A nova arma do GOOGLE
Bruno
Garattoni
Um gigantesco sistema de inteligência artificial,
alimentado com todas as informações do mundo
e capaz de assumir o controle de várias partes de sua
vida.
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"MACHINE LEARNING" = APRENDIZADO DA MÁQUINA é o nome atual para "inteligência artificial" a aposta das empresas de tecnologia hoje |
–
Ok Google, tô saindo.
–
Lamento, mas o seu voo está atrasado.
–
Ai, ai. Muda minha reserva do jantar? Coloca uma hora mais tarde.
–
Sem problema. Ah, sabe aquele sapato que você anda namorando? Vi em oferta por
R$ 149. Quer que eu compre?
–
Aquele azul, né? Pode ser.
– Feito.
Ah, sugiro comprar um tênis de corrida também. O seu já tem 587 km de uso. O
novo vai custar R$ 249.
–
Tá, tudo bem.
–
Você tem tempo livre na terça às 9h. (Seu terapeuta cancelou a consulta.) Posso
marcar uma corridinha?
–
Pode. Agora preciso ir. Me chama um carro?
(Três minutos depois...)
–
Bem-vindo ao Google Self-Driving Car. Chegaremos ao aeroporto em 32 minutos.
Fique à vontade enquanto dirijo. Você tem 78 novos e-mails, dos quais três são
importantes. Vou ler esses três e sugerir respostas, ok? A Cris do financeiro
quer marcar reunião (sugestão: “espera eu voltar de viagem? Bjo”), sua mãe
pergunta o que você quer comer no domingo (“carne assada”), a Paula mandou uma
foto...
Essa
cena é uma simulação. Mas já poderia ser real: todas as tecnologias de
inteligência artificial envolvidas nela já existem, e funcionam. Algumas foram
lançadas, outras são protótipos em estágio avançado, que estão sendo
desenvolvidos pelo Google e por gigantes como Apple, Microsoft, Amazon e Facebook – que, neste ano, fizeram
da inteligência artificial sua grande aposta.
Eu vim à sede do maior de todos (a
convite do Google, passei três dias na cidade de Mountain View, no mês de maio) para descobrir o porquê.
Gato,
cachorro e avião
“Quando
eu estava na faculdade, nos anos 1990, os computadores não conseguiam
diferenciar um gato de um cachorro”, conta o físico e neurocientista Greg Corrado. “Distinguiam um gato de um avião, mas não de
um cachorro. É difícil, ambos são peludos e têm quatro patas”, explica.
Algo
banal para o cérebro humano, mas inatingível para as máquinas. Tanto que dois
colegas de faculdade de Greg fizeram uma aposta. Um disse que os computadores
demorariam pelo menos dez anos para aprender a distinguir gato e cachorro. O
outro disse que seria rápido. Não levou uma década, mas também não foi rápido:
aconteceu nove anos e seis meses depois.
“Hoje,
nosso software consegue olhar uma foto, reconhecer os elementos e até escrever
a legenda”, diz Greg, criador e diretor do Google
Brain [Cérebro do Google], o centro de inteligência artificial (IA) do
Google. Ele foi fundado em 2011 por apenas três pessoas, e era o que a empresa
chama de “projeto 20%” – uma inciativa paralela, a que os funcionários podem
dedicar 20% do seu tempo. Hoje o Google Brain reúne mais de cem cientistas com
a missão de desenvolver a inteligência usada nos demais produtos da empresa –
que, atualmente, tem nada menos do que 1.200 projetos envolvendo IA
[inteligência artificial].
Desde
fevereiro, o diretor de buscas do Google é o engenheiro John Giannandrea, especialista em inteligência artificial. E, desde
o ano passado, as pesquisas no Google são gerenciadas pelo RankBrain, um robô inteligente que aprende sozinho a interpretar
buscas inéditas, ou seja, que nunca foram feitas antes (cerca de 20% das
pesquisas feitas a cada dia). O Google também já usa inteligência artificial
para gerenciar a distribuição de anúncios online, sua grande fonte de receita.
Em suma: está apostando tudo nisso.
Não
está sozinho. O destaque do iOS 10, próximo sistema operacional da Apple, é a nova versão da assistente Siri, que agora vai conversar com os
aplicativos do iPhone (e assumir muito do que hoje é feito via apps, de chamar
táxi a pedir pizza). A Apple está seguindo a deixa da Amazon, cuja assistente virtual Alexa
se comunica com mais de cem aplicativos – lê notícias, pede Uber e faz
compras, entre diversas outras coisas. A Microsoft
colocou uma assistente, a Cortana, no
Windows 10, e está desenvolvendo softwares capazes de conversar em nível humano
– coisa que o Facebook também
persegue. É um movimento gigantesco, que tem sido comparado à primeira corrida
do ouro da internet: a onda das “empresas ponto.com”, na década de 1990, que
gerou a rede que temos hoje.
Mas
por que justo agora?
Talvez
você não saiba, mas a inteligência artificial não tem um retrospecto muito bom.
Lançado em 1968, o clássico filme 2001
tem como protagonista o computador HAL, tão inteligente quanto uma pessoa.
Naquela época otimista (o homem chegou à Lua um ano depois), isso parecia
exequível. Mas não chegou nem perto. As décadas seguintes foram de impasses e
frustrações, que deram à inteligência artificial uma fama ruim. Tanto que hoje
os cientistas da área preferem usar outro termo: machine learning, ou seja, aprendizado da máquina. E a novidade
está justamente nisso.
Em
vez de tentar ensinar o computador, agora
a jogada é fazê-lo aprender sozinho, usando as chamadas redes neurais artificiais. “No cérebro,
os neurônios se conectam uns aos outros e trocam informações. No sistema
artificial, é a mesma coisa. Só que no
lugar dos neurônios nós temos uma coleção de funções matemáticas”, explica
Greg. Quando você nasce, os seus neurônios já estão formados, mas não sabem
trabalhar juntos. Conforme você cresce e aprende coisas eles formam ligações
semipermanentes (são as memórias) e aprendem a funcionar em conjunto.
As
redes neurais artificiais funcionam de um jeito parecido. Primeiro, o computador
é alimentado com dados: a foto de um gatinho, por exemplo. Aí, cada grupo de “neurônios”
avalia um aspecto daquela imagem. No nosso exemplo, pode ser a cor do objeto,
se a textura é de pelo, se ele tem patas e olhos, etc. Dentro de cada grupo, os
neurônios “votam”, ou seja, cada um dá seu parecer (se o objeto tem ou não
olhos, pelos, etc.). A rede neural erra muito, literalmente milhões de vezes.
Mas uma hora, por pura insistência, acaba acertando. Quando isso acontece, ela
evolui: os neurônios que estavam certos desde o início ganham mais peso, e
passam a ser copiados pelos demais. Ou seja, a rede neural aprende.
Dali
em diante, toda vez que aparecer um gato, ela vai identificar no ato. E quando
for aprender a analisar outra coisa (a foto de um cachorro, por exemplo), não
vai sair do zero deduzirá as semelhanças e diferenças daquilo com o que
aprendeu antes (gato). Como não requer intervenção humana, esse processo pode
ser executado infinitamente. E repetindo o processo muitas vezes, com muitas
coisas – imagens, palavras, frases, perguntas, respostas –, e você vai acabar
chegando a um computador hiperinteligente.
Pelo
menos essa é a ideia. Ela não é nova: as redes neurais foram propostas pela
primeira vez em 1946. Mas só agora, com chips
potentes e quantidades astronômicas
de dados para treinar, estão decolando. Porque nada na história teve acesso a tantos dados quanto o Google. Além
de indexar bilhões de páginas da internet, ele também é alimentado pelos
próprios usuários. Quando você recebe um e-mail no Gmail ou salva alguns no Photos,
por exemplo, o Google usa os seus arquivos para alimentar as redes neurais.
“Mostre
1 milhão de imagens de árvores para o computador, e deixe ele aprender sozinho”,
explica o engenheiro Otavio Good.
Árvores ou qualquer outra coisa – até placas de rua. Tímido, simpático e
intensamente nerd, Otavio trabalhava fazendo games de PlayStation e Xbox antes
de ir para o Google. Ele é filho de mãe brasileira, aprendeu um pouco de
português na infância. E em 2010, para ajudar amigos que iriam visitar o
Brasil, criou o WordLens: um app que traduz, em tempo real, o que está escrito
em placas, cardápios, etc. Basta apontar a câmera do celular, e a tradução
aparece no ato. É bem impressionante. O Google também achou, tanto que em 2014
contratou Otavio e comprou o app dele, que hoje é parte do Translate e funciona com dezenas de idiomas. Nas horas de folga,
ele e a esposa (Zinaida Good, bióloga computacional da Universidade Stanford)
organizam o que ele chama de festas de machine
learning: recebem amigos, cada um com o respectivo laptop, e tentam bolar
novos algoritmos de inteligência artificial. Divertido.
[ .
. . ]
Microcozinhas
e maximesas
A
sede do Google fica em Mountain View, a uma hora de São Francisco. Recebe 30
mil funcionários e 3 mil estagiários por dia, que consomem de 35 a 50 mil
refeições em dezenas de restaurantes e cafeterias e mais de 150 microcozinhas:
áreas self-service com geladeiras, máquinas de café e todos os tipos de snack [sanduíches], do mais saudável e
exótico (algas importadas da Coreia) ao mais trash [porcaria] – que o Google, propositalmente, coloca em
prateleiras baixas e escondidas.
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. . ]
Mountain
View tem 74 mil habitantes. É pequena, pacata, lembra a cidade de Marty McFly
em De Volta para o Futuro. Mas, por
causa do Google, virou um dos lugares mais caros dos Estados Unidos. Alugar uma
casa custa US$ 4.000 por mês, e isso se você conseguir uma: a cidade tem
déficit de 20 mil residências. Ou seja, acaba sendo meio inviável morar lá. A
maioria dos funcionários do Google vive em cidades adjacentes, como San Jose e
São Francisco, e vai de carro ou ônibus – o que gera congestionamentos
monumentais. O Google quer dobrar o tamanho do seu campus, mas a prefeitura só
deixa se a empresa também construir 10 mil casas (ao custo de US$ 6 bilhões).
No impasse, a saída foi liberar o home
office [escritório/local de trabalho doméstico].
E-mails
e dinossauros
“Seria
bom não ter que digitar tanto”, conta o engenheiro Bálint Miklós, que cuida do Gmail. Pensando nisso, ele criou o que
talvez seja o mais impressionante dos inventos de inteligência artificial do
Google: o Smart Reply, um sistema que
lê e-mails e responde sozinho. Bálint tem a expressão fechada e séria. Só de
olhar, você jamais adivinharia o que fazia antes do Google – foi vice-campeão
nacional de patinação artística na Romênia, sua terra natal. Ele só se anima ao
falar sobre a inteligência do programa. “Às vezes o algoritmo entende até
piadas”, conta. A novidade faz parte do Inbox,
aplicativo que é uma espécie de versão experimental do Gmail, e já pode ser
baixado na loja Google Play.
Conforme
você usa o aplicativo, ele vê com quem você mais conversa, os assuntos que
comenta e até o estilo da sua escrita. Depois de alguns dias, começa a sugerir
respostas curtas para os e-mails. Sempre apresenta três opções, para que você
escolha a melhor (também dá para ignorá-las e escrever você mesmo). Funciona
super-bem. Mas, por enquanto, só em inglês.
A
inteligência artificial do aplicativo Google
Agenda, por outro lado, já funciona na versão em português. Você define uma
meta, como fazer exercício ou estudar um idioma. Aí o robô encontra tempo livre
na sua agenda – e vai ajustando isso de acordo com a sua rotina (ele deduz o
que você fez ou deixou de fazer por meio do GPS do telefone). “Nós aprendemos
os melhores horários para as coisas, que podem variar conforme a pessoa ou a
profissão dela, por exemplo”, diz Jacob
Bank, gerente do Google Calendar.
“É uma mistura de inteligência artificial com ciência comportamental”, diz.
Jacob ainda não alcançou a própria meta, aprender espanhol. “Nós vamos levar muitos anos até mudar a
relação das pessoas com suas agendas”, admite.
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RÉPLICA DE UMA OSSADA DE DINOSSAURO EM MEIO AO CAMPUS DO GOOGLE serve para lembrar que quem não evolui é extinto! |
No
mundo da tecnologia, é uma eternidade. No Computer History Museum, a cinco
minutos da sede do Google, estão os computadores mais importantes da história.
São marcos tecnológicos incríveis, criados por empresas que pareciam
imbatíveis. Mas foram aniquiladas ou viraram sombras do que eram. O Google sabe
que não está imune a isso. Tanto é que seus fundadores, Larry Page e Sergey Brin,
colocaram a réplica da ossada de um dinossauro, em tamanho natural, no meio do
campus. A mensagem é clara: quem não
evolui é extinto. Por isso o Google, mesmo no auge do sucesso, decidiu se
reinventar.
Tem
boas chances de conseguir. Além de investir pesado em inteligência artificial,
está distribuindo os frutos: liberando boa parte do que desenvolve, numa
plataforma de código aberto chamada Tensor
Flow (o nome vem de uma operação matemática realizada pelas redes neurais).
A ideia é que outros pesquisadores e empresas usem a Tensor Flow em seus próprios projetos. Se isso acontecer, o Google
dominará esse mercado – como hoje o Android, que ele também distribui de
graça domina os smartphones. [ . . . ]
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