Isso é um perigo ! ! !
“Há no mundo um esgotamento da
democracia liberal”
Entrevista:
Sérgio Amaral
Diplomata
e embaixador brasileiro (nomeado) para os Estados Unidos
Para o futuro embaixador do Brasil em Washington, os
partidos políticos
– na Europa e nos Estados Unidos – não foram capazes de
captar
a tempo a crescente insatisfação da sociedade
SÉRGIO AMARAL Diplomata e novo embaixador do Brasil nos Estados Unidos |
Falta
apenas a sabatina no Senado, dia 11 de agosto, para que Sérgio Amaral arrume
suas malas rumo a Washington. O diplomata já recebeu o agrément (aceitação formal) do governo americano para ser o novo
embaixador do Brasil nos Estados Unidos da América (EUA), mas precisa ainda ter
seu nome aprovado no plenário da Casa.
Experiência,
entretanto, não lhe falta. Amaral já
serviu, em duas ocasiões diferentes, na embaixada brasileira da capital
americana. E volta ao local cheio de planos: “Existe uma multidão de grupos
de trabalho, de comissões mistas, de projetos que foram assinados ou que
resultaram em comunicados conjuntos entre Brasil e Estados Unidos. A maior
parte deles está paralisada ou nem saiu do papel”, conta o embaixador que já
está pinçando, dentro de uma pilha gigante, os projetos factíveis, além de
estar pensando outras novas iniciativas.
O
fato é que Brasil e Estados Unidos
mantêm uma antiga e extensa relação comercial. O mercado americano é o segundo maior comprador de produtos e serviços
brasileiros no exterior. Segundo os números do governo Temer, a China
adquiriu, ano passado, US$ 35,6 bilhões do Brasil, seguida pelos Estados
Unidos, com US$ 24,2 bilhões. A balança, no entanto, só é favorável ao Brasil,
no caso da China, que comprou US$ 5 bilhões mais do que vendeu. Já os EUA venderam US$ 2 bilhões mais do
que compraram por aqui.
Amaral já foi embaixador em
Paris e Londres, serviu na embaixada de Bonn,
na Alemanha, e na missão permanente do
Brasil junto à ONU, em Genebra. Também foi presidente da Associação dos
Países Produtores de Café e do Conselho Empresarial Brasil-China. Abaixo, os
melhores momentos da conversa.
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DONALD TRUMP Milionário candidato à Presidente do Estados Unidos pelo Partido Republicano Exemplo de populista que se aproveita do descontentamento dos eleitores com os candidatos tradicionais! |
Se
Donald Trump ganhar as eleições norte-americanas, o que muda nos Estados Unidos
e na sua relação com o Brasil? A tradicional administração americana é forte o
suficiente para impedir a implantação de ideias “estranhas” que o candidato vem
apresentando?
Sérgio Amaral: Essas perguntas requerem
uma percepção um pouco mais ampla: a
análise do novo populismo na Europa e nos Estados Unidos. O movimento
parece refletir algumas coisas. Uma delas é um esgotamento da democracia liberal, porque os partidos não foram
capazes de captar a tempo a crescente insatisfação da sociedade e dar uma
resposta. Há uma crise de
representatividade na Europa, onde se vê um conjunto de partidos
antieuropeus. Nos EUA também há uma
crise de representatividade porque os partidos políticos esperavam que certos
temas fossem absorvidos e não foram.
Como
o tema dos imigrantes?
Sérgio Amaral: Sim, incluindo o tema das importações, sobretudo provenientes da
China, que transferem empregos e estão aguçando um sentimento nacionalista protecionista. Curiosamente, a Hillary
Clinton tem hoje a seu lado o senador Bernie Sanders, que é uma espécie de
socialista tardio. Ele levantou uma série de questões socialistas exatamente no
momento em que o socialismo no mundo está acabando. O populismo, nesse sentido, significa líderes ou partidos que estão
tomando lugar dos partidos tradicionais. Trump fala para os desempregados
cujas empresas onde trabalhavam foram fechadas. Fala para os sindicatos que
sofrem a concorrência dos produtos de fora ou cujos associados estão perdendo
emprego. Ele fala de maneira segmentada.
E
como unir essas partes? Como unir o protecionismo em um partido liberal, como o
Republicano? De que maneira Trump vai implantar a ideia fantasiosa de fazer um
muro entre EUA e México? Ou proibir a imigração?
É
fato que a imigração não se refere só ao
imigrante em si, mas também às empresas que precisam de migrantes para serem
competitivas.
Acredita
que hoje quem não é politicamente correto é visto com bons olhos? Não há nada
mais politicamente incorreto que falar sobre o muro entre Estados Unidos e
México, concorda?
Sérgio Amaral: Trump dá uma resposta
radical, diferente dos partidos tradicionais, que deram respostas que não foram
satisfatórias para setores e camadas que estão sofrendo esses problemas.
Aqui
na América Latina o sr. vê algo parecido?
Sérgio Amaral: Por aqui o populismo tinha
outro conceito, extremamente diferente, que era a capacidade dos partidos
tradicionais manipularem as massas com discurso popular. Depois, o populismo
foi econômico. E hoje o populismo já é diferente. O caso mais claro do populismo atual na América Latina foi o de Hugo
Chávez. Não acho que Lula tenha
sido exatamente populista. Ele foi
popular. Já em um segundo momento do governo Dilma, ela sim foi claramente
populista quando as respostas que dava não tinham um significado realista, não
condiziam com a realidade.
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HUGO CHÁVEZ Ex-presidente da Venezuela foi o melhor exemplo de populismo na América Latina nesses últimos anos |
O
sr. acha que esse novo populismo inclui inverdades, como no caso de Dilma?
Sérgio Amaral: Muitas das afirmações que
Dilma fez, sobretudo na campanha, não condiziam com a realidade e essa foi uma
das grandes razões da perda de popularidade dela. Os eleitores, inclusive do PT, se sentiram fraudados. Mas o
impressionante é que isso parece ser não
só uma prática, mas também um recurso da política nos tempos contemporâneos.
O
Brasil vai ter eleições majoritárias daqui a dois anos e meio. Há algum perigo
disso se repetir por aqui?
Sérgio Amaral: Não. Inclusive porque o que
nós estamos sentindo no governo do presidente interino, Michel Temer, é exatamente o contrário. Ele está buscando uma
pacificação, uma serenidade no trato das coisas e, acima de tudo, tem uma
grande capacidade de articulação política. Acredito que isso vai estabelecer um
modelo, um novo parâmetro de relações do governo com o Congresso e com a
sociedade.
Trata-se
de um novo modelo ou já tivemos conduções semelhantes a esta?
Sérgio Amaral: É um modelo parecido com o
que foi o governo Fernando Henrique Cardoso. Que tinha uma grande serenidade,
tinha capacidade de articulação e, sobretudo, a capacidade de uma discussão
pública das grandes questões.
O
que o Brasil pode esperar da ida do sr. a Washington? O que vai mudar?
Sérgio Amaral: Temos uma boa oportunidade
de um aprofundamento das nossas relações, porque, antes de tudo, existe uma
convergência nas políticas maiores dos dois países.
O
que isso quer dizer?
Sérgio Amaral: Obama, desde o início,
assumiu compromissos que vão exatamente na direção daquilo que o Brasil sempre
reclamou ou sempre desejou: a afirmação
do multilateralismo, a afirmação da concertação como uma forma básica de
entendimento. Mais do que isso, ele deu
um passo muito importante para as relações dos Estados Unidos com a América
Latina: o reatamento das relações com Cuba.
Mesmo
com a proximidade do governo Lula e Dilma com Cuba, o Brasil não foi chamado a
participar dessas negociações. Perdemos a oportunidade de ter tentado um
entendimento?
Sérgio Amaral: Talvez o Brasil tenha
perdido essa oportunidade porque não era
visto como isento nessa relação entre Estados Unidos e Cuba. Mas voltemos à
convergência, qual é a nossa parte nela? Ela está no discurso de posse do
ministro José Serra com orientação clara do presidente Temer: a nova política externa vai ser fiel aos
valores e aos interesses do Brasil e não às preferências ideológicas de um
partido.
Que
projetos o sr. levará para Washington?
Sérgio Amaral: Tive uma grande surpresa ao
me debruçar na relação bilateral, que eu não acompanhava havia muito tempo. Existe uma multidão de grupos de trabalho,
de comissões mistas, de projetos que foram assinados ou que resultaram em
comunicados conjuntos entre Brasil e Estados Unidos. A maior parte deles
está paralisada ou nem saiu do papel.
Sabe
por que não andaram?
Sérgio Amaral: O episódio da espionagem
telefônica da Dilma praticamente paralisou o relacionamento, mas também há
casos em que nós não soubemos superar as dificuldades. Tenho tido conversas com
a embaixadora americana no Brasil, preparando a minha ida, e nós resolvemos que
a primeira coisa que vamos fazer é uma
limpeza da mesa. Pegar essa pilha de projetos e acordos, separar o que é viável,
aquilo que pode ser resolvido a curto prazo, o que é uma prioridade para os
dois países, e tentar resolver isso da forma mais rápida possível.
Pode
mencionar alguns desses projetos?
Sérgio Amaral: Um que já está no Congresso
é o Open Sky, que permite a liberdade de frequência de voos
entre os dois países. Há também um acordo
sobre carne, dando liberdade de exportação in natura dos dois lados. Esse projeto está bastante avançado
existindo apenas algumas questões técnicas que devem ser resolvidas nas
próximas semanas para que se concretize. Além disso, está pronta para sair a
questão da aprovação do Global Entry
– programa que ajuda a agilizar a
entrada de passageiros internacionais de baixo risco, pré-aprovados, com
destino aos EUA. Isso aumenta o prazo do visto para viajantes frequentes ou
facilita a vida, sobretudo, da comunidade de negócios.
Na
área cultural, podemos esperar algo interessante?
Sérgio Amaral: Defendo que nós criemos
nichos para falar para determinados segmentos da sociedade. Quando estive na
embaixada, em 1992, começamos a construir uma ponte entre a comunidade judaica
americana e a brasileira. Você sabia que
os judeus que fundaram Nova York, em sua maioria, migraram do Brasil para lá?
Na época em que a Inquisição se instalou na Espanha e, depois, em Portugal,
esses judeus novos vieram para o Brasil durante a ocupação holandesa e se
instalaram no Nordeste, tendo importante papel na colonização holandesa de
Pernambuco. Falo em desenvolver uma
ponte de aproximação.
Como
seria essa ponte de aproximação?
Sérgio Amaral: Poderíamos começar com uma
exposição mostrando que, quando eles foram expulsos com os holandeses de
Pernambuco, uma parte migrou para Nova York – que era a New Amsterdam – e
ajudaram na fundação da cidade. Tanto assim que o primeiro cemitério judeu em Nova York se chama Cemitério Brasileiro. Tem também uma
história que eu comecei lá atrás e que não evoluiu: a participação do Smithsonian Institute no desenvolvimento
e criação de parques temáticos
ambientais na Amazônia. Nós os ajudamos a criar um departamento sobre a
Amazônia e depois eles estudaram a implantação de cinco parques temáticos.
Quero muito ver isso acontecer.
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