Cabeças que não se renovam nem obedecem!
Repreensão pública ao Cardeal Sarah mostra que
o Papa está disposto a usar a sua autoridade
Christopher
Lamb
The
Tablet
13-07-2016
Esse prelado propôs que os padres deveriam começar a se
virar de costas para a assembleia e ficar de frente para o Oriente ao rezar a
missa
Quando
acontece de haver uma discordância, a abordagem do Papa Francisco é a de evitar
o confronto direto com os envolvidos, preferindo, em vez disso, ignorar e
seguir em frente com o seu trabalho. Mas, no
caso do Cardeal Robert Sarah, ele fez uma
exceção.
Na semana passada, o prelado guineense de
71 anos anunciou, de forma unilateral, que os
padres deveriam começar a se virar de costas para a assembleia e ficar de
frente para o Oriente ao rezar a missa – algo que os tradicionalistas
litúrgicos frequentemente pedem, visto que é assim que o sacerdote celebra a
liturgia no Antigo Rito Latino.
Isso
tudo faz parte de uma agenda destinada a
uma “reforma da reforma”, que faria com que a missa que os católicos comuns
participam aos domingos ficasse mais parecida com a missa celebrada antes das reformas do Concílio Vaticano II.
Significaria haver mais latim, mais cantos, e menos participação dos fiéis.
Logo após o cardeal fazer as
suas observações, no entanto, o Vaticano divulgou um comunicado dizendo que não
haverá alterações nesta parte da liturgia e, sobretudo, que este assunto tinha sido
“expressamente acordado” durante uma recente audiência entre o cardeal e o
papa. O texto acrescenta que a “reforma
da reforma” deve ser evitada. [Leia esse
comunicado do Vaticano logo abaixo]
É extremamente incomum que
Vaticano venha a repreender publicamente um Príncipe da Igreja [cardeal], ainda que, neste
caso, tal repreensão não seja inteiramente surpreendente dada a forma como o
Cardeal Sarah tem atuado desde a sua nomeação para liderar o departamento
litúrgico da Santa Sé [Congregação para o Culto Divino e os Sacramentos].
Há uma série de incidentes
que revelam que o cardeal faz parte de um grupo, o qual parece estar
dificultando a vida deste papa: tomemos, por exemplo, o fato de que o dicastério
liderado pelo prelado africano levou
mais de um ano para implementar o pedido simples de Francisco para que mulheres
fossem incluídas no ritual de lava-pés da Quinta-Feira Santa.
Entre
os círculos conservadores de Roma, Sarah é em geral apresentado como um futuro
papa, com o devoto do Papa Bento XVI, Dom
Georg Gänswein, comparando o cardeal ao pontífice africano do século V, Papa Gelásio (Gänswein fez esta
comparação na véspera da visita de Francisco à África). [Há alguns padres, bispos e cardeais que gostariam, pelo que
denotam suas atitudes, comportamentos e pronunciamentos, retornar aos tempos
da Igreja medieval e pré-Vaticano II – o que é lastimável e incompreensível!]
Além
de cuidar da liturgia, Sarah escreveu
livros em que se opõe a alterações no ensino católico sobre a Comunhão aos
divorciados e recasados; durante o Sínodo dos Bispos sobre a família em
outubro passado, ele comparou as
“ideologias homossexuais e abortivas ocidentais” ao nazismo e ao terrorismo
islâmico. Dificilmente esta é a linguagem do papa, e é quase certo que ela não expressa o desejo papal por uma Igreja
mais misericordiosa e compassiva.
Tudo
isso deixou algumas pessoas se perguntando por que Francisco nomeou o cardeal
para o atual posto. Em certo sentido, nomear
um conservador neutraliza as guerras litúrgicas, enquanto que pôr uma figura liturgicamente mais
progressista durante um papado radical poderia
ser motivo para divisões ainda piores.
Por
seu lado, Francisco não é alguém
obcecado com questões litúrgicas: ele celebra as suas missas matinais de
frente para as pessoas em uma capela simples e moderna na Casa Santa Marta, ao
mesmo tempo em que se mostra feliz com o emprego do latim em grandes
celebrações papais.
Posto
tudo o que está em jogo aqui, a última
coisa que ele quer ver é um combate em torno da liturgia. Portanto, apesar
de sua aversão em confrontar as pessoas face a face, a maneira como o papa lidou neste caso do Cardeal Sarah mostra que ele
irá usar a sua autoridade se necessário.
Fonte: Instituto Humanitas
Unisinos – Notícias – Quinta-feira, 14 de julho de 2016 – Internet: clique aqui.
Vaticano declara:
não estão previstas novas diretivas litúrgicas
Sala de
Imprensa da Santa Sé
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PE. FEDERICO LOMBARDI Porta-voz e Diretor da Sala de Imprensa da Santa Sé |
O
Diretor da Sala de Imprensa da Santa Sé, Padre
Federico Lombardi, publicou uma nota de esclarecimento em relação à
divulgação de notícias nos meios de comunicação após uma conferência realizada
dias atrás em Londres pelo Cardeal Sarah,
Prefeito da Congregação para o Culto Divino.
«O
Cardeal Sarah sempre se preocupou com razão, pela dignidade da celebração da
Missa, exprimindo-se adequadamente sobre o comportamento de respeito e adoração
pelo mistério eucarístico. Algumas de
suas expressões foram, no entanto, mal interpretadas, como se anunciasse novas
indicações diferentes daquelas até agora contidas nas normas litúrgicas e nas
palavras do Papa sobre a celebração em direção ao povo e sobre o rito
ordinário da Missa», explica a nota.
Missal
Romano
«Por
isso – prossegue a declaração – é bom recordar que na Institutio Generalis
Missalis Romani (Instrução Geral do
Missal Romano), que contém as normas relativas à celebração eucarística e
ainda está em pleno vigor, no nº 299 diz: “Altare
extruatur a pariete seiunctum, ut facile circumiri et in eo celebratio versus
populum peragi possit, quod expedit ubicumque possibile sit. Altare eum autem
occupet locum , ut revera centrum sit ad quod totius congregationis fidelium
attentio sponte convertatur”. Isto é: “Onde for possível, o altar principal deve ser construído
afastado da parede, de modo a permitir andar em volta dele e celebrar a Missa
de frente para o povo. Pela sua localização, há de ser o centro de convergência, para o qual espontaneamente se
dirijam as atenções de toda a assembleia dos fiéis”».
Forma
ordinária
«Por
sua vez – continua o texto – o Papa Francisco, por ocasião da sua visita à
Congregação para o Culto Divino, recordou expressamente que a forma “ordinária” da celebração da Missa
é a prevista pelo Missal promulgado por Paulo VI, enquanto a “extraordinária”, que foi permitida
pelo Papa Bento XVI para as finalidades e com as modalidades por ele explicadas
no Motu Proprio Summorum Pontificum, não deve tomar o lugar da “ordinária”».
Portanto
– conclui Padre Lombardi – «não são
previstas novas orientações litúrgicas a partir do próximo Advento, como
alguns erroneamente deduziram de algumas palavras do Cardeal Sarah, e é melhor evitar o uso da expressão “reforma
da reforma”, referindo-se à liturgia, devido ao fato que, por vezes, foi fonte
de mal-entendidos».
«Tudo isso – reitera o documento – foi expresso de modo concorde durante uma
recente audiência concedida pelo Papa ao Cardeal Prefeito da Congregação para o
Culto Divino». [Como o cardeal contrariou a
diretiva do papa, foi corrigido pelo porta-voz da Santa Sé.]
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