Por que a França é o alvo nº 1 do Estado Islâmico?
Morte de um sacerdote
Gilles Lapouge
Correspondente
em Paris (França)
Na hierarquia obscura do Estado Islâmico, a França
ocupa o primeiro lugar
Ontem,
dois homens penetraram, no meio da missa, em uma igreja de uma pequena paróquia
francesa perto de Rouen. Fizeram
reféns alguns fiéis e o padre, um idoso de 84 anos. O padre foi degolado, um
fiel cruelmente ferido. Os dois homens saem da igreja pela porta da frente.
E são abatidos.
Na
hierarquia obscura do Estado Islâmico (EI), a França ocupa o primeiro lugar. E
há uma explicação para isso. A degola
foi da França e da religião cristã, o que, para o EI, é a mesma coisa. Não
é por acaso, ou fútil, o fato de, nos comunicados exortando seus crimes, os jihadistas chamam constantemente os
franceses de “cruzados”.
Remontamos
portanto à Idade Média: entre os anos
1.100 e 1.300 quando a Europa, sobretudo a França, enviavam enormes Exércitos
de cavaleiros e camponeses para capturar os “lugares sagrados” de Jerusalém dos
árabes. Mil anos. Mas para essas mentes insanas, as Cruzadas ainda existem
hoje. O tempo é imóvel. É ilusão.
Uma
prova de que para a França, a guerra de religião que foram as Cruzadas, não
terminou: Paris proibiu, por lei, o uso
do véu pelas muçulmanas. Na verdade, para os muçulmanos fanáticos do Estado
Islâmico, mesmo que a França seja o país
mais “descristianizado” da Europa, ainda é a filha mais velha da Igreja,
como sob o rei Luis XIII.
Os combatentes do EI acusam
também o país de um pecado inverso: não ter religião.
E para eles é preciso livrar a terra dos ímpios, como os agricultores devem
erradicar os besouros e insetos daninhos da terra.
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JOVENS RECRUTADOS PELO ESTADO ISLÂMICO Agora permanecem em seus países de origem para perpetrar ataques terroristas imprevisíveis! |
Aparentemente,
trata-se de uma grande contradição. Aos
olhos do Estado Islâmico o crime da França é ser cristã e não ser cristã.
Impensável? Não. Esse veredicto paradoxal não é totalmente falso. É fato
que os franceses
são cada vez menos cristãos, mas ao mesmo tempo, e paradoxalmente, a sociedade francesa, sua filosofia, sua memória, sua
moral, sua história, sua poesia, seu inconsciente, tudo
é fundamentalmente, absolutamente, cristão.
Aliás,
todas as decisões tomadas em Paris confirmam isso. Não é por acaso, diz o EI,
que a França combateu a Al-Qaeda no Afeganistão, Sarkozy assumiu o comando da
desastrosa cruzada contra a Líbia e hoje aviões franceses, ao lado dos
americanos, bombardeiam posições do EI no Iraque e na Síria.
O
longo período da colonização também teve um papel importante. Quando o império colonial entrou em
colapso, entre 1945 e 1965, numerosos habitantes de Argélia, Marrocos, Tunísia
e África Central, emigraram para a França em busca de emprego, uma vez que
falavam francês e estavam familiarizados com a cultura local.
Ora,
a integração dessas minorias foi a pior
possível. A França faltou espetacularmente a esse encontro extraordinário
com a História. Áspera, irascível,
indiferente, dogmática, legalista, aristocrata, nada fez para facilitar essa
adaptação.
Assim,
as periferias francesas, como as belgas,
tornaram-se incubadoras de jihadistas. São fabricados em série. E quando o EI se instalou no Iraque e na
Síria, um bom número desses franceses desprezados voou para esses dois países.
Com os revezes sofridos pelo EI, esses franceses receberam ordens de não viajar
mais para a Síria e passarem a agir na França, em cidades e vilarejos dos
cruzados. Ordem sórdida e, desgraçadamente, ouvida.
Traduzido do francês por Terezinha Martino.
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