Não é uma guerra entre religiões ! ! !
"Não é uma cruzada.
É uma guerra moderna e totalmente ideológica”
Entrevista
com Franco Cardini
Historiador,
especialista em Cruzadas
Roberto Zunini
Jornal “Il
Fatto Quotidiano”
27-07-2016
Um padre capturado no altar e assassinado:
é realmente uma guerra religiosa?
O
Estado Islâmico fala de "a guerra contra os cruzados cristãos". No
Ocidente, somente algumas direitas ou alguns fundamentalismos aceitavam essa
linguagem. Estão aumentando?
Franco Cardini: A "Internacional"
dos imbecis é ampla: a Guerra Santa é
imaginária, não tem nada a ver com as Cruzadas históricas nem com a jihad.
Poderia ter uma relação com as guerras descritas por Saint-Just no discurso para a Convenção de 1793, "as guerras do povo devem ser cruéis e
totais", ou com os furores bélicos que animavam os cristeros no
México, ou falangistas e anarquistas na guerra da Espanha...
Mas,
desta vez, quem foi atacado foi um padre na igreja: algo muda?
Franco Cardini: Matar um padre enquanto ele celebra é uma declaração de guerra, não uma
declaração islâmica. Precedentes históricos existem, e não é preciso voltar às Cruzadas: São Thomas Beckett foi morto no altar
por sicários do seu rei; os assassinos do regime em El Salvador pegaram Dom Romero na sua igreja. Houve mortes
de muçulmanos nas mesquitas em Jerusalém e mortes de cristãos por parte de
muçulmanos em Otranto, em 1480... Mas assim, a frio, esses dois, armados apenas
com uma arma branca, fizeram uma paródia blasfema do ato de Abraão. Uma coisa horrível, mas que não tem nada de
cristão ou de muçulmano: é um ato de loucura política.
Mas
não é diferente matar alguém no Bataclan [boate de
Paris] ou em uma igreja?
Franco Cardini: Sim, mas é um ato de guerra
também religiosa somente na sua mentalidade. Na realidade, são assassinatos infames, ponto.
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NICOLAS SARKOZY Pregando uma "resposta impiedosa" aos atos terroristas na França! |
E
a resposta da França? Agora, o ex-presidente Sarkozy pede uma “resposta
impiedosa”. E é a direita gaullista, não a lepenista...
Franco Cardini: Isso significa que vão
atacar o califa no coração do seu poder, em Mosul? Precisamos nos preocupar com
o fato de que um homem como Sarkozy tenha sido presidente, e da França, não de
San Marino. Até hoje, a França matou
impiedosamente centenas de mulheres e crianças que não tinham nada a ver,
depois que Hollande ordenou os bombardeios na Síria.
Bombardear
é uma coisa. Mas como impedir que alguém que está sob prisão domiciliar circule
por aí com uma faca?
Franco Cardini: Esta seria uma resposta
rigorosa, não impiedosa: eu não acho que Sarkozy quer entrar na mesquita de
Paris e atirar contra os fiéis, ou fazer blitzes indiscriminadas nas banlieue [periferias]. Seria justamente o que o califa quer de
nós: reações insanas. Até mesmo os militares não diriam "resposta
impiedosa". Resposta rigorosa, sim,
mas dentro do Estado de direito. Apertar os controles, sim, mas civil e
legalmente. E isso requer um compromisso sério.
A
Europa tem os recursos para enfrentar esses ataques sem sofrer uma modificação
genética?
Franco Cardini: Historicamente, essas
ameaças muitas vezes despertam o senso cívico. É necessária uma resposta séria
e compacta de todo o povo francês, das instituições aos seus cidadãos, que deve
passar, em primeira linha, pelos cidadãos muçulmanos. O califa quer que nós isolemos os muçulmanos, que os nossos jovens
batam nos jovens muçulmanos na escola. É isso que é preciso evitar. A
linguagem da resposta impiedosa serve apenas para agradar um pouco ao
subproletariado que está no bar e diz: "Eu iria lá e mataria todos". Depois, você lhe pergunta:
"Lá onde?", e ele não sabe responder.
Traduzido
do italiano por Moisés Sbardelotto.
Acesse a versão original desta entrevista, clicando aqui.
Oriente Médio:
quem instrumentaliza as religiões
Entrevista
com Georges Corm
Economista
e historiador libanês, consultor de diversas organizações internacionais
Chiara Zappa
Jornal “Avvenire”
(Itália)
27-07-2016
GEORGES CORM |
Dhaka,
Istambul, Nice. E, mais uma vez, as vítimas de Bruxelas, assim como as de
Tunis, o Bataclan, assim como o bar Pulse, em Orlando: a atualidade nos obriga
a uma terrível contabilidade de morte que parece não se esgotar nunca. O rastro de terror de matriz
fundamentalista que está ensanguentando o mundo causa vertigens e
inevitavelmente traz argumentos para a
interpretação daqueles que, das salas de TV aos think tank geopolíticos, relacionam a violência com um
irreconciliável conflito entre culturas e religiões.
A
teoria do choque de civilizações, exposta por Samuel Huntington no seu ensaio de 1996 e que, depois, se difundiu
com uma sorte surpreendente do mundo acadêmico ao da mídia, está hoje na base
de todas as leituras mais credenciadas das tensões que atravessam o presente,
que se encobrem de motivações confessionais e afirmações identitárias.
"Mas cair nessa
armadilha significa fazer justamente o jogo dos terroristas": a convicção é de Georges Corm, economista e historiador
libanês, consultor de diversas organizações internacionais (incluindo a União
Europeia e o Banco Mundial), que dedicou
décadas de estudo para analisar as dinâmicas da área mediterrânea.
Para
o eclético intelectual cristão nascido em Alexandria em 1940, ministro da
Economia do Líbano de 1998 a 2000, professor em várias universidades também
europeias – atualmente na Saint Joseph
University, em Beirute –, exatamente a 100 anos dos acordos de Sykes-Picot
que dividiram entre a França e o Reino Unido as províncias árabes do Império
Otomano, os efeitos nefastos da famosa
"linha na areia" que lançou as bases geopolíticas do atual Oriente
Médio continuam evidentes no caos endêmicas da região.
Uma
instabilidade que tem muito pouco a ver com as supostas diferenças irredutíveis
entre civilizações, como ele defendeu em textos como Oriente Occidente. Il mito di una frattura [Oriente-Ocidente. O
mito de uma fratura] (Vallecchi, 2003), Il
mondo arabo in conflitto [O mundo árabe em conflito] (Jaca Book, 2005), ou
o mais recente Il nuovo governo del mondo
[O novo governo do mundo] (Vita e Pensiero, 2013).
Mas é no ensaio Contro il conflitto di civiltà. Sul "ritorno del religioso"
nei conflitti contemporanei del Medio Oriente [Contra o choque de
civilizações. Sobre
o "retorno do religioso" nos conflitos contemporâneos do Oriente
Médio], agora traduzido pela editora Guerini e Associati (234 páginas), que Corm se dedica de modo sistemático a
refutar leituras considerados simplistas e "cômodas" demais de
fenômenos com uma complexidade histórica, econômica e política muito mais
profunda.
Eis
a entrevista.
O
senhor cita alguns eventos da história recente que efetivamente trouxeram a
religião novamente para o cenário global: por que defende que estamos diante
não de um "retorno do religioso", mas de um "recurso ao religioso"
para fins instrumentais?
Georges Corm: Depois
da Segunda Guerra Mundial, assistimos à emergência de Estados que pretendiam
ser porta-vozes de uma religião: pensemos no Paquistão, baseado no Islã, ou em Israel, constituído sobre o judaísmo, apesar do fato de os
fundadores se sentirem laicos. Mas também a Arábia Saudita, onde o apoio dos Estados Unidos permitiu que a
família Saud, em aliança com a corrente wahhabita, criasse um reino fundado
sobre o radicalismo sunita, cuja riqueza devida ao petróleo, depois, influenciou
fortemente as políticas na região.
É a
mesma lógica que explica o treinamento, por parte dos Estados Unidos, de
combatentes islamistas em função antissoviética no Afeganistão, que, depois,
lançou as bases da Al-Qaeda: um fruto da estratégia do consultor de Jimmy
Carter para a segurança nacional, Zbigniew Brzezinski, que visava a instrumentalizar a religião contra o comunismo. Eis o
ponto: em todos esses casos, a fé é
posta em causa para ser posta a serviço de outros interesses.
A
análise política hoje, no entanto, se concentra sobre fatores como a identidade
e a cultura, mais do que nas causas profanas dos conflitos...
Georges Corm: Embora seja um dado de bom
senso o fato de que as guerras provêm da
ambição humana – pelo acesso aos recursos, às rotas estratégicas, às trocas
econômicas internacionais –, o marco intelectual fornecido por Huntington –
essencialmente, uma revisita à velha tese racista do século XIX, que via a
contraposição entre arianos e semitas – deu legitimidade a uma série de
escolhas geopolíticas, principalmente as invasões estadunidenses do Afeganistão
e do Iraque. Nesse contexto, os princípios do direito internacional já são
aplicados de forma diferente dependendo da identidade confessional dos diversos
Estados e da sua relação com as potências ocidentais.
Sem
falar daqueles que usam a fé para mobilizar as massas...
Georges Corm: Exato. Com a agravante de
que, quanto mais ela [a religião, a
fé] é utilizada como legitimação para
atos de governo, internos ou internacionais, menos os cidadãos ousam pôr tais
atos em discussão. Trata-se de um
método eficaz para paralisar o espírito crítico do povo em relação ao poder,
no Ocidente e no Oriente Médio.
Depois
do choque das guerras mundiais no século XX, quando nos confrontamos
dramaticamente com os limites dos valores iluministas e marxistas, verificou-se
um deslocamento para o multiculturalismo: o
conceito de igualdade perante a lei foi abandonado em favor do "direito de
ser diferente", como uma forma avançada de democracia capaz de
acomodar as especificidades étnicas ou religiosas dos cidadãos.
No
entanto, isso abre caminho para muitas
ambiguidades. Por exemplo, de acordo
com alguns, os imigrantes não têm o dever de se integrar nos contextos de
acolhida, porque é preciso permitir que eles afirmem a própria identidade. Mas é um conceito perigoso.
É
o que o senhor define como o risco da comunitarização do mundo: o que
significa?
Georges Corm: A história demonstra que, quando as diferenças de cada comunidade
individual são organizadas politicamente dentro de uma sociedade, vai-se de
encontro com tensões permanentes: observamos isso em contextos que vão da
Bélgica (com os contrastes entre flamengos e valões) ao Irã (com a fossilização
da identidade xiita depois da revolução de 1979) e, de modo marcante, no meu
Líbano, onde vigora uma divisão até institucional entre cristãos, muçulmanos e
grupos diversos que se referem ao Islã. Um
mecanismo que, mais do que proteger as diversidades, no fim, parece favorecer o
divide et impera [divide e
domina]. Eu defendo, por experiência, que, se, por um lado, é sacrossanto
perorar os direitos das minorias, por exemplo, as minorias hoje ameaçadas no
Oriente Médio, por outro, o marco de um
Estado laico é indispensável para a democracia.
Traduzido do italiano por Moisés Sbardelotto. Acesse a versão
original desta entrevista, clicando aqui.
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