O Papa tem uma nova dupla de porta-vozes
Francisco consegue três feitos ao nomear
porta-voz americano
John L. Allen
Jr.
Crux
11-07-2016
![]() |
Da esquerda para a direita, na foto, temos: GREG BURKE, PALOMA GARCÍA OVEJERO E PE. FEDERICO LOMBARDI Os dois primeiros são os novos porta-vozes da Santa Sé e do Papa |
Ao
nomear Greg Burke para ser o seu
porta-voz, o Papa Francisco conseguiu
três coisas:
1ª)
desfazer a imagem de que ele seria
antiamericano;
2ª) mostrar
que a competência importa; e
3ª)
sinalizar uma abertura a grupos vistos
como conservadores. E, como bônus, Francisco chamou também uma mulher para ser a número 2 de Burke.
Ainda
que não tenha saído vencedor da NBA deste ano, Steph Curry, jogador do Golden
State Warriors, teve uma temporada individual de dar inveja, acertando,
mais do que todo mundo, muitas cestas de três pontos. Aqui, Curry teve mais
acertos num ano do que a maioria das equipes na história da NBA, acertou mais
lances de três do que grandes lendas do basquete.
Na segunda-feira, o Papa
Francisco teve o seu “momento Steph Curry”, marcando três pontos numa única
jogada ao
nomear Greg Burke para substituir o Pe. Federico Lombardi para ser o seu
principal porta-voz e diretor da Sala de Imprensa da Santa Sé.
Francisco
também nomeou uma leiga, Paloma García
Ovejero, que antes foi correspondente
para Roma e o Vaticano da emissora espanhola COPE, para ocupar o posto
número 2 na Sala de Imprensa, instantaneamente fazendo dela uma das
funcionárias com maior visibilidade do Vaticano. Nunca uma mulher leiga havia ocupado este cargo.
As
duas nomeações entram em vigor no dia 1º de agosto.
Ainda
que haja inúmeros cargos no Vaticano que exercem um poder real maior, poucos
são mais publicamente vistos do que o de porta-voz papal. Em grande parte da
era Papa Bento XVI e nestes primeiros anos do papado de Francisco, Lombardi foi
a figura mais citada no catolicismo, perdendo somente para os papas para quem
ele trabalhou.
![]() |
PAPA FRANCISCO ladeado por Paloma García Ovejero e Greg Burke seus novos porta-vozes e diretores da Sala de Imprensa da Santa Sé |
Consequentemente,
este sacerdote acabou desempenhando um papel grandemente importante na
modelagem das percepções públicas da Igreja.
Em
uma palavra, o porta-voz do papa é uma
figura importante – talvez nem sempre para o estabelecimento de políticas,
mas certamente na forma como elas são compreendidas e recebidas.
Ao
escolher Burke, de 56 anos, Francisco conseguiu realizar três coisas de uma só
vez.
Primeiro,
ajudou a dissipar as percepções de que
ele seria antiamericano. É bem sabido que Francisco nunca havia viajado
para os Estados Unidos antes de sua visita papal em setembro de 2015; é bem
sabido que grande parte das críticas estridentes que ele vem atraindo desde que
foi eleito advém dos círculos americanos; e é bem sabido que a sua zona de
conforto define-se, também em grande parte, pelos falantes do espanhol e do
italiano.
Até
o momento, Francisco nunca havia se virado para um americano ao nomear alguém
para um posto verdadeiramente significativo no Vaticano, e quanto mais esta
falta se prolongava, mais se tinha a impressão de que o pontífice havia imposto
a regra: “Americanos não estão aptos a se candidatarem”.
Natural
de St. Louis, Burke é um americano em todos os sentidos. Verdade seja dita, ele passou a maior parte de sua vida adulta
em Roma, fala várias línguas, é
bastante viajado e um cidadão do mundo.
Mas a sua personalidade e aparência são inquestionavelmente americanas.
Ao
nomear Burke para um dos postos de maior visibilidade no Vaticano, Francisco
conseguiu se proteger de quaisquer impressões contra ele de que os americanos
não possuem um lugar relevante em sua Igreja.
Segundo,
Francisco igualmente demonstrou que a competência importa na hora de fazer
escolhas para cargos no Vaticano.
Burke
veio a Roma como jornalista para trabalhar para alguns meios de comunicação
católicos, o que lhe rendeu um profundo entendimento da coisa. Por ser excepcionalmente talentoso, no
entanto, rapidamente ele acabou trabalhando para grandes empreendimentos: a
revista Time e, depois, para a Fox News.
Este
retrospecto significa que Burke tem uma compreensão interna da dinâmica dos
meios de comunicação e que fala a linguagem dos jornalistas profissionais.
Ele foi contratado pela
Secretaria de Estado do Vaticano em 2012, assumindo, em fevereiro deste ano, o
cargo de número 2 da Sala de Imprensa da Santa Sé. Hoje, nos altos postos do
Vaticano não há cargo melhor do que este para se relacionar com a imprensa.
A
propósito, uma observação semelhante poderia ser feita quanto a García, jornalista experiente, bem-quista e muito respeitada no Vaticano, pessoa
que traz uma enorme boa vontade para o posto.
![]() |
GREG BURKE E PALOMA GARCÍA OVEJERO são profissionais de imprensa de reconhecida competência e experiência na cobertura do Vaticano. É a primeira vez na histórica, que uma mulher ocupa essa função! |
Nesse
sentido, Francisco irá receber os créditos
por nomear as pessoas certas para os cargos certos.
Terceiro,
Burke é membro do Opus Dei – na linguagem da própria organização, ele é um numerário, que significa que
ele é uma pessoa leiga que, não obstante, vive
uma vida celibatária. O Opus Dei é um grupo católico tipicamente visto como
conservador. Pelos padrões convencionais, o
posicionamento político pessoal de Burke (o que, aliás, nunca interferiu em
seu trabalho) provavelmente seria melhor
descrito como de centro-direita.
Numa
época em que alguns consideram o Papa Francisco um progressista que está
evitando nomear conservadores para cargos importantes, esta nomeação vai contra
tais estereótipos e convida analistas a ponderar sobre se, para o papa, o que mais
importa, em última instância, é a qualidade da pessoa ou a sua ideologia.
Por
fim, aos que têm boa memória, haverá uma tendência natural de ver Burke como
uma versão “2.0” de Joaquin
Navarro-Valls, leigo do Opus Dei
que serviu como porta-voz do papa durante grande parte dos anos de João Paulo
II.
Embora
haja uma certa lógica nesta comparação – além de serem do Opus Dei, ambos eram
também jornalistas profissionais antes de assumirem o cargo de porta-voz papal
–, a verdade é que o cenário midiático
que Burke tem, hoje, é completamente diferente.
O Twitter foi lançado no mesmo mês em que
Navarro renunciou, em julho de 2006; o Facebook
não havia ainda sido aberto para o público geral; e faltavam quatro anos para o
Instagram nascer.
E
mais: Navarro e Burke estão servindo papas muito diferentes, numa situação
global muito diversa.
Se
há algo realmente em comum é que tanto um quanto o outro tiveram o respeito dos
colegas jornalistas em Roma antes de cruzar a rua para trabalhar para o
Vaticano, o que quer dizer que ambos
trazem um tipo de credibilidade que não é fácil de se conquistar.
E
aqui está o bônus decorrente da nomeação que Francisco fez esta semana: ambos são leigos numa instituição
tradicionalmente dominada pelo clero.
De
fato, leigos já ocuparam estes postos
antes, mas nunca uma mulher, o que faz da escolha de García, em particular, um divisor de águas. Para um papa cujas advertências contra os perigos do clericalismo tornaram-se um
mote bastante presente, este é um caso onde Francisco está agindo de acordo com
o que diz.
Comentários
Postar um comentário