Afinal, quando os juros baixarão no Brasil?
Campeão de juros
Fábio Alves
Banco Central vai esperar para ver uma convergência da
inflação
para a meta de 4,5% no fim de 2017
![]() |
REUNIÃO DO COPOM (Comitê de Política Monetária) DO BANCO CENTRAL à direita, à cabeceira da mesa, o novo Presidente do BC, Ilan Goldfajn |
Ao
manter a Selic em 14,25% ao ano, o Brasil detém os juros básicos nominais
mais elevados entre os maiores mercados emergentes e uma taxa real cada vez
mais salgada, levando-se em conta que a projeção de inflação para 2017 caiu
de 6% no início de abril para 5,30%, conforme a mais recente pesquisa Focus, do
Banco Central. Na Rússia, os juros
básicos estão em 10,5%, enquanto que na Colômbia e na Turquia, a taxa é de
7,5%. E, na África do Sul, de 7%.
Todavia,
os analistas dizem que as condições
globais estão as mais propícias em quase dois anos para os bancos centrais
emergentes embarcarem, no curto prazo, num ciclo de forte afrouxamento
monetário, à exceção do México (que briga contra a desvalorização do peso) e da
Colômbia (que está em firme combate à inflação).
Primeiro,
espera-se que os bancos centrais de
países desenvolvidos, em particular o da Inglaterra, o do Japão e o da zona do
euro, adotem estímulos, via injeção de recursos ou corte de juros. Mais
ainda: que o Federal Reserve (Fed) demore mais tempo para elevar os juros
americanos e que o aperto monetário seja mais gradual do que o inicialmente
imaginado. No início do ano, apostava-se em quatro altas de juros pelo Fed
neste ano. Agora, o cenário mais agressivo é de uma única elevação, se muito.
Ou seja, a postura monetária
acomodatícia – leia-se juro negativo ou próximo de zero – nos países ricos vai
perdurar por muito mais tempo, levando os investidores internacionais a
migrarem seus recursos em busca de taxas de retorno mais vantajosas,
beneficiando os países com juros elevados, mesmo que em patamares mais baixos
do que os atuais.
Segundo,
a inflação na maioria dos países
emergentes está bem mais comportada do que há um ou dois anos. Na semana
passada, a Malásia, por exemplo, cortou
os juros básicos pela primeira vez desde 2009 ao revisar para baixo a sua
projeção de inflação para este ano. No Peru,
o índice de preços ao consumidor caiu
para 3,34% em junho, depois de ter começado 2016 em 4,61%. Na Rússia, a inflação anual desacelerou de 9,8%, em janeiro deste ano, para 7,5% em junho. E no Brasil, o IPCA acumulado em 12 meses caiu de 10,71% em janeiro para 8,84% em junho.
Câmbio
Terceiro,
com a perda de fôlego na valorização do dólar frente às principais moedas
internacionais, boa parte dos países
emergentes vem conseguindo reduzir o déficit em conta corrente nos últimos
meses, o que dá mais espaços para os bancos centrais cortarem os juros
básicos sem correrem o risco de uma pressão adicional sobre suas moedas. No
início deste ano, os analistas
consultados pela Focus projetavam o déficit de conta corrente do Brasil de
US$ 38 bilhões em 2016. Nesta semana, essa projeção caiu para um déficit de US$ 15 bilhões.
Por
fim, sem uma tendência de dólar forte e
com a relativa melhora e estabilização nos preços de várias commodities, em
particular do petróleo, os países
emergentes que não começarem a cortar os juros básicos na segunda metade deste
ano serão exceção e não a regra. Desde o início de 2016, 33 bancos centrais
ao redor do globo já reduziram os juros básicos, enquanto apenas 17 subiram as
taxas. Mesmo o México e a Colômbia, exceções no ciclo monetário nos mercados
emergentes, não devem promover mais do que duas elevações adicionais dos juros.
No Brasil, o presidente do
BC, Ilan Goldfajn, estreou mudando o formato do comunicado que acompanha a decisão do
Copom, tornando-o parecido, no tamanho e no conteúdo, com o que é divulgado
pelo Fed americano após as decisões de política monetária. No balanço de riscos apresentado ontem, o Banco Central dá um recado
claro:
* vai esperar para ver uma
convergência da inflação para a meta de 4,5% até o fim do ano que vem.
* Se o ajuste fiscal vier logo e as expectativas inflacionárias cederem
mais, Goldfajn terá espaço para cortar a Selic agressivamente a fim de
estimular uma recuperação mais rápida da economia brasileira.
Comentários
Postar um comentário