O padre que já salvou 5 mil pessoas
Graças a um telefone escrito em uma parede, o
padre Mussie Zerai, da Eritreia, conseguiu resgatar
milhares de refugiados no Mar Mediterrâneo
Trinidad Deiros
El
Confidencial (Madri – Espanha)
Quando
o telefone tocou às 3 horas da madrugada naquele seminário de Roma, ao jovem Mussie Zerai se lhe ocorreu que talvez
se tratasse de uma brincadeira de mau gosto. Mas, ao atender, soube que não se
tratava disso: ninguém podia fingir aqueles gritos de desespero nem o barulho
das ondas do Canal da Sicília. Quem
estava do outro lado da linha era um compatriota eritreu que lhe implorava
ajuda e lhe suplicava que salvasse a sua vida e a do resto das pessoas a bordo
de um barco a ponto de afundar em águas do Mediterrâneo.
O
aspirante a sacerdote não sabia o que fazer nem a quem recorrer, tampouco como
tranquilizar o seu compatriota para que lhe desse pistas sobre onde o barco
podia estar. Quando conseguiu, explica por telefone ao El Confidencial da Suíça, acordou
um superior e ambos procuraram nas páginas amarelas o número da Guarda Costeira
da Marinha italiana. Graças ao sinal de alerta que os dois religiosos
deram, a Guarda Costeira italiana
localizou o barco e conduziu os seus ocupantes, são e salvos, à ilha italiana
de Lampedusa.
Foram
apenas os primeiros. Desde aquele
telefonema de 2003, Mussie Zerai, padre eritreu – agora com 41 anos –, salvou
milhares de refugiados de guerras, fomes e ditaduras. No princípio, o fazia
sozinho, atendendo a certos telefonemas em seu celular pessoal a qualquer hora
nos sete dias da semana. Com o tempo,
chegou a dominar a difícil tarefa de tranquilizar pessoas quase sempre
aterrorizadas e explicar-lhes como e onde encontrar as coordenadas do GPS nos
telefones satelitais que alguns tinham, a pista chave que levou muitas
vezes – nem sempre – a um resgate bem sucedido por parte da Guarda Costeira
italiana.
“Em
2003, um jornalista italiano que tinha visitado as prisões para imigrantes do
regime de Gadafi [na Líbia], me pediu ajuda para falar com um refugiado eritreu e depois lhe fizesse
a tradução, motivo pelo qual falei por telefone com este compatriota que estava
preso na Líbia”, recorda Mussie Zerai.
“Caso
necessitar de ajuda, ligue para este telefone”
Assim chegou o número do telefone
desse padre às mãos desse aspirante a refugiado eritreu que, em uma
manifestação de solidariedade, não o guardou apenas para si mesmo, mas o
escreveu em uma parede daquela prisão, acompanhado das seguintes palavras: “Caso necessitar de ajuda, ligue para este telefone”.
Desde aquele primeiro telefonema de
socorro em 2003, esse telefone não mais parou de tocar. Seu número salvador
apareceu desde então não apenas nas paredes de prisões para imigrantes do norte
da África, mas também nos barcos que
chegam a Lampedusa e inclusive nos contêineres
em que os traficantes às vezes escondem os refugiados para atravessar o deserto
do Sudão.
A
voz de que o Pe. Zerai socorria os refugiados em apuros correu tanto e tão
depressa que logo o religioso eritreu viu-se sobrecarregado. Então, “inspirado em seu trabalho”, recorda, foi
criado uma central de chamadas telefônicas, chamada Watch the Med (Vigia o Mediterrâneo). Nessa linha de
atenção urgente, dezenas de voluntários atendem em diferentes idiomas
candidatos a refugiados em perigo que telefonam de lugares tão distantes como o
Iêmen ou a Indonésia.
O padre Zerai criou também a
agência Habeshia, uma organização sem fins lucrativos cuja finalidade é ajudar a integração
econômica, social e cultural das pessoas que necessitam de proteção humanitária.
O trabalho do religioso eritreu o fez merecedor, no ano passado, de uma
candidatura ao Prêmio Nobel da Paz. Segundo dados da própria Guarda Costeira
italiana, seus telefonemas indicando a posição de embarcações em perigo
salvaram pelo menos 5 mil pessoas desde 2003.
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VOLUNTÁRIO OBSERVA AS DEZENAS DE CAIXÕES COM CORPOS DE REFUGIADOS MORTOS AFOGADOS NO MAR MEDITERRÂNEO Ilha de Lampedusa - Itália |
Quando
se premia os regimes culpados
O
padre Mussie Zerai fala devagar e com um tom sereno. Sua voz só se eleva de tom quando evoca as políticas da União Europeia
em matéria de imigração e asilo político, que ele define como “criminosas”.
Porque este religioso não proporciona apenas coordenadas de barcos perdidos;
também trata de criar consciência em diálogos com o Governo italiano e as
instituições europeias que, no momento, deram pouco fruto. Também não reluta em ir a Lampedusa para visitar e fazer gestões em
favor dos refugiados trancafiados nos centros de detenção: “Faço o que
considero ser meu dever”, resume a El
Confidencial.
Seu
trabalho já foi parar nas páginas de meios de comunicação internacionais, e
publicações como The New Yorker e o
jornal The New York Times
dedicaram-lhe amplas reportagens. A
relevância pública que começou a ter serve-lhe de plataforma para denunciar
máculas como o tráfico de seres humanos no Sudão e na Península do Sinai.
Os
êxodos massivos de pessoas se veem agravados – sustenta – porque os regimes “responsáveis pela fuga destas
pessoas obtêm financiamentos da União Europeia”. Assim como tantos
eritreus, Mussie Zerai foi um refugiado
em sua juventude. Nasceu em Asmara, a agora capital eritreia, em 1975 e
muito cedo ficou órfão de mãe e também sem pai, pois seu progenitor teve que
fugir do país para salvar a vida. Sua
infância transcorreu em meio a bombardeios da guerra pela independência da
Etiópia, uma independência que veio em 1991. No entanto, a libertação
serviu apenas para deixar caminho livre para uma ditadura criminosa que ainda
não terminou e da qual o então adolescente eritreu fugiu para colocar-se a
salvo na Itália, o país que o acolheu no princípio da década de 1990.
Ele
não foi o único. Desde então, centenas de milhares de seus compatriotas
converteram-se em refugiados de um regime a cujos abusos ninguém pôs limites. Em 2015, recorda o padre Zerai, “os
eritreus foram o segundo país em número de refugiados que chegaram à Europa”.
Esta diáspora e os êxodos massivos de pessoas de outras nacionalidades se veem
agravadas – sustenta – porque os regimes
“responsáveis pela fuga destas pessoas obtêm financiamento da União Europeia”.
Os
dados lhe dão razão. Um relatório das
Nações Unidas de começo de junho acusava o regime eritreu de “violações em
massa de direitos humanos” e de manter na escravidão centenas de milhares de
pessoas, além da prática corrente de execuções extrajudiciais e todo tipo de
atrocidades. Calcula-se que cerca de 5 mil eritreus fogem de seu país cada
mês. Isso não foi impedimento para a
União Europeia conceder recentemente à ditadura eritreia um pacote de ajuda de
200 milhões de euros. Nesse mesmo dia, em 23 de março passado, as instituições europeias aprovaram, por
sua vez, o financiamento da administração do presidente sudanês Omar al Bashir
para que controle melhor suas fronteiras. Sobre Al Bashir pesa um mandado
de busca e apreensão do Tribunal Penal Internacional de Haia por genocídio e
crimes de guerra e contra a humanidade.
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CRIANÇA REFUGIADA CARREGA O IRMÃOZINHO EM UM CAMPO DE ACOLHIDA As crianças são, com certeza, as maiores vítimas! |
Um
“imenso cemitério”
“As
políticas europeias de imigração dos
últimos 20 anos não apenas se centraram inutilmente no fechamento das
portas da Europa, mas favoreceram os traficantes de pessoas e inclusive o
tráfico de órgãos em países de trânsito. Quanto
mais difícil e perigoso é entrar na Europa, mais lucrativo é o negócio dos
traficantes, que pedem quantidades mais altas às suas vítimas”, lamenta-se
o padre.
“A Europa sabe unicamente erguer muros e
colocar arame farpado em vez de tratar de compreender o que está acontecendo,
por que estas pessoas fogem e contribuir para a criação das condições de vida
dignas que evitem que tenham que colocar em perigo as suas vidas. Isso não
se faz financiando precisamente os responsáveis por estas pessoas terem que
fugir de seus países”, continua.
De
acordo com cálculos de diversas organizações humanitárias, cerca de 30 mil pessoas morreram desde 1993 enquanto procuravam
alcançar as costas europeias. Somente em 2015, a Organização Internacional
das Migrações contabilizou 3.771 mortes. Esse número corresponde às mortes
registradas, mas seu número real é, com certeza, maior. A União Europeia descumpriu até o momento a promessa que fez em 2015 de
acolher 160 mil refugiados; no final do mês de abril passado, pouco mais de mil
tinham sido reassentados. No caso da Espanha, que no ano passado se
comprometeu a receber 16 mil refugiados, chegaram apenas 62. Destes, 39 são
eritreus.
“A
nossa organização concedeu bolsas de estudo para jovens eritreus na Etiópia.
Mesmo se estes jovens alimentam o sonho de ir à Europa, dando-lhes uma bolsa se
está fazendo com que fiquem na Etiópia durante quatro ou cinco anos”. Os
Estados europeus se escudam em razões econômicas, mas esse argumento não é
suficiente para o homem a quem a imprensa italiana chama de “âncora” ou “o anjo
guardião” dos refugiados. Para começar, porque assegura que a política europeia de imigração
transformou-se em um “negócio”. E cita o caso da Frontex,
a agência europeia de controle de fronteiras.
“A Frontex tem um orçamento de 90 milhões de
euros e mesmo assim não consegue evitar a entrada de pessoas que buscam refúgio.
Esse dinheiro é usado para expulsar os
refugiados, o que custa cerca de 3 mil dólares por pessoa. Quando, depois,
sabemos que a Comunidade de Santo Egídio e as Igrejas evangélicas da Itália
criaram um corredor humanitário para atrair refugiados de forma segura e que
isto custou 400 dólares por pessoa, é
evidente que o que falta é vontade política”, disse o religioso.
Na sua opinião, há
alternativas.
Por exemplo, favorecer que os refugiados
de guerras e ditaduras como a eritreia desfrutem de condições dignas nos países
que acolhem a maioria deles; ou seja, os Estados vizinhos: “A nossa
organização concedeu bolsas de estudo para jovens eritreus na Etiópia. Mesmo se
estes jovens alimentam o sonho de ir à Europa, dando-lhes uma bolsa se está fazendo com que fiquem na Etiópia durante
quatro ou cinco anos, um tempo no qual essa pessoa talvez avalie se vale a pena
arriscar a vida colocando-se nas mãos das redes de tráfico de pessoas. Se
depois esse jovem continua a querer vir à Europa e finalmente o consegue, quem
chegar será um profissional, por exemplo, um médico, que poderá contribuir para
o desenvolvimento de seu país de acolhida e ganhar a vida”.
“A Europa deve reagir,
porque, do contrário, o Mediterrâneo vai acabar se transformando num imenso
cemitério”,
conclui.
Traduzido
do espanhol por André Langer. Acesse
a versão original deste artigo, clicando aqui.
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