Caciques brancos criam a "nova Belo Monte"
A hidrelétrica de São Luiz do Tapajós
violenta as terras, a sobrevivência, a cultura e
a alma dos índios da região
Ruy Castro
Megaprojetos foi uma marca registrada da Ditadura
Militar
no Brasil, parece que estão ressuscitando-os
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ÍNDIOS DA TRIBO MUNDURUKU Na foto eles navegam pelo rio das Tropas, um dos afluente dos rios Tapajós e Amazonas, em busca de minas de ouro e mineiros ilegais em seu território. |
Contra
a vontade da ONG Greenpeace, do Ibama, da Funai, da Constituição
Federal e dos 12 mil cidadãos da
tribo mundurucu, os caciques brancos querem construir uma hidrelétrica em São Luiz do Tapajós, no
Pará. Para os indígenas, o rio Tapajós é sagrado. Para os estrategistas, é apenas um gerador de megawatts, mesmo que,
para isso, se tenha de passar o rodo em várias aldeias, alagando-as ou
ilhando-as. É natural que isso desagrade aos mundurucus — afinal, a terra é
deles desde que a conquistaram nos séculos 17 e 18.
Sim,
eu sei, o Brasil precisa de energia para
tocar suas indústrias, iluminar seus salões e fazer rodar seus secadores de
cabelo. A pergunta é se isto precisa
ser à custa do ambiente e de propriedades, culturas e vidas. Sem falar nos
interesses ocultos, nem sempre tão ocultos, como se diz a respeito de outra
hidrelétrica, a de Belo Monte, também no Pará, e da famosa transposição do rio
São Francisco. Todas essas obras eram
gerenciadas pelo PT.
O Brasil dos militares
também gostava de obras assim, ditas então faraônicas. Era o "Brasil
Grande",
aquele que nada, nem o bom senso, conseguiria deter. Algumas provavelmente não
seriam permitidas hoje, como a usina de
Angra, uma granada sem pino numa das baías mais deslumbrantes do mundo, e Itaipu, afogando o Salto das Sete
Quedas, que a natureza levara milhões de anos para construir. A grita contra
elas talvez impedisse que fossem cometidas.
E
olhe que tivemos sorte. A ditadura acabou antes que eles cogitassem ousadias
como o aterro do rio Amazonas, o elevado Rio-São Paulo, o túnel Oiapoque-Chuí
ou o porto de mar de Brasília. O fato de essas ideias estarem a um passo da
insanidade não impediria que fossem levadas a sério — tudo era possível naquele
tempo.
Pensando bem, tudo continua
possível em nosso tempo.
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