O teólogo que, silenciosamente, faz a revolução
Alberto
Melloni*
Jornal “La
Repubblica” – Roma
07-07-2016
Libertar a pessoa dos reducionismos que oferecem chaves
simplistas
para se compreender a realidade e viver a fé
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TIMOTHY RADCLIFFE Teólogo dominicano inglês que dialoga com o mundo atual e busca o novo sentido do ser Igreja |
Entre as duas guerras
mundiais do século XX, aconteceu algo imprevisível no catolicismo. A Igreja de
Roma trazia dentro de si instâncias integristas. Mais datadas, mas não
dessemelhantes aquelas que percorriam, na mesma altura cronológica, os batistas
estadunidenses, que tinham se dado o nome de "fundamentalistas", ou
os islãs da Arábia, pegos entre a utopia política da Irmandade Muçulmana e a
fundação do novo reino wahabita.
No catolicismo, o intransigentismo [movimento intransigente,
que não cede, não dialoga] tinha nas mãos
todas as alavancas do poder eclesiástico. No entanto, encontrou-se diante
de uma geração de teólogos capazes
de descobrir na história a chave dos modos de serem esquecidos:
* Marie-Dominique Chenu
(1895-1990): dominicano francês, especialista em Idade Média, realizou estudos
teológicos, era grande especialista em São Tomás de Aquino;
* Yves Marie-Joseph Congar
(1904-1995): teólogo dominicano francês, foi considerado um dos maiores
eclesiologistas do século passado;
* Henri Marie-Joseph Sonier de Lubac (1896-1991): teólogo francês jesuíta, foi
professor de Teologia Sistemática, mas pesquisa em todos os campos teológicos;
* Jean Guenolé Marie Daniélou (1905-1974): teólogo jesuíta francês,
estudou a conexão entre a fé e a teologia contemporânea, o problema da Verdade,
a relação entre a natureza e a graça e aprofundou também o tema do marxismo;
* Hans Urs von Balthasar (1905-1988): presbítero e teólogo suíço, foi
jesuíta até 1950, é considerado um dos maiores e mais influentes teólogos do
século XX;
* Alois Grillmeier (1910-1998): teólogo
jesuíta alemão, especializado em Teologia Dogmática e história dos dogmas;
deslegitimavam a ideia de um
cristianismo monolítico, satisfeito por resistir imóvel às ondas. Pagaram por isso. E, se
fizeram teologia de joelhos ou de pé, foi porque lhes removeram a cadeira,
embora alguns fizeram deles cardeais em idade pré-mortuária.
Assim
como a condenação do
"modernismo" no início do século passado tinha descerebrado o catolicismo [feito o catolicismo perder o
tino, o juízo], tornando-o cego diante dos fascismos, a perseguição das "nouvelle
théologie" [a nova teologia produzida, sobretudo, por franceses] poderia ter entregue a Igreja de Roma a
processos involutivos de resultados impensáveis. Se isso não aconteceu foi
pela sua capacidade de (não) esperar por aquilo que tardava e que apareceu de
repente: o Papa João XXIII, o Concílio.
Em
vez de esperar por reabilitações ou de pedir ressarcimentos, acumularam uma inteligência que não
enrijeceu na repreensão e geraram a herança intelectual que fecundou o Concílio
Vaticano II.
Essa herança se prolongou, e
dela faz parte Timothy Radcliffe. Um dominicano que foi
discípulo de Chenu, depois Mestre Geral
da Ordem dos Pregadores [dominicanos] de 1992 a 2001, para finalmente voltar a
ser frade em Oxford, com naturalidade.
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MARIE-DOMINIQUE CHENU teólogo dominicano que foi professor de Radcliffe |
Radcliffe é um homem
corajoso.
Quando dizer aquilo que hoje o papa diz sobre os gays significava dar um chute
no chapéu cardinalício e na carreira eclesiástica, Radcliffe tomava posição,
sem tormento, sem arrependimentos.
E
mesmo agora, quando uma conferência sua
é interrompida por um grupo de zelotes armados com rosário para lhe tirar a
palavra, quando os seus coirmãos depreciam o neorritualismo garboso de tantos
jovens padres e frades, ele não se amargura: e continua o seu trabalho de desconstrutor das caricaturas sobre o
cristianismo.
Fazem
parte disso as conferências reunidas no livro Il bordo del mistero [A borda
do mistério] (Ed. EMI). Para aqueles que esperam que o ex-mestre geral abra
um livro citando o papa ou São Tomás ou, ao menos, Jesus, ele oferece como
início Naomi Klein – feminista,
judia e laica.
Para
aqueles que pensam que um dominicano deve ter um mínimo complexo de culpa
diante dos albigenses (os hereges
exterminados na cruzada do início do século XIII), ele explica que os frades pregadores devem continuar
combatendo o desprezo do corpo e da alegria, que ainda tentam o
cristianismo e a cultura secular atual.
Para
aqueles que gostam de um uso vingativo ou corporativo do registo
autobiográfico, ele oferece apenas episódios úteis para testemunhar que a fé cristã pode (não mais do que isto:
pode) libertar da prisão do eu
insaciável. E mostra a sua alegre liberdade interior quando confessa que, segundo ele, as pessoas veem
a Igreja como um grupo de "homens
idosos vestidos de modo estranho que dizem às pessoas como elas devem se
comportar na cama".
O estilo de Radcliffe é leve; as citações são graciosas; as
questões bíblicas e teológicas, reduzidas ao mínimo. Porém, nem mesmo essas
suas intervenções pertencem à insuportável série de livros piedosíssimos,
feitos de uma gosma espiritualista. Aqueles que pregam a alegria obrigatória do
"Jesus te ama" (que Radcliffe define como deprimente) e denunciam,
pensativos, o "vazio" dos jovens.
Não,
Radcliffe é diferente: ele põe com graça "a" questão. Que não é
especificamente religiosa. Na modernidade global, de fato, os fundamentalismos
como busca de uma pequena pátria, como adesão a um círculo de seguidores, são a
única coisa comum a todos os pertencimentos: há um fundamentalismo científico,
um fundamentalismo de mercado, muitos fundamentalismos religiosos: portanto,
"somos afligidos por diversos modos
de pensar reducionistas, que oferecem chaves simplistas para compreender a
realidade".
Sim,
a realidade: qual é a realidade do
cristianismo? Depois:
* de
um catolicismo satisfeito com as suas
condenações e
* de
um catolicismo satisfeito com o seu
Concílio,
* depois
de um catolicismo reivindicado como um
comprimido de "sentido" a ser tomado após as refeições,
* de
um catolicismo especializado em
desgraças,
qual é o futuro da Igreja?
Federar
[compartimentar, isolar] gostos suavizando os seus conflitos? Ou esperar que um
papa – no mínimo, o "papa jovem" pintado por Paolo Sorrentino –
expulse aquilo que não lhe agrada, ao custo de expulsar a todos? Tornar-se uma
Igreja low cost que se alegra por ser
apocalíptica? Ou deve se resignar a servir de pneu reserva para identidades
políticas reacionárias e frágeis, induzidas a desprezar o estrangeiro e a
defender o presépio?
Para
Radcliffe, as fés têm outra função: a de narrar um tempo longo em que não
acontece nada e no qual a alegria é silenciosa: "Eu acho que, no coração do cristianismo, há uma alegria
tranquila, suficientemente profunda a ponto de abraçar até os momentos de
sofrimento e de escuridão. É uma alegria que é fruto da intensa oração e do silêncio".
Porque
só a impotência de uma pergunta permite
tocar na borda do mistério, deixando que
o vazio não se encha com banalidades
sentimentais e arrogância teológica,
perdendo a sua característica mais preciosa.
L I V R O
Título: Il bordo del mistero. Aver fede nel tempo dell'incertezza
Autor: Timothy
Radcliffe
Editora: EMI
Língua: italiano
Ano de publicação: 2016
Páginas: 141
Preço: €
14,00
* ALBERTO MELLONI é historiador italiano e professor da
Universidade de Modena-Reggio Emilia e diretor da Fundação de Ciências Religiosas João XXIII, de Bolonha.
Traduzido
do italiano por Moisés Sbardelotto com
adaptações livres realizadas por Telmo
José Amaral de Figueiredo. Para acessar a versão original do artigo, clique
aqui.
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