O que perturba o mundo hoje?
A hora mais escura
Celso Ming
Espalha-se pelo mundo a desesperança e mais do que
respostas definitivas, falta atitude de busca de saídas
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MORADORA DE RUA NOS ESTADOS UNIDOS - ESCREVEU NO PAPELÃO: "Perdi família, perdia casa, perdi tudo. Por favor, ajude com algo" |
O
empresário Donald Trump foi sagrado
na terça-feira passada, 19 de julho, candidato à presidência dos Estados Unidos
pelo Partido Republicano.
A maneira mais equivocada de
enfrentá-lo é tratá-lo apenas como mais um xenófobo e mais um
ultraprotecionista, sem antes identificar os problemas de fundo e sem antes procurar
soluções adequadas para as mazelas que tomam o mundo.
Os países de economia avançada e, até
certo ponto, também os emergentes passam
por um momento complexo, em que as pessoas sentem que estão sendo
espoliadas e alijadas do seu futuro.
A renda vai sendo dilapidada, os direitos básicos assegurados por lei
estão ameaçados por Estados quebrados e pelo crescimento de mais mãos e bocas
sobre um bolo cada vez mais minguado.
As relações de trabalho estão mudando, por
muitas razões: o salário vem
perdendo participação na renda, o emprego
migra para regiões em que a mão de obra aceita remuneração mais baixa,
aumentam as restrições ao acesso à
previdência social e ao seguro-desemprego. A população está envelhecendo,
há uma nova “invasão dos bárbaros” na Europa, na medida em que contingentes
cada vez maiores da população vêm sendo escorraçados de seus países de origem,
por guerras fratricidas ou pela pobreza endêmica.
Mais
que tudo, espalha-se a desesperança, a
sensação de falta de futuro, à medida que se fecham as oportunidades. A educação e o treinamento que até
recentemente qualificavam os recém-chegados ao mercado de trabalho agora já não
servem. Os diplomas e certificados de
conclusão de curso vão perdendo utilidade. Nada disso é novidade, mas o
acesso rápido e mais fácil aos meios de comunicação cria consciência e espalha
frustração.
DONALD TRUMP Candidato a Presidente dos Estados Unidos pelo Partido Republicano - falsas soluções para problemas reais! |
Os
problemas vão nessa linha. As soluções apresentadas por líderes do tipo Donald Trump, nos Estados Unidos, por Marine Le Pen, na França, e os
escapismos à Brexit são evidentemente equivocados e contêm
enorme potencial solapador dos valores democráticos e do equilíbrio
geopolítico.
É
claro que o crescimento econômico mundial precisa ser retomado para que o bolo
aumente e a fatia de cada dia, também. Infelizmente, não há receita fácil para isso. As soluções keynesianas clássicas
já não respondem. Os Tesouros nacionais estão esgotados e os grandes bancos
centrais já expandiram o nível de moeda que tinham de expandir. E, no entanto, os resultados chegam a conta-gotas, ou
simplesmente não chegam.
Trump
pode não se eleger, mas subsistem os problemas que alimentam sua retórica. E,
no entanto, falta iniciativa dos atuais
dirigentes globais. Mais do que respostas definitivas, falta atitude de busca de saídas.
Às
vezes, como agora, não há clareza sobre o que fazer. Impor saídas forçadas é
outro risco. Também nesse caso, é
preciso respeitar a hora mais escura da noite, que é a que precede o amanhecer,
como aquela a que se referiu em 1941 o então primeiro-ministro da Inglaterra,
Winston Churchill. Foi o momento da prostração. A França estava de joelhos,
Londres estava sob bombardeio e os aliados permaneciam na defensiva. O raiar do dia não tardou a chegar, mas foi
preciso esperar.
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