A fase do capitalismo impotente
Entrevista
com David Graeber
Arthur DeGrave
Sistema afastou-se da criatividade e invenção.
Avarento, conta tostões.
Para enfrentá-lo, faltam movimentos também capazes de
ir além
dos velhos programas
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DAVID GRAEBER |
David Graeber é um
antropólogo e anarquista renomado. Foi um dos criadores do Movimento Occupy em 2011. É o autor do livro Dívida: os primeiros 5000 anos,
muito aclamado pela crítica [publicado no Brasil em 2016 pela Três Estrelas].
Encontrei-o em Paris, no lançamento do seu últimos livro “The Utopia of Rules: On Technology, Stupidity, and the Secret Joys of
Bureaucracy” [“A utopia das regras: Sobre tecnologia, estupidez e os
brinquedos secretos da burocracia”].
Eis
a entrevista:
Em
2011, você esteve entre os impulsionadores do Movimento Occupy. Desde então, muitos movimentos sociais similares
apareceram, mas, aparentemente, nenhum teve folego suficiente para continuar
vivo e atingir seu objetivo. Por que fracassaram?
David Graeber: Não
acho que estes movimentos sociais tenham falhado. Tenho uma teoria sobre isso:
“3,5 anos de atraso histórico”. Após o choque da crise financeira, em 2008, as
forças de segurança começaram, no mundo inteiro, se armar para os inevitáveis
protestos.
No
entanto, depois de dois ou três anos, parecia que nada iria acontecer. De repente,
em 2011, começou – embora nenhum grande fato novo tenha se dado. Como em 1848* ou
1968**,
estes movimentos não buscam tomar o poder: almejam
mudar a forma como pensamos política. E neste quesito, creio que tivemos uma mudança profunda.
Muitos
anseiam que o Occupy tome o caminho
da política formal. Verdade, não aconteceu, mas veja onde estamos 3.5 anos
depois: na maioria dos países onde
ressurgiram movimentos sociais e populares, partidos de esquerda estão mudando
para abraçar as sensibilidade desses movimentos (Grécia, Espanha, Estados
Unidos e etc.). Talvez demore mais 3,5 anos para que eles tenham um impacto
real sobre os projetos políticos, mas parece-me que é o caminho natural das
coisas.
Vejam
bem, vivemos numa sociedade de
gratificação instantânea: esperamos que ao clicar em algo, alguma coisa vai
acontecer. Essa não é a forma como os
movimentos sociais trabalham. A mudança não aconteceu do dia para noite.
Levou uma geração para os abolicionistas ou os movimentos feministas alcançarem
seus objetivos, e ambos enfrentaram instituições que existiam há séculos!
Mas
os movimentos de base poderiam se tornar organizações estruturais da política?
O exemplo recente na Grécia não parece muito encorajador.
David Graeber: Em primeiro lugar, não vejo
como o Syriza poderia ter ganho: eles estavam numa posição estratégica
muito complicada. Se alguma coalizão política do mesmo tipo se formasse na
Inglaterra, num instante, a história poderia ser completamente diferente. Neste
exato momento, o mais importante para os
movimentos horizontais e anti-autoritários é aprender como fazer alianças com
aqueles dispostos a trabalhar com o atual sistema político sem comprometer sua
própria integridade. Isso é algo que subestimamos com o Ocuppy. Acreditamos que nossos aliados
do Partido Democrata e na esquerda institucional tivessem uma compreensão mais
clara sobre seu interesse estratégico.
Veja,
precisamos ter nossos próprios radicais, para aparecermos como uma alternativa
razoável. Isso é algo que a direita e o Partido Republicano compreendem bem. Se os democratas estivessem unidos na
defesa da 1ª emenda [que assegura liberdade de expressão, manifestação e
crença] assim como a direita está em
relação a 2ª emenda [protege o direito do povo de portar armas], o Ocuppy
estaria provavelmente, vivo, e não estaríamos discutindo sobre equilíbrios
fiscais, mas sobre os problemas reais que afligem as pessoas.
Ainda
assim, acredito que é necessária uma sinergia positiva entre a esquerda radical
e a institucional. Não precisamos, necessariamente, gostar um do outro, mas
devemos encontrar um caminho para nos reforçar reciprocamente. A esquerda radical deveria estar mais
preocupada em ganhar, ao invés de brincar de superioridade moral.
Qual
sua análise em relação aos últimos desenvolvimentos da crise na Grécia? A
ideologia da dívida parece estar em alta na Europa.
David Graeber: É sempre possível pegar o
fenômeno mais repressivo e transformá-lo em sinais de esperança. Neste caso em
particular, a crise europeia revela que a justificativa tradicional para a
existência do capitalismo não funciona mais. Claro que o capitalismo sempre gerou desigualdades de forma maciça, mas
havia três argumentos políticos cruciais que contrabalanceavam esse fato:
* Em
primeiro lugar o suposto efeito
econômico trickle-down [“escorrer para baixo”], a ideia de que se os ricos se tornarem mais ricos, a
camada mais pobre da sociedade melhorará naturalmente. O que não acontece
mais.
* Em segundo lugar: o capitalismo traz estabilidade.
Novamente, não é mais o caso.
* Em terceiro lugar: o capitalismo aceleraria o caminho para a
inovação tecnológica. Também não é mais o caso.
Então,
o que sobrou para sustentar o capitalismo, agora que todos os argumentos
práticos se foram? Eles não têm mais
escolha exceto recorrer a argumentos puramente morais:
* à ideologia da dívida (“as pessoas
que não pagam sua dívida são más”), e
* à ideia de que se você não trabalhar ainda mais intensamente,
mesmo naquilo de que não gosta, você é uma pessoa má.
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Tradução do título em inglês: “A utopia das regras: Sobre tecnologia, estupidez e os brinquedos secretos da burocracia” |
Em
seu último livro [foto ao lado], você sustenta que o capitalismo não é capaz de gerar novos
desenvolvimentos tecnológicos. No entanto, o que o dogma contemporâneo tenta
fazer crer é que vivemos numa época de grande inovação. Quem está certo?
David Graeber: Me parece óbvio: entre 1750 e 1950, tivemos grandes
descobertas científicas, novas formas de energia foram descobertas, num
caminho rápido para inovação. Não me
parece que aconteça novamente. O capitalismo tornou-se uma espécie de força
reacionária, freando o desenvolvimento tecnológico. O que aconteceu com os
carros voadores? A viagem ao espaço? Hoje, as universidades, abarrotadas
burocraticamente, são incapazes de reunir gente comprometida com a verdadeira
inovação. Os artigos do Einstein não
passariam, provavelmente, nas bancadas acadêmicas de hoje!
Pergunte
às pessoas e você verá que, no final das contas, a maioria não compra a
retórica dessa suposta inovação contemporânea. Não se trata mais de saber como
a ideologia atua — porque o importante já não é convencer as pessoas de que
algo seja verdade, mas de que todo mundo acredita que é verdade. Num certo
sentido, o cinismo substitui a ideologia.
Pense em outro mito: a meritocracia. Todos nós sabemos que as pessoas não sobem na
escala hierárquica graças à meritocracia — mas devido à relação com o chefe, à
influência de um primo etc. Há um senso
de cumplicidade: se você quer ser promovido, não conte com seus méritos, mas
com seu poder teatral de encenar esses méritos. Seguir com as linhas
oficiais. Isso é um subproduto da mentalidade burocrática que descrevo no
livro.
Você
acha que é possível conciliar inovação tecnológica e progresso social?
David Graeber: Já está acontecendo: Anonymous***, Wikileaks**** ou, num certo sentido, a impressão em três dimensões estão
começando algo. O desenvolvimento tecnológico sempre segue as tendências
sociais. Alguém pensa que as pessoas em Florença, durante o Renascimento,
diziam “vamos criar o capitalismo: irá envolver fábricas, trocas de mercadoria,
e etc”? Claro que não. Não é algo planejado. O mesmo é verdade para nós: uma vez que enxergarmos o que queremos
alcançar, como sociedade, a inovação tecnológica virá em seguida.
Imagine
se todas as pessoas sentadas na frente de suas mesas, produzindo derivativos
securitizados ou negociando algoritmos, estivessem tentando criar um sistema de
alocação de recursos que fizesse o mesmo planejamento que os soviéticos
tentaram, mas não tiveram capacidade. Eles poderiam criar, provavelmente, algo
interessante.
Para
você, já não está claro se o atual sistema econômico pode ser chamado de
capitalismo. Por quê?
David Graeber: A natureza da acumulação
capitalista mudou dramaticamente. Quando eu era estudante, meu professor de
história econômica dizia que quando a
extração da mais-valia é feita diretamente através da política, não é sinal de
capitalismo, mas de feudalismo. É o que vivemos hoje: uma fusão de burocracia pública e privada que propõem criar mais formas de dívida, que será objeto de
variadas formas de especulação. A única forma de criar mais dívida é por
meio da política: não existe isso que alguns chamam de “desregulação
financeira” — é apenas uma mudança no modo de regulação. Na teoria marxista
clássica, o papel do Estado é garantir as relações de propriedade que permitem
a extração de mais-valia ocorrer por meio do trabalho assalariado, mas agora, o aparato de Estado desempenha um papel
muito mais ativo no processo.
Vivemos
na era da burocracia predatória. Que porcentagem da receita familiar é
extraída diretamente pelo setor financeiro? Estranhamente, estas são as
estatísticas econômicas mais difíceis de conseguir, mas quando os economistas
fazem as estimativas, encontram algo em
torno de 20% a 40%. A maior parte do lucro já não vem do setor produtivo.
No entanto, quando pensamos na história do capitalismo, pensamos nas
indústrias, no trabalho pesado. Isso, claramente, não é o que temos hoje. Não há mais razão para acreditar que o
capitalismo estará vivo para sempre. Por séculos, o Império Romano foi
capaz de absorver as tribos bárbaras, de atraí-los para o sistema romano,
dando-lhes títulos de chefe e comandantes. Mas um dia, eles se esqueceram de
promover Alarico, que ficou muito irritado. Nós todos sabemos o que aconteceu
em seguida. O sistema é permanente até que não é; toda contradição é absorvida até um ponto em que não é mais possível
fazê-lo.
Qual
é a sua opinião sobre a ideia de renda básica da cidadania, paga de forma
incondicional a todos os seres humanos?
David Graeber: Eu sou muito entusiasta
dessa ideia. É uma medida perfeitamente de esquerda e antiburocrática. Hoje, ao
contrário, cada vez mais, as autoridades
fazem os pobres sentirem-se piores, com aumento crescente de monitoramento.
Na
Inglaterra, é fascinante analisar as estratégias dos diferentes partidos
políticos. Os britânicos conseguiram abolir o aparato industrial e agora estão
tentando matar o sistema universitário. O que nos sobrará para exportar? No momento, tudo é baseado no mercado
financeiro e imobiliário. Por quê? Porque todos os ricos do mundo querem
ter uma casa em Londres? Há tantas belezas em outras cidades da Europa. Qual é
o apelo? Eu percebi duas coisas. Primeiro, você
pode ter e acumular tudo que desejar na Inglaterra, graças a uma classe trabalhadora
dócil e subserviente. Tenho um amigo cujo trabalho é entregar lagostas, em
qualquer momento da noite. Segundo, e mais importante: no Bahrein, Rússia ou
Hong Kong, se algo der errado pode haver um levante social. Não na Inglaterra,
é perceptível: a derrota histórica da
classe trabalhadora inglesa tornou-se o maior produto de exportação da Grã
Bretanha.
E
realmente, esta é a estratégia do Partido
Conservador: vender o sistema de classe para estrangeiros ricos. Contra
isso, qual foi a estratégia do Novo Trabalhismo? Focar na exportação da cultura
industrial. Mas nisso há um problema: a criatividade não vem só da classe
média, mas da classe trabalhadora também. O
Partido Trabalhista destruiu o que estava tentando criar ao impor limites ao
bem-estar social. No século XX, a Inglaterra criava, a cada década,
movimentos musicais incríveis, que repercutiam no mundo todo. Por que não
acontece mais isso? Essas bandas viviam no Estado de bem estar social! Tome um grupo de jovens da classe
trabalhadora, dê a eles dinheiro suficiente para curtir e brincar juntos, e
você terá os Beatles. Onde está o próximo John Lennon? Provavelmente,
embalando caixas num supermercado qualquer.
Traduzido do inglês por Cauê Ameni.
N O T A S
*
Dá-se o nome de Revoluções de 1848 à
série de revoluções na Europa Central e Oriental que eclodiram em função de
regimes governamentais autocráticos, de crises econômicas, do aumento da
condição financeira e da falta de representação política das classes médias e
do nacionalismo despertado nas minorias da Europa central e oriental, que abalaram as monarquias da Europa, onde
tinham fracassado as tentativas de reformas políticas e econômicas. Também
chamada de Primavera dos Povos, este
conjunto de revoluções, de caráter liberal, democrático, nacionalista e
socialista, foi iniciado por uma crise
econômica na França, e foi a onda revolucionária mais abrangente da Europa,
embora em menos de um ano, forças reacionárias tenham retomado o controle e as
revoluções em cada nação tenham sido dissipadas. Fonte: clique aqui.
** Ano de 1968: Manifestações estudantis em Paris,
movimentos antiguerra nos Estados Unidos, a utopia pela democracia em Praga, a
luta pelo fim da ditadura no Brasil... Depois de 1968, o mundo nunca mais foi o
mesmo e, embora nada tenha ocorrido da forma esperada, seus efeitos são
sentidos até hoje. Se o século 20, o mais movimentado da história, teve um
ponto em torno do qual transformações se concentraram como um enxame, esse
momento foi certamente 1968. Foram, acima de tudo, 12 meses de ruptura. No
planeta todo, muitos estavam empolgados (outros, horrorizados) com a
perspectiva de questionar heranças
antigas e sagradas: patriotismo, coragem militar, estrutura social e
familiar, lealdades ideológicas e legados culturais. Os que se deixaram levar
pelo entusiasmo daquele ano sentiam que, enquanto um mundo morria, outro estava
nascendo. E queriam de toda forma estar entre os parteiros. Fonte: clique aqui.
*** Anonymous é um grupo
hacktivista [de hackers] internacional que passou a agir a partir de 2008.
Formado por membros anônimos, como o próprio nome indica em inglês, o grupo
atua em diversas frentes, geralmente "defendendo causas em prol da
sociedade", como eles costumam se posicionar. Como forma de protesto, o Anonymous invade páginas na Internet e
derruba sites. Saiba o que os membros desse grupo já realizaram, clicando aqui.
**** WikiLeaks é uma organização
transnacional sem fins lucrativos, sediada na Suécia, que publica, em sua
página (site), postagens (posts) de fontes anônimas, documentos,
fotos e informações confidenciais, vazadas de governos ou empresas, sobre
assuntos sensíveis. A página (site)
foi construída com base em vários pacotes de programas (software), incluindo MediaWiki, Freenet, Tor e PGP. Apesar do seu
nome, a WikiLeaks não é uma wiki -
leitores que não têm as permissões adequadas não podem editar o seu conteúdo. A
página (site), administrada por The Sunshine Press, foi lançada em
dezembro de 2006 e, em meados de novembro de 2007, já continha 1,2 milhão de
documentos. Seu principal editor e porta-voz é o australiano Julian Assange, jornalista e ciberativista.
Fonte: clique aqui.
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