Da religião de Jesus para a religião dos sacerdotes
A Igreja:
da luta contra o sofrimento dos pobres e excluídos,
ao estabelecimento e reforço da própria autoridade
José María
Castillo
Forma três as preocupações fundamentais que o próprio
Jesus viveu:
a saúde, a alimentação e as relações humanas
Costuma-se
dizer (e é verdade) que a religião
cristã tem sua origem em Jesus de Nazaré. Como também se costuma dizer (e
também é verdade) que a Igreja teve seu
início na vida e nos ensinamentos de Jesus. Mas, tão certo como o que acabo
de dizer é que Jesus não fundou (ou
instituiu) uma religião, nem fundou (ou instituiu) uma Igreja.
Como
iria fundar uma religião um homem que provocou um conflito mortal com os
dirigentes da religião, com o Templo, com os sacerdotes, os rituais e normas
que a religião impunha às pessoas, de forma que tudo aquilo terminou na
condenação de Jesus como um criminoso subversivo? E, no que se refere à Igreja, nem mesmo o Concílio Vaticano II se atreveu
a dizer que Jesus foi seu “fundador”, mas se limitou a indicar que a Igreja
teve sua origem na pregação de Jesus sobre o Reino de Deus (Lumen Gentium 5, 1).
Evidentemente,
São Paulo colocou o nome de “igrejas” às “assembleias” que ele foi
organizando em suas viagens apostólicas. Mas sabemos que Paulo foi um judeu de
cultura grega, na qual o termo “ekklesía”
designava a assembleia dos cidadãos
livres, que se reuniam para votar democraticamente as decisões importantes.
Então,
o que é que Jesus deixou àqueles que creem n’Ele e, portanto, pensam que seu
legado é importante, inclusive determinante e até decisivo? Lendo e analisando
a fundo os Evangelhos, o que neles fica claro é que Jesus foi um profeta que transmitiu à sua posteridade um PROJETO DE
VIDA, uma FORMA DE ESTAR e de AGIR NESTE MUNDO.
Um
projeto de vida que se coloca em prática a partir do que foram as três preocupações fundamentais que o
próprio Jesus viveu:
1)
A saúde (relatos de “curas de
enfermos”).
2) A
alimentação (relatos de “comensais”,
a mesa compartilhada).
3) As
relações humanas (ensinamentos sobre
a “felicidade, misericórdia, justiça, perdão, amor...”).
Este “projeto de vida”, na
linguagem e na teologia do Evangelho, resume-se e condensa-se no “SEGUIMENTO”
DE JESUS.
De forma que a Cristologia se constitui primordialmente, não a partir de
determinados dogmas e saberes, mas a partir do seguimento de Jesus.
Pois
bem, se o que acabo de dizer foi constitutivo e determinante nas origens do
cristianismo, na sequência se compreende – e sem dificuldades – como e por que
a Igreja encontrou acolhida na Antiguidade ou, pelo contrário, como e por que a
Igreja encontra indiferença e até rejeição na Modernidade.
Quero
dizer que, nos primeiros séculos da sua
história, quando a Igreja foi se organizando e se fez presente na sociedade
de forma que o central e determinante da
sua vida foi a luta contra o sofrimento e a acolhida de todo tipo de gente
marginalizada, excluída e desprezada, foi quando a Igreja se expandiu por
todo o Império, até chegar a ser a instituição central e mais valorizada
naquele tempo.
Como
bem explicou o professor Eric R. Dodds,
quando o Império viveu uma autêntica “época de angústia” (desde meados de
século II até o século IV), “a Igreja oferecia todo o necessário para
constituir uma espécie de segurança social: cuidava dos órfãos e viúvas, atendia os anciãos, os incapacitados e os
que careciam de meios de subsistência...” [Cf. seu livro: DODDS, E. R. Pagan and Christian in an Age of Anxiety:
Some Aspects of Religious Experience from Marcus Aurelius to Constantin.
Cambridge: Cambridge University Press, 1991 – 1ª edição: 1965 – tradução: Pagãos e Cristãos em uma Época de Angústia:
alguns aspectos da experiência religiosa de Marco Aurélio a Constantino. Há
edições também em francês e espanhol desse livro].
E o
próprio Dodds acrescenta: “Deveriam ser muitos os que se sentiram
desamparados:
* os bárbaros urbanizados,
* os camponeses chegados às cidades em busca de trabalho,
* os soldados dispensados,
* os rentistas arruinados pela inflação e
* os escravos libertos.
Para todo esse pessoal, passar
a fazer parte da comunidade cristã devia ser o único meio para conservar o
respeito para consigo mesmo e dar à própria vida algum sentido. Dentro da comunidade se
experimentava o calor humano e tinha-se a prova de que alguém se interessa por
nós, neste mundo e no outro”.
Ao longo do tempo, o centro das preocupações da Igreja foi se deslocando:
* da luta contra o sofrimento
dos pobres e excluídos
* para o estabelecimento e
fortalecimento da própria autoridade.
O que desembocou no
deslocamento do eixo centrado no Evangelho de Jesus para a religião dos
sacerdotes.
O “seguimento” evangélico deixou de ser central na Igreja. E passou a ser
central, a partir de então, o “poder”
eclesiástico, que traz para o primeiro plano – na prática – a submissão dos fiéis, em vez da solidariedade com os pobres,
marginalizados e excluídos.
Sendo
assim, enquanto a religião foi um componente central da cultura e da sociedade,
a Igreja se viu a si mesma como fiel à missão que tinha que cumprir neste
mundo. Até que, no século XVIII, o
Iluminismo escancarou as contradições que a Modernidade encontra no fato
religioso. Contradições que, nos séculos XIX e XX, ganharam força e
presença na mentalidade dos cidadãos da moderna “cultura secular”. O que nos
trouxe à desconcertante situação que estamos vivendo hoje.
Se
nos empenharmos em continuar tentando harmonizar – e até identificar –
“religião” e “Evangelho”, a maioria dos cidadãos não colocará em prática a
religião e a gente religiosa não vai entender o Evangelho vivendo o seguimento
de Jesus. Como é lógico e inevitável, nestas condições, o presente e o futuro
da Igreja torna-se cada vez mais problemático.
Continuaremos confinados em
nossa tradicional religiosidade ou nos decidiremos pela fidelidade definitiva
do seguimento de Jesus?
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