As respostas aos demônios que nos perseguem
Entrevista
com Zygmunt Bauman*
Sociólogo
e filósofo polonês
Davide Casati
Jornal “Corriere
della Sera” – Milão (Itália)
25-07-2016
Vivemos
uma época marcada pelo medo e pela incerteza.
«E
não devemos nos iludir: os demônios que nos perseguem não vão evaporar porque sua
origem tem a ver com os mesmos elementos constitutivos da nossa sociedade e das
nossas vidas.»
Eis
a entrevista.
Professor
Bauman, diante da corrente de ataques desses dias, a Europa se vê fazendo as
contas com um abismo de medo e de insegurança. Que respostas podem preenchê-lo?
Zygmunt Bauman: As raízes da insegurança
são muito profundas. Elas afundam no nosso modo de vida, são marcadas pelo enfraquecimento dos laços interpessoais,
pelo desmoronamento das comunidades,
pela substituição da solidariedade
humana pela concorrência sem limites, pela tendência de confiar nas mãos dos indivíduos a resolução de problemas
de relevância mais ampla, social. O medo gerado por essa situação de
insegurança, em um mundo sujeito aos
caprichos de poderes econômicos desregulados e sem controles políticos,
aumenta, s e difunde para todos os aspectos das nossas vidas. E esse medo busca
um objetivo para se concentrar. Um objetivo concreto, visível e ao alcance das
mãos.
Um
objetivo que muitos identificam no fluxo de refugiados e migrantes.
Zygmunt Bauman: Muitos deles vêm de uma
situação em que estavam orgulhosos com a sua posição na sociedade, com o seu
trabalho, com a sua educação. Porém, agora, são refugiados, perderam tudo. No momento da sua chegada, entram em
contato com a parte mais precária das nossas sociedades, que vê neles a
realização dos seus pesadelos mais profundos.
Diante
desse desafio, multiplicam-se os chamados, por parte de algumas forças
políticas, à construção de novos muros. Trata-se de uma resposta sensata?
Zygmunt Bauman: Eu acho que se devem estudar,
memorizar e aplicar as análises que o Papa Francisco, no seu discurso de
agradecimento pelo Prêmio Carlos Magno,
dedicou aos perigos mortais do
"aparecimento de novos muros na Europa". Muros erguidos –
paradoxalmente e de má fé – com a intenção e a esperança de se proteger da
agitação de um mundo repleto de riscos, armadilhas e ameaças. O pontífice
observa, com profunda preocupação, que, se os pais fundadores da Europa,
"mensageiros de paz e profetas do futuro", nos inspiraram a
"criar pontes e derrubar muros", a família de nações que eles
promoveram parece ultimamente "cada vez menos à vontade na casa comum. O desejo novo e exaltante de criar unidade
parece desaparecer; nós, herdeiros desse sonho, somos tentados a nos deter
apenas nos nossos interesses egoístas e a criar barreiras".
Nos
seus estudos, o senhor indicou como valores fundadores
das nossas sociedades a LIBERDADE e a SEGURANÇA: depois de uma época em
que, para fazer crescer a primeira, renunciamos progressivamente à segunda,
agora, o pêndulo está invertendo o seu curso. Que reflexos políticos decorrem
daí?
Zygmunt Bauman: Diante de nós, temos
desafios de uma complexidade que parece insuportável. E, assim, aumenta o desejo de reduzir essa
complexidade com medidas simples, instantâneas. Isso faz crescer o fascínio de "homens fortes", que prometem – de modo irresponsável,
enganoso, bombástico – encontrar aquelas medidas, resolver a complexidade.
"Deixem comigo, confiem em mim", dizem, "e eu vou resolver as
coisas". Em troca, pedem uma obediência incondicional.
Parece
aquilo que está sendo proposto pelo candidato à presidência dos Estados Unidos
Donald Trump, cujas posições sobre segurança e imigração foram recentemente
indicadas pelo presidente húngaro Viktor Orban como modelos para a Europa...
Zygmunt Bauman: O que estamos assistindo é
uma tendência preocupante: reivindicações
de tipo social, como a integração e a
acolhida, são indicadas como
problemas a serem confiados aos órgãos de polícia e de segurança. Isso
significa que o estado de saúde do espírito fundador da União Europeia não está
com boa saúde, porque a característica decisiva da inspiração na base da União
Europeia era a visão de uma Europa em que as medidas militares e de segurança
se tornariam – gradual mas constantemente – supérfluas.
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REFUGIADO DO AFEGANISTÃO CARREGA SEU FILHINHO enquanto caminha entre cercas na divisa da Grécia com a Macedônia |
O
Islã é indicado por algumas forças políticas – por exemplo, a alemã Pegida** – como uma fé intrinsecamente violenta,
incompatível com os valores ocidentais. O que o senhor pensa a respeito?
Zygmunt Bauman: Absolutamente é preciso
evitar o erro, perigoso, de tirar conclusões de longo prazo a partir das
fixações de alguns. É claro, como disse o grandíssimo sociólogo alemão Ulrich Beck, no fundo da nossa atual
confusão, está o fato de que já estamos
vivendo uma situação "cosmopolita" – que nos verá destinados a
coabitar de modo permanente com culturas, modos de vida e fés diferentes – sem
ter desenvolvido completamente as capacidades de compreender as suas lógicas e
os seus requisitos: ou seja, sem ter uma "consciência
cosmopolita". E é verdade que preencher a lacuna entre a realidade em que
vivemos e a nossa capacidade de compreendê-la não é um objetivo que se alcança
rapidamente. O choque está apenas
começando.
Então,
estamos destinados a viver em sociedades nas quais o sentimento dominante será
o do medo?
Zygmunt Bauman: Trata-se de uma perspectiva
sombria e perturbadora, mas cuidado: o destino de sociedades dominadas pelo
medo, de fato, não está predeterminado, nem é inevitável. As promessas dos
demagogos pegam, mas também têm, por sorte, uma vida curta. Uma vez que novos
muros sejam erguidos e mais forças armadas sejam postas em campo nos aeroportos
e nos espaços públicos; uma vez que àqueles que pedem asilo de guerras e
destruições essa medida seja rejeitada, e que mais migrantes sejam repatriados,
ficará evidente que tudo isso é
irrelevante para resolver as causas reais da incerteza. Os demônios que nos perseguem – o medo
de perder o nosso lugar na sociedade, a fragilidade dos marcos que alcançamos –
não vão evaporar nem desaparecer.
Naquele ponto, poderemos acordar e desenvolver anticorpos contra as sereias de falastrões e populistas que
tentam ganhar capital político com o medo, desviando-nos do caminho. O
temor é que, antes que esses anticorpos sejam desenvolvidos, muitos verão suas
próprias vidas sendo desperdiçadas.
O
senhor defendeu que as possibilidades de hospitalidade não são ilimitadas, mas
também não o é a capacidade humana de suportar o sofrimento e a rejeição.
Diálogo, integração e empatia, porém, requerem tempos longos...
Zygmunt Bauman: Vou lhe responder citando o
Papa Francisco mais uma vez: "Sonho com uma Europa em que ser migrante não
é crime, que promove e protege os direitos de todos, sem esquecer os deveres
para com todos. O que te aconteceu,
Europa, principal lugar dos direitos humanos, democracia, liberdade, terra
natal de homens e mulheres que arriscaram e perderam a própria vida pela
dignidade dos próprios irmãos?". Essas perguntas são dirigidas a todos
nós; a nós que, como seres humanos, somos moldados pela história que ajudamos a
moldar, conscientemente ou não. Cabe a
nós encontrar respostas a essas perguntas e a expressá-las em atos e palavras.
O maior obstáculo para encontrar essas
respostas é a nossa lentidão para procurá-las.
* ZYGMUNT BAUMAN (nasceu em Poznań, no dia 19 de novembro de
1925) é um sociólogo polonês. Serviu na Segunda Guerra Mundial pelo exército da
União Soviética e conheceu sua esposa, Janine Bauman, nos acampamentos de
refugiados polacos. Nos anos 1940 e ‘50 foi militante entusiasmado do Partido
Comunista Polaco, até se desligar da organização devido ao fracasso da
experiência socialistas no leste europeu. Graduou-se em sociologia na URSS e,
por seu status de combatente, conseguiu ascender socialmente: saiu da condição
modesta que seus pais lhe propiciaram durante a juventude e tornou-se professor
universitário. Iniciou sua carreira na Universidade
de Varsóvia, de onde foi afastado em 1968, após ter vários livros e artigos
censurados. Emigrou então da Polônia, por motivo de perseguições antissemitas,
e na Grã-Bretanha tornou-se professor titular da Universidade de Leeds (1971 em diante). Recebeu os prêmios Amalfi
(1989, por sua obra Modernidade e
Holocausto) e Adorno (1998, pelo conjunto de sua obra). É professor emérito
de sociologia das universidades de Leeds e Varsóvia. Para saber mais e conhecer
quais obras desse renomado filósofo e sociólogo estão traduzidas no Brasil, clique
aqui.
** PEGIDA, sigla para Patriotische Europäer gegen die Islamisierung des Abendlandes (em
alemão) ou Europeus Patriotas contra a
Islamização do Ocidente (em português), é uma organização que se opõe à
imigração de muçulmanos na Alemanha, com base na cidade de Dresden. Desde 20 de
outubro de 2014, o PEGIDA organiza demonstrações públicas contra o governo
alemão e aquilo que considera ser a islamização do Ocidente. Fonte: Wikipédia.
Traduzido
do italiano por Moisés Sbardelotto.
Acesse a versão original deste artigo, clicando aqui.
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