Um filme que faz refletir sobre o racismo
“Chocolate”
Filme aponta a cor da pele como um fator limitante e
indelével na inserção social do indivíduo
Luiz Zanin
Oricchio
O
racismo é questão que está longe de ser liquidada, sabemos. Aqui e em outros
lugares do mundo. Por isso, nada mais
oportuno do que o lançamento da produção francesa Chocolate,
de Roschdy Zem, sobre o famoso clown
[palhaço] francês interpretado por Omar
Sy (do filme “Intocáveis”).
Chocolat é um negro de origem cubana, que ganha a vida num circo mambembe. Quem
nele vê potencial de palco (ou melhor, de picadeiro) é o palhaço Footit (vivido por James
Thierrée, neto de Chaplin). Ambos formarão uma parceria que se tornará
famosa, a união entre um clown branco e um “augusto”. O augusto é o que toma pancadas e serve de escada ao palhaço branco.
Mas não é raro que as posições se invertam. Enfim, quem quiser uma lição
informal sobre o tema veja o documentário fake Os Palhaços (I Clown), de Federico Fellini, um clássico.
A
dupla formada chama a atenção de um empresário, que a leva a Paris. E à fama.
E, claro, ao dinheiro. De certo modo, boa
parte do desenvolvimento do filme será consagrada a mostrar a dificuldade de Chocolat em se relacionar com o êxito, uma
questão secular envolvendo os que, vindos “de baixo”, se tornam “celebridades”,
como dizemos hoje. Nunca sabem (e talvez jamais saibam) se os que deles se
aproximam o fazem por suas próprias qualidades como seres humanos ou por
simples interesse.
Chocolat vive esse problema, mesmo
porque o exotismo de ser um negro de
sucesso na Paris da belle époque o torna em particular atraente para as
mulheres. Mais ainda porque na (boa) interpretação de Omar Sy, Chocolat
é dono de uma consciência tanto aguda como perversa, que faz com que jamais se
acomode com o que conquistou. E que não é pouco. No entanto, ele quer mais.
Hoje,
diríamos que não se acomoda na “zona de conforto” e busca além. Nada menos que
seu reconhecimento como pessoa humana na fechada sociedade francesa, e como
ator dramático. Deseja ser ninguém menos
que o primeiro ator negro a representar Shakespeare na França. E num papel
que, sente, foi escrito para ele pelo Bardo: o de Otelo.
Zem trabalha com afinco sobre a
personalidade complexa de Chocolat,
aliás, Rafael Padilla. No cume do êxito, Chocolat entrega-se à
bebida e ao jogo. Mantém intacta sua ambição e desejo de reconhecimento -
essa universal fraqueza humana. Sonhar
alto fará sua grandeza e será a sua desgraça. Mas é por causa disso que
lembramos dele ainda hoje, embora tenha andado esquecido nos últimos decênios e
só agora volte a despertar interesse.
De
acordo com os especialistas, o filme de Zem
toma muitas liberdades em relação à biografia de Chocolat. Não é documentário. É
obra de ficção. Debruça-se no essencial, sem cuidar do acessório. Inventa,
quando necessário. E o essencial é mesmo
o racismo latente ou explícito que prepara o
terreno para a derrocada de um vencedor.
Dirigido
de maneira nem tanto inventiva, Chocolate tem momentos muito bons,
em especial os propiciados pela dupla Sy
e Thierrée. Os bastidores do mundo
do espetáculo francês da belle époque, entre os séculos 19 e 20, são retratados
com sensibilidade. Mostram o lado cruel da fama, o reverso do êxito e da
conquista.
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ROSCHDY ZEM Diretor e Produtor do filme "Chocolate" |
O filme aponta a cor da pele como um fator
limitante e indelével na inserção social do indivíduo, mesmo quando este se
destaca dos demais, como era o caso de Chocolat.
É denúncia do racismo quando este mais
uma vez mostra sua força e permanência.
São
também momentos especiais do filme os diálogos entre Chocolat e um antigo companheiro de prisão, Victor (Alex Descas),
dono de agudo senso político. Victor
funciona como consciência crítica de Chocolat
e mostra como ele ganha dinheiro estimulando o sadismo racista do público.
É um espelho para Chocolat.
Outra
sequência especial é quando Chocolat,
rico e vestido à europeia, vai visitar uma espécie de zoológico humano no Jardin de Acclimatation, em Paris, e vê
uma família de negros expostos à curiosidade pública como bichos selvagens. É
como se olhasse para um outro espelho, que devolvesse uma imagem deformada de
si mesmo, produzindo um misto de
reconhecimento e estranheza.
Pena
que esta ideia não tenha sido mais explorada neste filme forte em alguns momentos, mas que deixa passar algumas
oportunidades de se mostrar mais incisivo.
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