Zika pode ser transmitido por pernilongo!
Transmissão de Zika por pernilongo comum pode implicar “mudança
radical” em medidas de controle
Camilla Costa
A bióloga Constância Ayres, da Fiocruz Pernambuco, fez
uma descoberta inédita que tem o potencial de proporcionar um salto no
conhecimento dos cientistas sobre o vírus Zika, e mudar radicalmente a
estratégia brasileira de prevenção dele.
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MOSQUITO "CULEX QUINQUEFASCIATUS" - O PERNILONGO |
Ayres
conseguiu encontrar, pela primeira vez, pernilongos
carregando o vírus na natureza.
Na
quinta-feira [21/julho], a Fiocruz
anunciou oficialmente que o mosquito Culex quinquefasciatus [veja foto acima], conhecido
como muriçoca ou pernilongo doméstico, também pode transmitir o vírus que causa
microcefalia e malformações em bebês.
Até
então, cientistas acreditavam que o mosquito Aedes aegypti era o principal vetor do vírus no Brasil. Agora, de
acordo com Ayres, os cientistas precisam
determinar qual das duas espécies é a mais importante na epidemia de Zika no
Brasil.
Durante
o anúncio, a Fiocruz afirmou que, até que se compreenda a importância do
pernilongo na epidemia, a política de controle da Zika continuará focada no Aedes aegypti.
Mas
dependendo dos resultados, seria necessária uma "mudança radical" na
atual estratégia atual de controle da epidemia, afirma a pesquisadora.
"Não existem
estratégias de controle do Culex no
Brasil. Isso vai ter de mudar radicalmente", diz.
Em
entrevista à BBC Brasil, Ayres
esclareceu a dúvidas sobre o andamento da pesquisa e as implicações de sua
descoberta.
1.
Como determinou-se que o pernilongo pode transmitir o vírus Zika?
A pesquisa analisou 500 pernilongos
capturados na Região Metropolitana do Recife. Eles foram obtidos em locais onde havia casos notificados de Zika,
segundo Ayres, para aumentar a possibilidade de se encontrar o vírus no
ambiente.
Os
pernilongos foram divididos em 80 grupos, e o vírus foi encontrado em três
deles. Em dois destes grupos, de acordo com a Fiocruz, os mosquitos não estavam
alimentados. Isso demonstra "que o vírus estava disseminado no organismo
do inseto e não (foi contraído) em uma alimentação recente num hospedeiro
infectado".
No
laboratório, a equipe de Ayres alimentou os mosquitos com uma mistura de sangue
e vírus, para entender como o Zika se replica dentro dos insetos.
Em
seguida, os pesquisadores investigaram o intestino e a glândula salivar dos
mosquitos. Se o pernilongo não fosse
vetor, seu intestino bloquearia o desenvolvimento do vírus dentro do organismo.
Mas, se o vírus conseguisse
se replicar, ele chegaria até a glândula salivar do Culex e poderia ser transmitido para humanos durante a picada.
Dessa
forma, a equipe de Ayres confirmou que o Culex pode carregar o vírus em seu
organismo. Amostras da saliva dos
pernilongos infectados foram analisadas, e continham quantidades de vírus
semelhantes às encontradas na saliva do Aedes
aegypti.
Segundo
Ayres, outra descoberta da Fiocruz Pernambuco dá força à hipótese: um grupo de pesquisa percebeu que a
distribuição geográfica da filariose (elefantíase) e do Zika vírus em Recife é muito semelhante.
Em
Recife, o Culex quinquefasciatus é o único mosquito que transmite o parasita
que causa a elefantíase. "Somos a única área do Brasil endêmica para
essa doença", explica a bióloga.
"Cerca
de 85% das mães que tiveram bebês com
microcefalia por causa do Zika estão em áreas muito precárias, sem saneamento
básico, onde ocorre mais a filariose. Isso pode explicar a participação do Culex na transmissão da Zika e dar
suporte à nossa hipótese."
"O
Aedes aegypti, por outro lado, está
mais distribuído na cidade. Vemos que a dengue é uma doença bem democrática,
não está só em áreas precárias", afirma.
ELEFANTÍASE - doença transmitida pelo pernilongo no Recife (PE) |
2.
O pernilongo também pode ser vetor de transmissão de dengue e chikungunya?
De
acordo com a Fiocruz, a pesquisa deu
prioridade ao vírus Zika por causa da epidemia da doença no Brasil e sua
ligação com a microcefalia.
Apesar
da epidemia de chikungunya, que
também atinge principalmente Estados do Nordeste, ainda não se sabe se esta doença também pode ser transmitida pelo Culex [pernilongo].
Ayres
afirma que o vírus da dengue já foi
encontrado em pernilongos coletados em campo, mas ainda não se confirmou se ele pode ser seu vetor.
3.
Quais são os próximos passos da pesquisa?
Segundo
Ayres, sua equipe agora investigará qual
é exatamente a capacidade vetorial do Culex,
ou seja, quão eficiente ele é para
carregar e transmitir o vírus.
"Já
sabemos que a taxa de infecção natural do Culex
é semelhante à do Aedes aegypti, mas
isso envolve outros aspectos biológicos do mosquito na natureza: o tamanho da
sua população, a longevidade dessas espécies, o número de picadas que dão no
homem, se preferem se alimentar do sangue humano ou não", afirma.
"Quando
tivermos essas informações, poderemos saber qual das duas espécies tem maior
importância na transmissão do Zika."
De acordo com a bióloga, a
população de pernilongo em Recife é 20 vezes maior que a do Aedes aegypti. Mas, apesar desta vantagem
populacional do Culex, o Aedes
pica mais vezes uma pessoa para se alimentar.
É
necessário entender, por exemplo, se picar várias vezes faz do Aedes vetor mais
competente de transmissão do vírus.
A equipe pernambucana também
investiga a possibilidade de a fêmea do pernilongo transmitir o vírus para sua
prole ainda nos ovos.
"Coletamos
os ovos dos mosquitos infectados, as larvas eclodiram, deixamos crescer até
virarem adultos e congelamos o material. Vamos analisá-lo", explica Ayres.
"Se conseguirmos detectar o Zika, significa
que eles contraíram o vírus da mãe. Isso tem importância epidemiológica,
porque é mais uma forma de o vírus se manter presente na natureza.
Ele
poderia permanecer no ambiente sem necessariamente ter de passar por
humanos."
No
ciclo de transmissão de doenças como o Zika, o Aedes aegypti pica uma pessoa doente, se infecta e leva o vírus
para outras pessoas. Ele não transmite o
Zika, até onde se sabe, a seus ovos.
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ESGOTO A CÉU ABERTO - FALTA DE SANEAMENTO BÁSICO É UM DOS FATORES DE PROLIFERAÇÃO DO PERNILONGO NAS CIDADES |
4.
Se o pernilongo for o principal transmissor, qual seria o impacto desta
descoberta?
Para
Ayres, isso significaria a necessidade
de alterar a estratégia atual de controle da epidemia de Zika,
completamente focada no controle da população do Aedes aegypti.
"Não
existem estratégias de controle do Culex
no Brasil. Isso vai ter de mudar radicalmente, e é por isso que as autoridades
exigem muita cautela e mais comprovação. É natural que seja assim", diz.
O pernilongo tem hábitos
diferentes do Aedes aegypti. É mais
ativo à noite,
por exemplo, o que tornaria importante a proteção com repelentes e roupas
compridas também neste horário, especialmente para gestantes.
Ele também prefere colocar
seus ovos em locais extremamente poluídos como esgotos, fossas e canaletas, o
que, segundo a pesquisadora, tornaria as medidas de saneamento básico ainda
mais "urgentes" para evitar novos casos de Zika e microcefalia em bairros mais
precários.
"O saneamento básico não erradicará o
mosquito, mas vai ajudar no seu controle populacional. As medidas de
saneamento ajudam a manter o mosquito em um nível no qual não teremos grande
epidemia, apenas casos esporádicos da doença."
5.
A descoberta do Culex como vetor do Zika é preocupante para outros países do
mundo?
De
acordo com a bióloga, o Culex quinquefasciatus está presente em
todas as áreas urbanas de regiões tropicais, subtropicais e temperadas - de
clima mais frio, como países do Norte da Europa, Canadá e Austrália. Já o Aedes
aegypti fica restrito às regiões tropicais e subtropicais.
Ela
esclarece, no entanto, que mostrar a capacidade do Culex de transmitir Zika no Brasil não significa que o mesmo
ocorreria, por exemplo, nos Estados Unidos.
"Existe
a possibilidade, mas cada população deve ser investigada, principalmente porque
o Culex quinquefasciatus, que é o que
temos no Brasil, é parte de um complexo de espécies", diz.
"Nos
Estados Unidos existem outras subformas dessa espécie de mosquito. E não
sabemos ainda se a competência vetorial de todas as espécies é a mesma."
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