A degeneração dos Estados Unidos!
É o que está por detrás do efeito
Donald Trump
Massimo
Faggioli
Historiador
italiano professor da Villanova University – Estados Unidos
L'Huffington
Post
20-07-2016
“O par Trump-Clinton leva os Estados Unidos de volta
aos anos 1980-1990”,
constata o historiador
Talvez
um dia os meus filhos (que são cidadãos tanto italianos quanto estadunidenses)
vão me perguntar onde eu estava no dia em que o Partido Republicano nomeou
Donald Trump como candidato à presidência dos Estados Unidos. Eu estava na outra América, aquela que olha
para Trump atônita, e que Trump finge que não existe.
Eu
passei os dois primeiros e decisivos dias da convenção republicana que está
sendo realizada em Cleveland em saguões de aeroportos, em aviões e em hotéis
entre a costa oriental e a West Coast dos Estados Unidos. Eu vi um Estados
Unidos profundamente diferente daquele descrito por Trump. Um Estados Unidos onde a população branca já é minoria. Um Estados
Unidos que funciona graças aos imigrantes. Um Estados Unidos tão conectado
ao mundo inteiro que nenhum neoisolacionismo pode parar. Mas é um Estados Unidos que não é representado pelo conservadorismo
político, apesar dos valores conservadores de uma parte significativa do país
(como os imigrantes latinos, muçulmanos e asiáticos).
Este momento histórico traz
à tona algumas questões-chave, que se tornaram evidentes aos olhos de um italiano
como eu, que emigrou para os Estados Unidos exatamente oito anos atrás, pouco
antes da convenção democrata de Denver que nomeou Barack Obama candidato à Casa
Branca.
1º)
Há uma questão ideológica: a rendição do GOP[1] a Trump significar o fim de um certo
Partido Republicano. Como escreveu Andrew
Sullivan, um dos blogueiros conservadores (gay e católico) mais afiados dos
Estados Unidos, o espetáculo oferecido
em Cleveland é o de uma certa ideologia conservadora que acaba "indo pelo
cano de descarga". Resta ver qual será, in loco, o resultado do repúdio de Trump por parte da maioria do
establishment político conservador, de George W. Bush a Mitt Romney. Os
"cultural gatekeepers"[2], os
intelectuais que controlavam o acesso ao debate cultural e político, estão em
uma crise de autoridade à direita e à esquerda. À direita, a política do medo e da ignorância criaram
o fenômeno Trump, que desencadeou os instintos demagógicos e semifascistas
de boa parte do ex-partido de Abraham Lincoln.
2º) Há
uma questão geracional, de envelhecimento da política estadunidense e dos seus protagonistas.
O par Trump-Clinton leva os Estados Unidos de volta aos anos 1980-1990: os
Estados Unidos progressistas se refugiam na "identity politics"[3] incapaz de levar o tecido social
novamente à unidade; os Estados Unidos
conservadores perseguem uma variação do sonho reaganiano[4]
sem ter valorizado nenhuma das lições da era Bush. O jovem líder dos
republicanos, o presidente da Câmara, Paul
Ryan, 40 anos, se limitou a rejeitar apenas as afirmações mais racistas de
Trump durante a campanha eleitoral.
3º)
Há uma questão étnica. Trump encarna um partido republicano cada vez mais branco, idoso e
nacionalista-cristianista, cada vez menos hospitaleiro para todas as outras
minorias étnicas e religiosas estadunidenses. É um Estados Unidos que se
assemelha mais ao dos anos 1840-1850 (senão ao da guerra civil) do que ao de
cada uma das décadas do "século americano", o século XX. É um Estados
Unidos em que a questão da violência não está generalizada, mas circunscrita a
um certo tipo de vítimas de uma aplicação desproporcional das políticas de
segurança e carcerárias: os Estados
Unidos dos afro-americanos é dramaticamente diferente dos Estados Unidos dos
brancos.
4º)
Há uma questão religiosa. A bancarrota moral e cultural do GOP também é a bancarrota moral e
cultural de boa parte do cristianismo estadunidense, aquele que começou a
mostrar as suas divisões étnicas graças à ascensão e à presidência de Barack
Obama, cuja fé cristã impressionou em nada aqueles que nunca aceitaram em
ter um afro-americano como presidente. A
nomeação de Trump significa não só o fim do sonho (cultivado pelos evangelicals assim como por muitos
católicos) de reconverter os Estados
Unidos através da ocupação do poder político. É o segundo fracasso epocal,
depois da tomada de consciência de que também fracassou a via cultural à
reconversão do país a um cristianismo anos 1940-1950.
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MASSIMO FAGGIOLI Autor deste artigo |
Os Estados Unidos pós-11 de
setembro encarnou não só a crise do cosmopolitismo, que permaneceu em Barack
Obama como um elemento autobiográfico, sem se tornar cultural nem político, mas também a crise de uma certa ideia de si
mesmo. Os Estados Unidos
republicanos são um país curvado sobre si mesmo como país, onde cada setor,
cada identidade, cada comunidade, cada família faz por si mesmo, e Deus por
todos. A partir desse ponto de vista, as consequências dessa involução
poderiam ser, no plano global, não menores do que a queda do comunismo na União
Soviética e na Europa oriental.
A
apostasia do conservadorismo estadunidense ao trumpismo coloca um problema à
Europa, ao mundo e, naquilo que profissionalmente diz respeito a mim mais de
perto, ao cristianismo, à Igreja Católica e ao Vaticano. A ascensão de Trump põe em crise a narrativa segundo a qual o futuro da
religião cristã no Ocidente se encontraria nos Estados Unidos (basta ver
quantos bispos e prelados católicos estadunidenses estarão na Polônia para a
Jornada Mundial da Juventude na próxima semana): hoje como hoje, a Igreja estadunidense faz parte do
problema, e o Vaticano do Papa Francisco faz parte da solução.
Os
maiores problemas diante da Europa hoje são o futuro da União Europeia e os
refugiados, a Turquia e o Oriente Médio, a Ucrânia e a Rússia. Mas há também
uma nova questão estadunidense, independentemente de quem ganhar na
terça-feira, 8 de novembro. Seria um erro olhar para o trumpismo como sequência
desgastada do berlusconismo[5].
Traduzido
do italiano por Moisés Sbardelotto.
Acesse a versão original deste artigo, clicando aqui.
N O T A S
[ 1 ]
GOP é um acrônimo para Grand Old Party (Grande Velho Partido),
numa referência ao Partido Republicano. Portanto, dizer GOP é o mesmo que dizer
Partido Republicano. O Partido Republicano foi fundado por abolicionistas em
1854. Até o presente momento houve 18 presidentes republicanos entre 1851 e
2009, sendo que o primeiro foi Abraham
Lincoln (1861-1865) e o último George
W. Bush (2001-2009). O penúltimo candidato republicano que disputou
eleições presidenciais foi o ex-governador do Massachusetts, Mitt Romney, que
foi derrotado pelo democrata Barack Obama. Agora, é a vez de Donald Trump, um político e empresário
sem tradições republicanas, disputar as eleições presidenciais concorrendo
contra Hillary Clinton, do Partido
Democrata.
[ 2 ]
Gatekeepers
é uma palavra inglesa que significa “porteiros”, quem controla a
entrada.
[ 3 ] Identity politics expressão inglesa
que pode ser traduzida por: política de
identidade.
[ 4 ] Reaganiano é um termo que
identifica o período em que Ronald
Reagan (1911-2004), ex-ator norte-americano, foi o Presidente dos Estados
Unidos, de 20 de janeiro de 1981 a 20 de janeiro de 1989. Foi um período
considerado áureo pelos conservadores do Partido Republicano.
[ 5 ] Berlusconismo refere-se ao
ex-Primeiro-Ministro da Itália, Silvio
Berlusconi, um empresário riquíssimo de Milão, proprietário de vários
canais de TV, jornais, rádios, time de futebol (Milan) e outros
empreendimentos. Berlusconi foi presidente do Conselho de Ministros da Itália
entre 1994 e 1995, de 2001 a 2005, entre 2005 e 2006 e de 2008 a 2011. Até hoje
se faz presente na cena política italiana.
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