Em uma coisa todos estão de acordo: educação!
A esquerda encontra a direita
Samuel Pessôa*
O maior desafio de nossa
sociedade será desenhar políticas públicas que retirem a «ralé», 1/3 da
população aproximadamente, da armadilha de pobreza em que se encontra
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SEM UMA EDUCAÇÃO PÚBLICA DE QUALIDADE o futuro de nossas crianças e adolescentes da periferia não será muito diferente desta fotografia acima!!! |
No
último mês, dois garotos, de 10 e 11 anos, foram mortos em confronto com a
polícia. As duas crianças vinham de famílias carentes, com muitos irmãos.
Segundo este jornal [Folha de S. Paulo],
pesquisa recente do Ministério Público de São Paulo sugere que a falta da figura paterna, caso de uma das
famílias, pode explicar parte do problema do envolvimento de crianças e
adolescentes com a criminalidade. Essa constatação, claro, não exime a
polícia pelo uso de força desproporcional, resultando em mortes desnecessárias.
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JESSÉ DE SOUZA Sociólogo ex-presidente do Ipea |
O
sociólogo Jessé Souza, até
recentemente presidente do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), sugere, em dois volumes escritos com
diversos colaboradores – «A Ralé
Brasileira: Quem É e Como Vive» e «Os
Batalhadores Brasileiros» –, que o
ambiente doméstico representa fortíssimo fator perpetuador da pobreza.
Segundo
Jessé, «a família típica da “ralé” é
monoparental, com mudanças frequentes do membro masculino, enfrenta problemas
sérios de alcoolismo e de abuso sexual sistemático e é caracterizada por uma
cisão que corta essa classe ao meio entre pobres honestos e pobres delinquentes».
Já
os batalhadores,
que conseguiram melhorar de vida, internalizaram
as «disposições nada óbvias do mundo do trabalho moderno: disciplina,
autocontrole e comportamento e pensamento prospectivo».
Diferentemente
do que se imagina, «essas disposições
têm que ser aprendidas, embora seu aprendizado seja difícil e desafiador e não
esteja ao alcance de todas as classes» (citações de «Os Batalhadores...», páginas 50 e 51).
Pensadores
liberais, como Eugênio Gudin e Carlos Langoni, sempre identificaram a
enorme importância que a educação tem para o desenvolvimento econômico.
Diferentemente
deles, os economistas heterodoxos ou estruturalistas nunca conseguiram enxergar
nenhum papel da educação para o desenvolvimento econômico. Celso Furtado, por exemplo, apesar de ter se dedicado ao tema por
40 anos e em 30 livros, em nenhum
momento associou desenvolvimento à educação.
Nos
últimos anos, consolidou-se o
entendimento de que um sistema público de educação
de qualidade é um dos elementos principais para o desenvolvimento
econômico e a equidade.
Mais
recentemente, a economia acadêmica vem reconhecendo a enorme importância dos primeiros anos de vida e de um ambiente
doméstico estruturado para preparar a criança para a escola formal. [A família bem estruturada e equilibrada é fundamental
para o bom desenvolvimento do ser humano! Finalmente, estão concordando com a
Igreja Católica que insiste sobre este tema há séculos, séculos, seculorum!]
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JAMES HECKMAN Economista - Prêmio Nobel de Economia (2000) |
James Heckman, Prêmio Nobel de Economia e
professor da Universidade de Chicago, tem acumulado conjunto impressionante de
evidências nessa direção. O leitor interessado pode consultar o link heckmanequation.org/blog ou a página do economista
brasileiro Flávio Cunha (flaviocunha.com).
Sabe-se
que, nos primeiros anos de vida, as
habilidades cognitivas, essencialmente pensamento analítico, e as não cognitivas,
esforço e persistência, capacidade de suportar frustração, autoestima etc., são
desenvolvidas. Se o ambiente doméstico nos primeiros anos de vida não for
propício para o desenvolvimento desse conjunto de capacidades, o desempenho
escolar será comprometido.
Assim,
o maior desafio de nossa sociedade será
desenhar políticas públicas que retirem a «ralé», 1/3 da população
aproximadamente, segundo Jessé, da
armadilha de pobreza em que se encontra.
Sinal
auspicioso é que a esquerda parece ter descoberto algo que a direita já sabia
há muito tempo. [Afinal, igualdade não se promove
na canetada, ou seja, por decreto ou boa intenção!]
* SAMUEL PESSÔA é formado em física e doutor em economia
pela USP e pesquisador do Instituto Brasileiro de Economia da FGV.
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