Refletindo sobre greves estudantis
Uma luta que não é deles
José de Souza
Martins
Os estudantes universitários grevistas, os dos
cadeiraços, das ofensas e ameaças, querem a sociedade ultrapassada de uma
geração vencida, diz sociólogo
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PASSEATA DE PROFESSORES, FUNCIONÁRIOS E ALUNOS DA USP Junho de 2016 |
A notícia do fim da greve
dos funcionários da Universidade de São Paulo (USP) veio com uma ressalva. A de que poderá ser
retomada após o término das férias do calendário escolar. Para quem, como eu,
cresceu dentro de uma fábrica e presenciou a greve dos 300 mil, em 1957, soa estranho que alguém pare para descansar
da paralisação e a ela retornar após o merecido descanso.
As greves universitárias do período
pós-ditatorial fluem no cenário adverso da peculiar impotência do paredismo de classe média. Não incidem sobre
atividades produtivas. Nenhuma riqueza
deixa de ser criada, ninguém lamentará que alunos deixem de estudar,
funcionários deixem de funcionar, professores deixem de ensinar. As perdas
são invisíveis. Quem se importará com os enormes danos que bibliotecas fechadas
durante meses causam a estudantes de pós-graduação que tem teses para concluir
e prazos rígidos para cumprir na Universidade e nas agências de fomento que
lhes concedem bolsas de estudo? Prazos que a greve não modificará. Em nossa cultura alienada, que de vários
modos valoriza a ignorância, estudar não é necessariamente um bem. Para
muitos é um castigo. Concretamente, ninguém perde com paralisações em setores
que não produzem diretamente mais-valia, para irmos ao vocabulário que dá
sentido às verdadeiras greves, as fabris. Ao contrário, são setores que vivem à custa de uma parcela da distribuição da
mais-valia extorquida dos trabalhadores do setor produtivo.
As três universidades
públicas paulistas são mantidas às custas de uma proporção não pequena da arrecadação
do ICMS, recolhido sempre que alguém compra alguma mercadoria de alguém que não seja propriamente
bandido e sonegador e que, portanto, emite nota fiscal para pagar o devido
imposto. Os favelados da favela de São Remo, encravada em terreno da USP, e os
favelados da favela do Jaguaré, a quatro quarteirões da Cidade Universitária,
são comantenedores da Universidade de São Paulo. Quando, a duras penas, compram
um quilo de feijão ou de arroz ou um litro de leite para refeição da família e
das crianças, pagam parte do ICMS que mantém a Universidade e assegura à
pequena burguesia que a frequenta o ensino de primeiro mundo que seus filhos
nunca terão. A USP é agora mesmo
anunciada como a ocupante do 10º lugar, a Unicamp do 12º e a Unesp do 36º no
ranking das Universidades do Brics (Brasil, Rússia, Índia, China e África
do Sul).
Da Cidade Universitária não
se vê a favela que se espalha pelo morro do Jaguaré, no entanto tão perto, e a
miséria dos exíguos barracos de chão de terra batida, com a bacia da privada
encravada num canto do cômodo único, com a mesa de caixote e a cama coletiva
lado a lado. De lá, porém, se vê
perfeitamente o próspero cenário dos muitos carros estacionados na USP, do vai
e vem dos beneficiários do ensino público gratuito, democrático e laico, da
alimentação subvencionada, do transporte gratuito, das bolsas de estudo e até
das moradias gratuitas para muitos. Não se trata aqui de fazer a crítica
fácil a quem se deixa manipular ou arrebanhar para causas que tem sua razão.
Trata-se de tentar desvendar o nó que se esconde por trás das tensões que aos
poucos vão consumindo a Universidade.
JOSÉ DE SOUZA MARTINS Sociólogo e Professor emérito da FFLCH/USP |
A facilidade com que alunos
são mobilizados para causas que não são as suas, as dos funcionários ou as dos
professores, apenas sugere as peculiaridades da crise de gerações entre nós nos
dias atuais.
Antes da ditadura, as novas gerações tinham uma causa e uma esperança, a da
definição de um projeto de nação para todos, confirmação de uma história social
em andamento. Na ditadura, o projeto foi truncado e reprimido, quem o defendia
foi perseguido, quem insistia foi preso, cassado, banido ou morto. A crise de
gerações ganhou outro contorno, o da vítima, o da generosa disponibilidade até
para dar a vida em nome do sonho de uma pátria livre e soberana, justa e democrática.
Com o fim da ditadura, o sonho
aparentemente acabou, perdeu conteúdos, cedeu lugar aos arranjos e
conveniências de poder, à busca de privilégios corporativos. As novas
gerações já não têm uma causa. Tudo já está pré-formatado para elas pelos outros,
pelos que não tendo causa própria se apossam do direito dos jovens de terem sua
própria causa, suas próprias perguntas e suas próprias respostas. No afã autoritário do mando e da imposição,
cada um a seu modo, professores e funcionários usurparam o que é próprio das
novas gerações, que é recriar o mundo segundo seu modo de vê-lo e seu modo de
querê-lo. Hoje, os estudantes dos movimentos grevistas nas universidades
públicas, os dos cadeiraços, das ofensas e ameaças aos professores, querem o
mundo e a sociedade ultrapassados de uma geração vencida, a geração fracassada
que levou o Brasil ao abismo do mensalão e do petrolão, da Operação Lava Jato,
da corrupção descarada, do poder pelo poder. Não lhes ensinaram a ver suas próprias contradições nem a reconhecer
sua missão no mundo. Apenas a gritar sem falar, calar sem ouvir, espernear sem
caminhar.
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