Crise tira ânimo dos jovens eleitores
Gilberto
Amendola
Tribunal Superior Eleitoral aponta queda no número de
votantes de
16 e 17 anos em relação às eleições de 2012
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JOVENS DEBATEM ELEIÇÕES Da esquerda para a direita, temos: Júlio Brito, Renata Santana, Caio Franquini e Julia Fugiwara |
Não vai ser fácil para ninguém, mas deve ser um
tanto pior para quem vai encarar uma urna eletrônica pela primeira vez. Nas próximas eleições, mais de 2 milhões de
jovens, entre 16 e 17 anos ou recém-chegados à maioridade, estarão aptos ao voto.
Trata-se de uma geração que cresceu sob governos petistas, que se acostumou com
uma certa calmaria econômica, que aprendeu a discutir sexualidade e liberdades
individuais sem travas, que mergulhou em seus próprios smartphones e participou
da revolução das redes sociais.
O presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE),
ministro Gilmar Mendes, divulgou na segunda-feira, 25 de julho, os dados
oficiais sobre as eleições municipais de 2016. O Brasil tem hoje 144.088.912 de eleitores aptos a votar no próximo dia
2 de outubro. Os que têm 16 e 17
anos correspondem 1,6% do total (2,3 milhões). O número é inferior ao
registrado nas eleições de 2012, de 2,4 milhões, e à série história, que teve
seu pico em 1994 (2,34% do total de eleitores).
Mas como
estará o espírito e a cabeça desse jovem estreante? É preciso considerar o caldo em que esse eleitor está sendo
forjado, um caldeirão em que se misturam:
* Operação Lava Jato,
* processo de impeachment da presidente afastada Dilma
Rousseff,
* governo interino de Michel
Temer,
* ocupações das escolas
estaduais e muito mais.
INTERESSE
Quatro alunos do Colégio
Singular, de Santo André, na Grande São Paulo, foram convidados a debater o
futuro eleitoral: Júlio Brito, de 17
anos; Renata Santana, 17; Caio Franquini, 17; e Julia Fugiwara, 16 [veja foto acima]. Os garotos se mostraram pouco animados ou
interessados no processo eleitoral. Por outro lado, as garotas aparentaram ansiedade e vontade de participar
formalmente (por meio do voto) de uma eleição.
Sobre a importância do título de eleitor, por
exemplo, Brito diz que “não tinha tido tempo de correr atrás disso” e Caio afirmou que “prefere se concentrar nos
estudos para o vestibular”.
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MARCO ANTONIO CARVALHO TEIXEIRA Cientista Político da FGV-SP |
Renata e
Julia, pelo contrário, não querem esperar e devem votar para prefeito e
vereador nas eleições de outubro. Julia, por participar do primeiro coletivo
feminista da escola, é a mais animada: “Às vezes ouço meus pais falarem do
tempo do governo Fernando Henrique, do (Fernando) Collor, do Itamar (Franco).
Acho que as coisas eram diferentes. Muita
coisa melhorou. Outras pioraram.”
Marco Antonio
Carvalho Teixeira, cientista político da FGV-SP, considera que esse eleitor de primeira viagem chega “contaminado pela polarização
atual”. “Chega no meio desse debate político que é muito raso, um debate
que está convocando o eleitor a participar de um ‘ser ou não ser’”, afirma.
Invariavelmente, os estudantes apontam as redes sociais
como sendo a principal fonte de informação. De acordo com dados do
Instituto de Imprensa Norte-americano e da Associated Press-Norc Center for
Public Affairs Research, cerca de 88%
dos usuários consomem regularmente notícias a partir das redes sociais.
Cerca de 47% leem notícias sobre política nacional a partir do Facebook.
O cientista político Pedro Fassoni Arruda, da PUC-SP, diz que falar em “voto jovem” como bloco é um erro. “Tem o recorte de
idade, grau de escolaridade, sexo, cor da pele, se é de periferia, se é de
bairro nobre, se estuda em um colégio Dante ou Bandeirantes...”
Quando a reportagem ouviu estudantes da periferia da mesma idade, encontrou mais participação política e engajamento em projetos
comunitários, mas pouca gente disposta a tirar título de eleitor ou a fim de
participar de uma forma mais institucional.
“Política é
todo dia. A gente faz muita coisa
social, ajuda muitas famílias. Tenho grupo da igreja, tenho grupo na escola,
mas votar, votar mesmo, acho que posso deixar pra quando for obrigatório”,
afirma Rogério Motta Cruz, de 17
anos, aluno de uma escola estadual na zona leste de São Paulo.
Para a antropóloga Isabela Oliveira Pereira da Silva,
o voto não é a única forma de participação – e uma parcela desse eleitorado
percebeu isso. “Essa é uma geração que
vai atuar de outro jeito.”
Fonte: O Estado de S. Paulo – Política – Quinta-feira, 28 de
julho de 2016 – Pág. A5 – Internet: clique aqui.
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