Meditações sobre Maria Madalena apóstola
Enzo Bianchi*
Jornal
“L’Osservatore Romano” – Vaticano
21-07-2016
É a
figura feminina mais intrigante dos quatro Evangelhos,
é
evidenciada particularmente por João como mulher próxima do Senhor e como
primeira testemunha da Sua ressurreição.
A
recente iniciativa do Papa Francisco, de elevar a memória litúrgica de Maria
Madalena, no dia 22 de julho, à FESTA, como dos Apóstolos, é profética. E está destinada a
marcar, sem dúvida, uma reviravolta.
A “apóstola
dos apóstolos”, como São Tomás de Aquino a define, foi oficialmente posta como
“paradigma da tarefa das mulheres na Igreja”.![]() |
Pintura em óleo do russo Alexander Andreyevich Ivanov de 1835: "Jesus Aparece a Maria Madalena após a Ressurreição" |
Maria
Madalena é uma das figuras femininas mais intrigantes para quem lê a Escritura.
Presente em todos os Evangelhos, junto com as outras discípulas de Jesus, mulheres da Galileia, é evidenciada
particularmente por João como mulher próxima do Senhor e como primeira testemunha da Sua ressurreição.
Significativamente, no quarto Evangelho,
ela aparece ao lado da cruz, junto com a mãe de Jesus, com a irmã da mãe,
Maria de Cléofas, e com o discípulo amado pelo Senhor.
Na
hora de Jesus, na hora da elevação do Filho do homem (cf. João 3,14; 8,28) e da
Sua glorificação (cf. João 12,23), sob a cruz, estão presentes os amigos do
Senhor, aqueles ligados a Ele por amor e agora chamados a se tornar a
comunidade de Jesus, na escandalosa ausência de todos os discípulos, menos um.
Agora,
Maria Madalena está lá embaixo da cruz, na hora da extrema da vida de Jesus
(cf. João 19, 25), enquanto todos os outros discípulos fugiram, abandonando-O. Justamente ela e o discípulo amado são as
únicas testemunhas da morte de Jesus e da Sua ressurreição. Na cruz, ela
não diz e não faz nada, mas, no terceiro dia depois da morte, isto é, no
primeiro dia da semana judaica, no início da manhã, enquanto ainda está escuro,
Maria vai ao sepulcro (cf. João
20,1-2.11-18). De acordo com o quarto evangelista, é uma iniciativa pessoal
dela, mas, de fato, naquela sua ida ao túmulo, como figura típica e exemplar, ela também representa as outras mulheres
que, de acordo com os Evangelhos sinóticos, tinham ido com ela; eis porque ela
fala no plural, também no nome delas: "Não
sabemos onde o puseram".
Porque
Maria, passado o sábado, assim que possível, vai ao túmulo? O quarto Evangelho
não nos oferece o motivo: ela não vai para ungir o cadáver de Jesus (cf. Marcos
16,1; Lucas 24,1), nem para observar o túmulo (cf. Mateus 28, 1), mas de modo
totalmente gratuito. Só podemos dizer que, nela, há um desejo de estar perto do corpo morto de Jesus: Aquele que
Maria amou está morto, agora o Seu corpo está lá no túmulo, e Maria quer estar
simplesmente perto d’Ele. Está como que torturada
por aquela "ardente intimidade da ausência", que seria cantada
por Rainer Maria Rilke.
Tendo
chegado ao túmulo, ela vê a pedra removida e, então, faz uma corrida, vai ao
encontro de Pedro e do discípulo amado, e lhes diz: "Levaram o Senhor do sepulcro, e não sabemos onde o puseram".
Ao
ouvir isso, os dois discípulos correm logo para o sepulcro, e, naquela corrida,
há uma verdadeira con-concorrência: o discípulo
amado é mais rápido e chega primeiro, depois também chega Pedro, que entra, vê as faixas sobre o
chão e o sudário envolto de modo ordenado.
Pedro está na dúvida e
hesitação
(cf. João 20,3-7.), enquanto o discípulo
amado, tendo também entrado no sepulcro, "viu e acreditou" (João
20,8). Enquanto tudo isso acontece ao redor de Maria, ela, como se não se desse
conta, continua a chorar e, inclinando-se para dentro do túmulo, "viu dois anjos vestidos de branco, sentados
onde o corpo de Jesus tinha sido colocado, um na cabeceira e outro nos pés".
Maria não faz muito caso, nem mesmo aos dois anjos, que também eram uma
manifestação divina e deveriam despertar temor nela (cf. Mateus 16,5 e
paralelos).
Não,
Maria busca Jesus, o seu Senhor, e –
se poderia dizer – não sabe o que fazer com
os anjos. Assim como Bernardo de
Claraval, que, comentando o Cântico dos Cânticos, expressa assim a sua
busca por Jesus: "Rejeito as visões
e os sonhos, (...) os anjos também me
incomodam. Porque o meu Jesus os
supera em muito com a sua beleza e o seu esplendor. Não a outros, portanto, seja anjo, seja homem, mas é a Ele que
eu peço que me beije com os beijos da sua boca (cf. Cântico dos Cânticos,
1,2)!" (Sermões sobre o Cântico dos
Cânticos II, 1). Os anjos luminosos lhe perguntam: "Mulher, por que você está chorando?",
mas Maria continua afirmando
obsessivamente a sua busca de Jesus, que ela define como "o meu
Senhor".
Jesus
é o Senhor, o kýrios da Igreja, mas é
chamado por ela de "o meu
Senhor". Há algo de
extraordinário nesse amor persistente para além da morte, que leva Maria a
buscá-lo, a sofrer pelo fato de não saber onde está o seu corpo morto. O
pranto testemunha a sua dor que se tornou eloquente por todo o corpo: é a Madalena, com todo o seu ser, corpo,
mente e coração, que busca o corpo de Jesus, o corpo do amado.
Para
Maria, não bastam nem a recordação, nem as suas palavras, nem o sepulcro que é
um memorial (em grego, mneméion, como
o sepulcro é definido em todos os Evangelhos): ela quer ficar ao lado do corpo
de Jesus. Busca amorosa, fiel, perseverante, que custa a aceitar a realidade do
fim de uma relação, porque, para ela, Jesus significava tudo.
Maria, a mãe de Jesus,
certamente vivia para Jesus; Maria da Magdala, em vez disso, graças
a Jesus. A ela foi dado fazer aquela experiência que algumas, na
própria vida, fazem por graça extraordinária: reerguer-se, graças a alguém, da
sombra da morte, do não sentido, do ser presa do nada, a uma vida que conhece o
ser amado e o amar.
Madalena,
de fato, é amada por Jesus e, por sua vez, ama a Jesus, para com o qual ela se
sente devedora. É por isso que o seu pranto é o da amada-amante que perdeu o
seu amado-amante, como ocorre no Cântico dos Cânticos, onde a jovem, à noite,
busca o seu amado, levanta-se, vaga com audácia na escuridão para buscá-lo, interroga
os guardas noturnos e, depois, finalmente, encontra-o no seu jardim (cf. 3,1-4).
E
assim acontece naquela aurora primaveril, no monte dos aromas (cf. 2,17; 8,14), lá onde havia um jardim, lugar da sepultura de Jesus. Em meio às lágrimas,
Maria responde aos dois anjos que a interrogaram sobre o seu pranto:
"Levaram o meu Senhor, e não sei onde o puseram". Dito isso, virou-se
para trás (estráphe éis tà opíso),
dando início ao diálogo com outro personagem, desta vez humano.
O
fato de ela se virar para trás tem um valor simbólico: Maria relê toda a sua
vida com Jesus, faz anamnese da sua relação repleta de amor com Ele e,
portanto, continua chorando também por causa da nostalgia por aquilo que foi e
não poderá voltar mais. Na sua dor, ela se vira para trás, não olha mais o
túmulo nem os anjos, mas entrevê um homem, que lhe faz a mesma pergunta:
"Mulher, por que você está chorando?".
Assim
como Jesus chorou pelo Lázaro morto (cf. João 11,35), Maria chora por Jesus
morto. Chora por amor e por dor de amor, e não, de fato, pelos seus pecados:
Maria é a única que chora por Jesus! É apenas Pedro o ícone evangélico que
chora pelos seus pecados, pela sua horrível vilania, pelo seu amor breve como o
orvalho da manhã (cf. Oseias 6,4). Pedro não chora sobre Jesus, mas sobre si
mesmo, por ter traído o amigo (cf. Marcos 14,72 e paralelos).
Sim,
Pedro deveria ser ícone do arrependimento cristão, e Maria Madalena, ícone do
amor por Jesus! Maria, pensando que aquele que agora tem na frente é o
jardineiro, o guardião daquele jardim em que Jesus tinha sido sepultado por
José de Arimateia e por Nicodemos, respondeu-lhe: "Se foi o senhor que
levou Jesus, diga-me onde o colocou, e eu irei buscá-lo". Mas aquele
homem, que é Jesus, também lhe pergunta: "A quem você busca?",
pergunta análoga à que foi feita por Ele aos dois discípulos do Batista:
"O que vocês estão procurando?" (João 1,38: suas primeiras palavras
no quarto evangelho!). Nessa interrogação, há algo que, para Maria, não é novo,
porque é a pergunta essencial que Jesus fazia a qualquer um que queria se
tornar Seu discípulo: buscar é a condição específica do discípulo.
Nesse
ponto, Jesus, com o Seu rosto contra o rosto de Maria, lhe diz: Mariám!,
chama-a pelo nome, e imediatamente ela, "voltando-se" (straphéisa)
novamente para Ele, o Jesus glorificado, está pronta para reconhecê-Lo e para
Lhe dizer: "Rabuni, meu mestre!". Quantas vezes tinha acontecido esse
diálogo entre ela e Jesus: ela, a ovelha perdida, mas reencontrada por Jesus
(cf. Mateus 18,12-14; Lucas 15,4-7), chamada pelo nome, reconhece a voz do
pastor (cf. Jo 10,3-4). "Maria!", um novo chamado e, logo depois, um
convite: "Pare de me tocar", isto é, tire as suas mãos de mim, porque
não há mais possibilidade de encontro entre corpos como antes, estando já o
corpo de Jesus ressuscitado no seio do Pai.
Maria,
que podia dizer que estava entre aqueles que "tinham ouvido, visto com os
seus olhos, contemplado e tocado com as suas mãos a Palavra da vida" (cf.
1João 1,1), agora deve acreditar e amar Jesus de outro modo: o Seu amor não
morre, não desaparecerá, mas outro é o modo em que, agora, Maria deve amar
Jesus! Ela tinha se virado para trás, para o seu passado, mas agora, chamada
por Jesus, ela se vira para Ele, o Ressuscitado, sem mais nostalgia do tempo
anterior ao Seu êxodo deste mundo ao Pai (cf. João 13,1).
Essa
página joanina é muito afetiva, no sentido de que é repleta de sentimentos e,
como tal, também inspira a nossa imaginação ao pensar a relação de amor com o
Senhor Jesus. É uma página que, claramente, tem no pano de fundo o já lembrado
Cântico dos Cânticos, no qual, em um jardim, acontece um diálogo de amor entre
os dois parceiros (cf. 4,16; 5,1; 6,2), que se perdem, se buscam e se
reencontram (cf. 3,1-4; 5,1-8). Como a mulher no Cântico dos Cânticos, Maria
de Magdala é mulher do desejo, um desejo tão forte e tenaz que permite apenas a
ela, tendo permanecido no sepulcro para buscar Jesus, poder vê-lo.
Mas
o que, em particular, eu gostaria de evidenciar é o fato de que essa busca,
essa perseverança, essa identificação da presença do corpo são traços
tipicamente femininos, essenciais na amizade entre homens e mulheres. Ao mesmo
tempo, essa página joanina é dangereuse, perigosa, para aqueles que não sabem
entender o amor com olhos puros, até serem induzidos a muitas fantasias sobre a
relação entre Jesus e Madalena.
Trata-se
de uma reação nada nova, que já ocorreu na história e foi testemunhada em
textos apócrifos, especialmente no Evangelho de Filipe: desvio devido ao
prurido daqueles que não sabem senão atribuir a Jesus os seus próprios desejos
modestos! Naquele encontro com o Ressuscitado, Maria de Magdala é logo tornada
apóstola, enviada aos discípulos, aos irmãos de Jesus, para levar a eles o
anúncio pascal. E ela, em plena obediência, declara: "Vi o Senhor" e
relata o que Ele lhe disse.
Sim,
na origem da fé pascal, acima de tudo, está Maria da Magdala (e as mulheres
discípulas por ela representadas), uma mulher que acreditou no Senhor Jesus e O
amou. Infelizmente, porém, no Ocidente, Maria conheceu uma história triste, mas
não estranha, e foi submetida a uma série de equívocos: tornou-se também a
pecadora, a prostituta do Evangelho de Lucas, até Maria de Betânia, e foi
pintada no ato de chorar pelos seus pecados, dos quais nenhum evangelista
jamais falou.
De
fato, o fato de que Jesus "tinha expulsado sete demônios dela" (cf.
Marcos 16,9, Lucas 8,2) indica apenas o fato de ela ter sido libertada de uma
grave situação de doença (sete é um número que indica plenitude, portanto,
doença grave), não os seus pecados! O encontro com Jesus tinha significado para
ela cura, libertação dessas forças opressivas, renascimento e possibilidade de
uma vida nova, sensata: de mulher "morta" como era, ela tinha sido
reerguida e levada novamente por Jesus à vida plena, aquela em que se vivem
afetos, relações, amor, comunhão, alegria, junto com o esforço da dura tarefa
de viver.
![]() |
ENZO BIANCHI Teólogo e Escritor italiano |
Contudo,
deve-se reconhecer que, se é verdade que Maria de Magdala se beneficiou no
Oriente com o título de isapostola, isto é, "igual aos apóstolos", e,
no Ocidente, com o de "apóstola dos apóstolos", na realidade, nunca
lhe foram reconhecidos nenhum valor eclesial e nenhuma qualidade ministerial.
Estamos bem longe de levar a sério as palavras de Rábano Mauro, um monge e
bispo que viveu entre os séculos VIII e IX, que, na sua biografia de Maria de
Magdala (Vida de Santa Maria Madalena, 26-27), comenta a aparição a ela de
Jesus ressuscitado destacando como esse evento confere uma decisiva função na
Igreja a essa mulher discípula:
«Maria
crê no Cristo, obtendo a fé n’Ele a partir da escuta da desejada voz do Senhor
e a partir da Sua própria presença tão desejável (...) |Ela acreditou
firmemente que o Cristo, filho de Deus, que ela via ressuscitado, era
verdadeiro Deus, Aquele a quem ela tinha amado quando vivo; que realmente tinha
ressuscitado dentre os mortos Aquele que ela tinha visto morrer (...) O
Salvador, persuadido de que o amor de Maria era puríssimo, (...) elegeu-a
apóstola da Sua ascensão (...) como, pouco antes, tinha-a instituído
evangelista da ressurreição (...) Ela, elevada a tão grande e tão alta
dignidade de honra e de graça, pelo próprio filho de Deus e Salvador nosso,
(...) não hesitou em exercer o ministério de apóstola com o qual tinha sido
honrada (...) Maria, com os seus coapóstolos, anunciou o Evangelho da
ressurreição de Cristo com as palavras: "Vi o Senhor" (João 20,18) e
profetizou a sua ascensão com as palavras: "Subo para junto do meu Pai e do Pai
de vocês" (João 20,17)».
*
ENZO BIANCHI é monge e teólogo italiano, prior e fundador
da Comunidade de Bose.
Traduzido do italiano por Moisés Sbardelotto. Acesse a versão
original deste artigo, clicando aqui.
Comentários
Postar um comentário