
pessoas acreditem que há solvência lá na frente.
Quem
vai pagar a conta do ajuste?
L.G. Schymura: O espetacular processo de
democratização que vivemos deu voz às pessoas. Hoje temos grupos de pressão
numa quantidade e com uma qualidade que não existia há 20 anos: ONGs,
sindicatos, organizações de defesa do consumidor, dos índios, dos religiosos,
das minorias. É espetacular o número de grupos organizados, cientes da agenda
de negociação, instrumentalizados para influenciar na pauta e no debate
político. Assim, hoje a discussão de
cada política pública é muito mais complexa. É um momento inédito. Nunca fizemos reformas com pujança
democrática.
Nesse
contexto, é muito mais complicado fazer reformas.
L.G. Schymura: Sem dúvida. É nisso que está
o meu alerta. Reforma é sempre notícia
ruim. O grupo atingido sempre diz: por favor, escolha outra vítima. Se
concentrar as reformas num grupo, a reação vai ser fortíssima. O desafio do governo Temer é fazer com que
todos cedam. Vamos pegar a reforma da Previdência. É importante não apenas
porque o custo do sistema previdenciário é elevado, mas porque tem um
crescimento vegetativo significativo: 0,2%, 0,3% do PIB ao ano. Uma maneira de
estancar isso é mudar as regras para aposentadorias e pensões. Será que a
sociedade brasileira já estaria madura para aceitar essa reforma? Na minha
opinião, não. Mas pode ser encaminhada ao Congresso nesse momento de susto,
para que o processo seja, ao menos, iniciado. Isso muda as expectativas.
*
Luiz Guilherme Schymura é engenheiro, foi diretor da Agência
Nacional de Telecomunicações. Tem sólida carreira acadêmica que inclui
pós-doutorado em Economia pela Wharton
School of the University of Pennsylvania
(Estados Unidos). É diretor do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre) da
Fundação Getúlio Vargas.
Fonte: O Estado de S. Paulo –
Economia –
Domingo, 15 de maio de 2016 – Pág. B6 – Internet: clique aqui.
“A economia pode sair da UTI para a convalescença”
Entrevista
com Eduardo Gianetti*
Economista, escritor e professor
Luiz Guilherme
Gerbelli
Para Eduardo Giannetti, o maior risco para o novo
governo é o grau
de envolvimento dos seus integrantes na Lava Jato
![]() |
EDUARDO GIANNETTI DA FONSECA Economista, cientista social e escritor |
O
economista Eduardo Giannetti acredita que o presidente em exercício Michel
Temer assume o governo num momento de inflexão econômica: a queda da inflação, o ajuste do setor externo e a atual ociosidade do parque industrial
devem ajudar na retomada da atividade. “A economia brasileira está na UTI e eu
acho que agora tem uma chance de ela passar para um estado de convalescença”,
diz.
Para
Giannetti, os primeiros sinais da nova
equipe econômica são positivos e, se tudo der certo, o novo governo pode se
assemelhar à gestão de Itamar Franco, também um governo de transição, cujo
legado foi a criação do Plano Real. “Agora,
não é o problema de estabilização macroeconômica, mas de organização do
descalabro que é o legado das contas públicas do governo Dilma”, diz. A
seguir os principais trechos da entrevista.
Como
o sr. avalia os primeiros sinais do governo Michel Temer?
Eduardo
Giannetti: Os
primeiros sinais são positivos e eles permitem o vislumbre de um ponto de
inflexão. A economia brasileira está na UTI e eu acho que agora tem uma chance
de passar para um estado de convalescença. Não quer dizer que tudo vai estar
normalizado, mas eu acho que podemos ter chegado num ponto de inflexão.
O
que faz o sr. acreditar nesse ponto de inflexão?
Eduardo
Giannetti: São
três fatores que, no curto prazo, devem favorecer o timing [momento] da
entrada do novo governo. Primeiro, a
inflação está em queda, o que abre
espaço para uma redução consistente da taxa de juros no segundo semestre. O segundo ponto é que as contas externas brasileiras estão ajustadas.
A recessão e a desvalorização do real levaram a uma queda das importações e a
diminuição dos gastos dos brasileiros no exterior. As exportações começam a
reagir e os preços das commodities
também estão ajudando. Então, o déficit em conta corrente está bem menor, o que
dá tranquilidade na frente externa. O terceiro
ponto é a ociosidade no parque produtivo.
Isso permite um crescimento no curto prazo sem grande implicações, porque tem
máquinas e equipamentos não utilizados e mão de obra qualificada desocupada.
Quando tem os fatores de produção já existentes, é mais simples mobilizá-los
para aumentar o nível de oferta.
Tudo
isso colabora para a retomada da confiança na economia?
Eduardo
Giannetti: A
palavra mágica é confiança. É
preciso que a varinha mágica da confiança volte a tocar a economia e animar os
consumidores a adquirir bens que requerem crédito. Ao mesmo tempo, os projetos
de investimento que já estão feitos e foram adiados estão prontos para ser
deflagrados. Se houver essa volta da confiança que o governo Temer pode trazer,
acho que existe espaço para um alento de expansão da oferta mesmo no curto
prazo.
HENRIQUE MEIRELLES E MICHEL TEMER O novo Ministro da Fazenda e o Presidente da República em exercício |
Boa
parte desses fatores que ajudam Temer estariam aí independentemente da troca de
governo.
Eduardo
Giannetti: Pois
é. O timing da chegada favorece esse
governo.
Do
que o Temer sinalizou até agora, o que o sr. considera como fundamental que
seja feito até 2018?
Eduardo
Giannetti: Entendo
que eles vão tentar fazer basicamente as medidas que estão delineadas naquele
programa “Uma Ponte para o Futuro”.
Tem medidas de curto prazo quase emergenciais e medidas de longo prazo, mas que
afetam expectativas desde já.
Quais
ações podem ser adotadas no curto prazo?
Eduardo
Giannetti: A
medida de mais impacto no curto prazo é a desvinculação
de receitas orçamentárias. De cada
R$ 10 arrecadados pelo governo federal, R$ 9 já estão gastos. Ele só tem R$
1 para administrar e fazer escolhas. Isso
não dá. Engessa o Orçamento de uma maneira descabida, ainda mais num
momento em que há um descontrole de gasto público e a dívida bruta crescendo a
uma taxa explosiva. Além das desvinculações das receitas orçamentárias, o desbloqueio das concessões é importante.
Acho também muito importante a nova ênfase que vai receber o comércio exterior
no Brasil, com o País tendo uma atitude
mais agressiva para abrir mercados e se libertando das amarras que o Mercosul
acabou impondo para acordos bilaterais.
Tudo
isso prepara o terreno para um novo governo em 2018?
Eduardo
Giannetti: Se
tudo correr bem, eu acho que o Temer pode ser para Dilma algo semelhante ao que
Itamar foi para o Collor. Agora, não é o problema de estabilização
macroeconômica, mas de organização do
descalabro que é o legado das contas públicas do governo Dilma. É curioso
lembrar que o conflito entre a Dilma e o Meirelles já se anunciou durante o
governo Lula, quando ela bloqueou aquela medida de limite do crescimento do
gasto corrente como proporção do PIB, dizendo que aquilo era rudimentar. Já
estava desenhado ali o descalabro das contas públicas que veio com o governo
dela.
O
crescimento pode voltar em 2017?
Eduardo
Giannetti: Eu
acho que podemos sair dos números negativos e ter um leve crescimento em 2017.
É um cenário bastante plausível. Pode ocorrer no segundo semestre uma redução
do quadro recessivo. Na margem, o PIB vai caindo cada vez menos e depois já
começa 2017 num cenário de crescimento muito baixo ainda, mas com a queda do
PIB estancada.
Vai
ser fundamental para o sucesso do governo Temer sinalizar que ele não será
candidato a reeleição se permanecer até 2018?
Eduardo
Giannetti: De
tudo o que estou falando, o que mais me
preocupa é o risco político deste governo. O PMDB tem muitas contingências
e o prosseguimento das investigações (da Operação Lava Jato) deve implicar nas
pessoas do primeiro escalão do novo governo. Aí mora o perigo. A grande ameaça
para um governo Temer bem-sucedido é o grau de envolvimento da cúpula do PMDB
que integra esse governo nos processos que a Lava Jato está apurando. E, para
ser franco, me preocupa muito a figura
do ex-presidente da Câmara dos Deputados Eduardo Cunha acuado e podendo usar as
informações que ele certamente detém para, de alguma maneira, obter proteção
com o novo governo.
A
montagem do ministério, com integrantes mais ligados ao Congresso, pode ajudar
a aprovar as reformas consideradas necessárias?
Eduardo
Giannetti: Certamente
o Temer conhece como poucos o modus operandi
do nosso presidencialismo de coalizão. Ele tem conhecimento detalhado e foi
muito cuidadoso na montagem do ministério tendo em vista essa realidade. Num
primeiro momento, o Temer tem um capital político para poder deflagrar pelo
menos algumas reformas relevantes. Agora, uma coisa é certa: conforme o tempo passa, o capital político
se deprecia e os partidos parasitas vão aumentar o preço da adesão e do apoio
para qualquer nova medida no Parlamento.
Mas
o Temer vai ter respaldo popular para adotar medidas duras?
Eduardo
Giannetti: Ele
já anunciou que não vai mexer nos gastos sociais relevantes. Agora, tem muito desperdício para ser eliminado.
Tem um espaço que não é nada impopular, pelo contrário, será altamente popular
se ele garantir que as transferências de renda promovidas pelo Estado
brasileiro cheguem a quem precisa e somente a quem precisa, e não sejam
capturadas no meio do caminho ou desviadas para outras funções. Eu acho que tem
de passar um pente muito fino para garantir um uso eficiente e justo das
transferências.
Há
quem defenda uma revisão no Bolsa Família. O sr. concorda?
Eduardo
Giannetti: O
Ricardo Paes de Barros, que desenhou o Bolsa Família, acha que tem espaço para
uma revisão criteriosa e melhoria da eficiência do programa. Agora, vamos
lembrar o seguinte: a carga tributária
bruta é 36% do PIB e o Estado brasileiro gasta 10% do PIB a mais do que
arrecada. Portanto, nós estamos falando de um Estado pelo qual transitam anualmente 46% da renda nacional e o Bolsa Família é 0,5% do PIB.
É
nada...
Eduardo
Giannetti: É
a migalha que cai da mesa. É incrível que se faça chantagem dizendo que se
tiver de cortar alguma coisa vai ser aí (Bolsa Família). Isso é uma chantagem
barata. Temos de lembrar que o Estado
drena os 46% do trabalho dos brasileiros, mas a saúde pública, a educação e o
saneamento são deploráveis. Tem alguma coisa profundamente errada nas
finanças públicas brasileiras.
Nesse
governo, o sr. vê possibilidade de diálogo com todos esses grupos de interesses
para resolver a questão das contas públicas?
Eduardo
Giannetti: Eu
acho que os primeiros sinais são positivos. Gostei muito do programa “Uma Ponte para o Futuro”. Aponta na
direção correta. Eu acho que podemos estar no limiar de um ponto de inflexão.
Não quer dizer que vai melhorar da água para o vinho subitamente, mas pelo menos se estanca a hemorragia e a
situação emergencial da economia.
O
sr. vê alguma possibilidade da presidente Dilma retornar ao poder?
Eduardo
Giannetti: Eu
volto ao ponto do risco político, que é a cúpula do PMDB. Se houver alguma
coisa inesperada no plano das investigações, isso pode aumentar a chance de a
votação final no Senado reconduzir Dilma para a Presidência.
*
Eduardo Giannetti nasceu em Belo Horizonte (MG), é
formado em economia e ciências sociais pela Universidade de São Paulo (USP).
Doutor pela Universidade de Cambridge, no Reino Unido, trabalhou com Marina
Silva nas disputas presidenciais de 2010 e 2014.
Comentários
Postar um comentário