Solenidade de São Pedro e São Paulo Apóstolos – Ano C – Homilia
Evangelho:
Mateus 16,13-19
Naquele tempo:
13 Jesus foi à região de Cesareia de
Filipe e ali perguntou aos seus discípulos: «Quem dizem os homens ser o Filho
do Homem?».
14 Eles responderam: «Alguns dizem que é
João Batista; outros que é Elias; outros ainda, que é Jeremias ou algum dos
profetas».
15 Então Jesus lhes perguntou: «E vós,
quem dizeis que eu sou?».
16 Simão Pedro respondeu: «Tu és o
Messias, o Filho do Deus vivo».
17 Respondendo, Jesus lhe disse: «Feliz es tu, Simão, filho de Jonas, porque
não foi um ser humano que te revelou isso, mas o meu Pai que está no céu.
18 Por isso eu te digo que tu és Pedro, e
sobre esta pedra construirei a minha Igreja, e o poder do inferno nunca poderá
vencê-la.
19 Eu te darei as chaves do Reino dos
Céus: tudo o que tu ligares na terra será ligado nos céus;
tudo o que tu desligares na terra será
desligado nos céus».
JOSÉ ANTONIO
PAGOLA
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SÃO PEDRO E SÃO PAULO Pinturas de "El Greco" |
CONSTRUIR
A IGREJA DE JESUS
A
Igreja que conhecemos hoje entre nós, aparece-nos como uma organização
sociológica que abarca todos os cidadãos que são registrados como batizados
poucos dias após o seu nascimento.
Não
é fácil ver nela a comunidade dos que
descobriram o Evangelho, creram com
alegria em Jesus Cristo salvador e pretendem
viver a partir das exigências e da esperança da mensagem de Jesus.
A
Igreja acabou sendo em nossa sociedade, uma instituição da qual não se pode
dizer que seja um conjunto de homens e mulheres que se esforçam por viver de
acordo com o Evangelho.
A
pertença à Igreja não se deve ao fato de uma pessoa ter descoberto Jesus Cristo e se
convertido à fé, mas, simplesmente, por ter nascido em uma família de
batizados. Consequentemente, os membros
da Igreja não são, necessariamente, os
convertidos ao Evangelho, mas os nascidos em determinados países «cristãos»
ou em determinados grupos sociológicos. Dessa forma, a Igreja deixa de ser a comunidade de convertidos a Jesus e se
configura como a massa de batizados que pedem, com maior ou menor
frequência, alguns serviços religiosos.
Necessitamos
passar de uma Igreja entendida como um mero fato sociológico, para uma Igreja
entendida como a comunidade dos que
vivem esforçando-se para seguir Jesus Cristo.
Necessitamos de comunidades
cristãs nas quais as exigências do Evangelho sejam bem conhecidas e claramente
propostas.
Comunidades de homens e mulheres que saibam muito bem ao que se comprometem
quando decidem, livremente, entrar e passar a ser parte da comunidade cristã.
Comunidades nas quais todos
se sentem responsáveis e protagonistas da missão evangelizadora
da Igreja.
Comunidades não separadas nem dissociadas uma das outras, mas estreitamente
relacionadas e unidas para tornar presente, também hoje, a força do Evangelho
em nossa sociedade.
Não
são estas algumas de nossas necessidades mais urgentes nestes momentos?
A
IGREJA DE JESUS CRISTO
Todas
as pesquisas e estatísticas mostram, de modo palpável, que a mensagem da Igreja está perdendo progressivamente a sua influência na
sociedade ocidental. O homem contemporâneo escuta outros «evangelhos» e
atende a outros «profetas».
São
muitos os que criticam fortemente a história concreta do cristianismo e lançam
na cara da Igreja graves traições. Chegou
o momento no qual os papéis se inverteram, não é mais a Igreja que julga o
mundo, mas este que julga a Igreja!
O
ser humano atual, terrivelmente prático e crítico, observa o cristianismo e não
constata, ao que parece, nada de especial. Da
mesma forma que no mundo, também na Igreja se vê homens e mulheres vazios,
superficiais, hipócritas ou sem esperança.
O
Evangelho parece ter-se convertido em algo inofensivo! A mensagem da Igreja não
encontra, quase nunca, uma reação de resistência hostil, mas de total indiferença.
Segundo o teólogo ortodoxo Paul
Evdokimov [1901-1970], «os cristãos fizeram todo o possível para esterilizar
o evangelho; pode-se dizer que o submergiram em um líquido neutralizante».
O
fato cristão parece ressoar, portanto, no vazio. A Igreja não apenas introduz contraste
no interior do mundo, como também os
cristãos perderam, em grande parte, sua força de fermento no meio da massa.
Não
será esta a grande derrota da Igreja contemporânea? Como ler, a partir desta
situação, a promessa de Jesus: «Tu és
Pedro e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja, e o poder do inferno não a
derrotará»?
Antes
de tudo, temos de recordar que Jesus
fala de «sua Igreja», de uma Igreja que ele
mesmo há de edificar sobre Pedro. Suas
palavras, portanto, não garantem a consistência de qualquer Igreja, mas de uma
Igreja que seja, realmente, «presença de Jesus Cristo».
Pois
bem, Jesus Cristo não é somente
«doutrina», mas Vida de Deus encarnada, salvação feito vida. Por isso, aquilo
que se há de construir sobre Pedro não é somente um corpo de doutrina ortodoxa,
mas o Corpo vivo da presença de Cristo no mundo.
Jesus Cristo não é,
tampouco, «palavras vazias», mas novidade de vida autenticamente humana. Por isso, a Igreja deve ser um foco de vida e não
um lugar onde se produz «um vocabulário suplementar», porém, onde o modo de
pensar e de agir seja semelhante ao do mundo.
Jesus
Cristo não é só «preocupação ética», mas enraizamento da vida no Deus Criador e
Pai. Por isso, aquilo que a Igreja
deve pôr no mundo não é simplesmente «crença moral», mas vida que emana do
Transcendente.
É
esta a Igreja de Jesus Cristo, aquela que o mundo atual necessita e que nunca
será derrotada.
Traduzido do espanhol por Telmo José Amaral de Figueiredo.
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